O tsunami das carnes

Polícia Federal cometeu erros inaceitáveis para uma corporação que vem sendo prestigiada pela sociedade

Pedro de Camargo Neto*, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2017 | 05h00

O impacto da operação da Polícia Federal (PF), hoje já sentido pela população, exige maior reflexão. Ela apresentou indícios de crimes cometidos que precisarão ser apurados e os culpados, condenados. Coincidência ou não, a operação se iniciou no Paraná, lado a lado com a valorizada Operação Lava Jato.

Justifica-se, porém, o estardalhaço da Polícia Federal? Ela avaliou os riscos e prejuízos que podem advir da maneira como apresentou a operação? Os maiores prejudicados serão os que cometeram os crimes? Ou poderá ser a Nação, reflexo do tipo de exposição provocada?

A apresentação inicial da operação pela PF preocupou-se em informar que era a maior operação já realizada pela instituição, “com mais de mil funcionários nas ruas”. Informou ter identificado indícios de crimes gravíssimos, como a mistura de substâncias proibidas, carnes estragadas e até mesmo mistura de papelão. Identificou crimes funcionais de funcionários do Ministério da Agricultura. Caracterizou um sistema de pressão de funcionários públicos corruptos sobre empresas por eles fiscalizadas, com a participação de pressão política no processo.

Iniciada há cerca de dois anos, resultado de denúncia, a operação visava a esclarecer casos de conduta profissional de funcionários públicos. Por meio de escutas telefônicas e depoimentos, foram desenvolvidos os indícios de crimes que levaram o juiz federal a conceder as ordens de prisão e condução coercitiva de funcionários públicos e seus interlocutores no setor privado.

Na apresentação da operação, a Polícia Federal cometeu erros inaceitáveis para uma corporação que vem sendo prestigiada pela sociedade. O primeiro erro foi a espetaculosidade da apresentação, que levou a sociedade a acreditar que existia uma degeneração sistêmica na fiscalização sanitária das carnes e que os consumidores corriam riscos. A imprensa inicialmente acreditou na PF, abrindo grande espaço, que chegou até mesmo à imprensa internacional. Governos estrangeiros, acreditando na seriedade da Polícia Federal do Brasil, suspenderam importações.

O segundo erro foi os agentes deduzirem crimes por meio de aspectos técnicos sem estarem preparados para isso. Era uma equipe para investigar corrupção, não qualidade sanitária. Os veterinários do quadro da PF não foram utilizados. Nunca poderiam usar informações sem lastro científico para assustar os consumidores e realizar prisões.

Felizmente, o ministro Blairo Maggi reagiu prontamente, demitindo funcionários e iniciando dezenas de processos administrativos. Na sequência, o próprio presidente Michel Temer liderou reuniões, inclusive, com embaixadores de países importadores. Certamente, terão muitos dias de trabalho explicando aos importadores do Brasil o que realmente ocorreu e, mais do que isso, que a fiscalização existe e é de qualidade.

O dano, porém, já foi feito e um grande – não único – perdedor será o produtor rural, elo primeiro e mais fraco da cadeia produtiva das carnes. Avicultores se preocupam com a renovação do alojamento de animais. Seus contratos são de maior prazo e a indústria processadora está obrigada a absorver o impacto neste momento. Suinocultores têm menor participação nas exportações e ainda não sofrem as consequências.

Para o pecuarista de corte, porém, que tem um sistema de comercialização de mercado spot, em que preços e abates são definidos diariamente, com contratos verbais de curtíssimo prazo, a queda de preços já apareceu. Escalas de abate são postergadas, frigoríficos reduzem os dias semanais de abate, condições de pagamento são alteradas de modo unilateral e alguns negócios verbais já vão sendo desfeitos.

Vamos todos pagar muito caro por isso. O estardalhaço da Polícia Federal certamente detonou a imagem do produto do Brasil, com implicações ainda pouco sabidas. Também perdeu a PF, instituição essencial no combate ao crime no Brasil, o que também exige imagem de responsabilidade.

*Ex-presidente (1990-1993) e atual vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB)

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