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Suely Caldas
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O troca-troca não serve mais

Não deu. Lula tentou alcançar Michel Temer e a ala do PMDB pró-impeachment. Não conseguiu. Resignou-se com Jader Barbalho, no passado um ícone do partido no abominável jogo do troca-troca em Brasília e hoje um senador inexpressivo que se agarra ao cargo de secretário dos Portos, mimo que ele arrancou de Dilma Rousseff para o filho Helder. Algemado pela Polícia Federal em 2002 por desvio de verbas da Sudam, Jader foi o primeiro, mas muitos outros do PMDB o seguirão no enredo da Lava Jato, entre eles os presidentes da Câmara e do Senado. Pois bem, o senador paraense nem se deu ao trabalho de sair de casa, Lula foi humildemente até ele. Saiu de lá com dúvidas se realmente conseguiu votos contra o impeachment, mas, no dia seguinte, Dilma nomeou Luiz Otávio Oliveira Campos, aliado da família Barbalho, para a direção-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2016 | 04h00

De sedutor e artífice na arte do toma lá dá cá – função que exerceu nos últimos 15 anos com maestria, prazer, cargos, verbas e favores a oferecer –, Lula hoje mendiga apoio dos aliados de aluguel que antes o cortejavam e bajulavam. Chegou a montar um QG num hotel em Brasília e sua meta, agora, é atrair o Partido Progressista (PP), que detém a terceira maior bancada na Câmara e o maior número de políticos investigados na Lava Jato. Mas os deputados do PP já avisaram ao presidente do partido, Ciro Nogueira: o barco de Dilma afunda, melhor trocar pelo de Michel Temer.

Afinal, o que aconteceu? Por que o troca-troca não funciona mais?

Lula não inventou o troca-troca, que sempre existiu. Mas ele o escancarou, banalizou, espalhou por toda a administração pública e empresas estatais. Desmoralizou a função pública, entregando-a a bandoleiros oportunistas. E mais: acatando e até estimulando a ideia de que o cargo deve ser usado, em primeiro lugar, para beneficiar o partido de seu detentor. Servir ao País fica em segundo plano. Ainda agora, quando a população está morrendo com epidemias de dengue, microcefalia, chikungunya e gripe, a preocupação maior do governo é negociar o comando do Ministério da Saúde em troca de votos na comissão do impeachment. A prioridade é essa, a saúde pública fica ao relento. Se Lula foi o maior distribuidor, o PMDB foi o maior receptador de cargos, o partido que mais usufruiu do toma lá dá cá nos últimos anos. Daí o espanto do ministro do STF Luís Roberto Barroso: “Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder!”.

Realmente, ministro, estamos mal. Mas quem sabe estamos também diante de um cenário novo, que vem da pressão das ruas, da rejeição popular a esse perverso sistema de troca de benesses por apoio político em eleições e votos no Legislativo, que originou o mensalão, o petrolão e espalhou corrupção pelo País? Por vezes a história prega peça e ironiza seus protagonistas. Neste caso, a história derrotou o distribuidor de favores, mas também penalizou o receptador que pode, afinal, se apossar do poder direto que tanto ambicionou, mas vai governar engessado, com os cofres vazios, as mãos atadas, com políticos reivindicando favores e a pressão das ruas exigindo respeito. Claro, se o impeachment passar e o Tribunal Superior Eleitoral não cassar a chapa Dilma-Temer.

Temer nega que esteja negociando cargos e foge da imprensa quando o assunto é programa para um futuro governo. A portas fechadas, diz a empresários que vai economizar gastos, equilibrar as contas públicas, fazer a reforma da Previdência, estimular a privatização, etc. Mas não repete em público, temendo ser tachado de neoliberal.

Há tempos a democracia brasileira avança, ganha musculatura e as investidas dos políticos contra seu fortalecimento têm sido crescentemente condenadas publicamente – nas ruas e nas pesquisas de opinião sobre a popularidade de Dilma, do Congresso e dos partidos. Sem dúvida, a reforma política é o remédio eficaz para frear o toma lá dá cá. Mas os últimos acontecimentos o enfraqueceram, até porque a grave crise fiscal tornou escasso seu mais cobiçado alvo: o dinheiro público.

É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

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