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O viagra feminino, prejudicado pela disfunção do seu fabricante

Apesar do otimismo inicial, o Addyi nunca foi vendido facilmente e teve a sua eficácia questionada

Katie Thomas e Gretchen Morgenson, The New York Times

12 de abril de 2016 | 19h15

Em agosto de 2015, a Sprout Pharmaceuticals tinha em suas mãos um novo produto que rapidamente conquistou a imaginação do país. A Agência da Alimentação e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos acabava de aprovar o comprimido Addyi para o tratamento do escasso desejo sexual nas mulheres.

Apelidado pelos comediantes da TV de Viagra feminino, os analistas de Wall Street logo previram vendas fabulosas do medicamento. Nos testes clínicos, as mulheres informaram um pequeno, porém estatisticamente significativo aumento do número das experiências sexuais satisfatórias por mês.

"Foi um momento fantástico para as mulheres", declarou na época Cindy Whitehead, diretora executiva da Sprout, à revista Fortune.

As perspectivas melhoraram ainda mais para a Sprout um dia depois da aprovação da FDA, quando a Valeant Pharmaceuticals International, um laboratório cuja enorme capacidade de fazer negócios transformara na grande revelação da bolsa, comprou a Sprout por espantosos US$ 1 bilhão - o dobro do seu valor dois meses antes.

O que poderia dar errado? Quase tudo.

No prazo de algumas semanas após o negócio, a Valeant passou de ídolo dos investidores a pária, porque o seu modelo de empreendimento baseado na compra de medicamentos mais antigos no mercado, e o aumento dos preços provocaram escárnio internacional. Desde então, suas ações caíram 85%. Na segunda-feira, a Valeant demitiu toda a equipe de vendas do medicamento e anunciou que pretendia relançar o Addyi este ano. Até fevereiro, os médicos prescreveram a droga 4 mil vezes menos.

Entrevistas com ex-funcionários da Sprout, analistas, investidores e médicos que ajudaram a levá-lo ao mercado, sugerem que foi cometida uma série de erros depois que a conclusão do negócio, juntamente com a turbulência decorrente de agressivas práticas contábeis, relações inusitadas no campo dos negócios e egos gigantescos, provocou o fracasso de um dos mais novos e intrigantes produtos farmacêuticos da atualidade em toda uma geração.

A compra da Sprout pela Valeant se tornou um "fracasso colossal", segundo Vicki Bryan, analista da Gimme Credit, empresa de análise de dívidas. "Desmoronar em poucos meses? É extremamente alarmante".

Apesar do otimismo, o Addyi nunca seria vendido facilmente. Foram levantadas diversas objeções a respeito de sua eficácia e conveniência. As mulheres, por exemplo, precisariam tomá-lo diariamente e abster-se de bebidas alcoólicas. Os resultados decepcionantes surpreenderam e enfatizaram os problemas da Valeant.

Logo depois que a Valeant assumiu o comando, dobrou o preço do Addyi e decidiu vendê-lo às pacientes mediante uma farmácia que o distribuía por encomenda, a Philidor Rx Services.  Mas em seguida, a companhia anunciou que decidira cortar os vínculos com a Philidor, deixando o medicamento sem distribuidor.

Agora, os negócios do laboratório com a farmácia estão sob investigação federal, assim como sua política de preços, que os legisladores consideraram predadora.

A Valeant admitiu que as vendas do Addyi não corresponderam às expectativas, e que planejava investir mais no produto. A companhia defende sua política de preços.

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'A compra da Sprout pela Valeant se tornou um 'fracasso colossal', segundo analista'
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Uma figura importante na saga do Addyi é William A. Ackman, gerente de fundos hedge e um dos maiores investidores na Valeant. Seu fundo, o Pershing Square Capital Management, tornou-se um dos principais acionistas da Valeant na época em que suas ações estavam em alta.

Ackman adquiriu também uma participação pessoal na Sprout em junho de 2015, dois meses antes de o seu medicamento ser aprovado pela FDA.

Até recentemente, Ackman só tinha elogios para J. Michael Pearson, o diretor executivo da Valeant e arquiteto de sua estratégia. Mas atualmente, Ackman está buscando uma mudança e garantiu sua cadeira no conselho de direção. No mês passado, dias depois de sugerir que a companhia precisava implementar alguma mudança na administração, a Valeant substituiu Pearson.

Pearson não quis comentar o caso.

Ackman falou abertamente a respeito da Valeant, mas não quis discutir seu investimento na Sprout.

Na quarta-feira, num telefonema com investidores da Pershing Square, Ackman se mostrou otimista. "Podemos recuperar o valor dentro de muito pouco tempo", anunciou a respeito da Valeant.

Depois dos seus comentários, as ações da companhia subiram, mas é evidente que recuperar o US$ 1 bilhão que a companhia pagou pelo Addyi levará algum tempo.

Pearson, diretor executivo da Valeant, parecia distraído quando subiu ao pódio numa festa realizada em meados de outubro, cuja finalidade era insuflar energia na equipe de vendas do Abbyi; a companhia desmentiu. Os médicos expuseram os benefícios da droga, e as pacientes falaram de suas experiências.

Mas quando foi a vez de Pearson, ele esqueceu os nomes das pacientes que haviam acabado de falar. E brincou que a Valeant pagara demais pelo Addyi, segundo vários dos antigos funcionários que participaram da reunião. Ele saiu da sala poucos minutos depois, embora tivesse prometido ficar o dia todo.

Uma possível explicação do comportamento de Pearson surgiu dois dias mais tarde, quando a Valeant revelou que a companhia havia recebido uma intimação dos promotores federais que queriam informações a respeito de suas práticas de vendas, inclusive das decisões referentes à política de preços.

As pressões começaram a aumentar. Os analistas estavam questionando o modelo de negócio da Valeant. O Congresso queria informações sobre sua política de preços. E uma empresa de pesquisa de investimentos que apostara contra as ações da Valeant publicou um artigo criticando a contabilidade da companhia.

Depois de, por vários anos, ter sido a empresa favorita dos investidores, os ventos mudaram para a Valeant.

Ao mesmo tempo, as decisões tomadas pela companhia passaram a prejudicar o Addyi, segundo ex-funcionários. Por exemplo, assim que a Valeant se tornou a proprietária do medicamento, dobrou o seu preço para US$ 800.

Laurie Little, porta-voz da Valeant, informou que os programas de assistência financeira estavam disponíveis a pessoas sem plano de saúde. As seguradoras de saúde, afirmou, muito provavelmente receberiam descontos para fazer com que a droga custasse menos de US$ 800.

Na realidade, as companhias relutavam. A CVS/Caremark, gerente de benefícios de farmácia, notificou a Valeant várias semanas antes do lançamento da pílula, afirmando que ela não cobriria o Addyi ao preço de US$ 800, de acordo com uma carta que os acionistas da Sprout enviaram à Valeant em março.

Distribuição. Quando o preço se tornou o problema, o mesmo aconteceu com a distribuição. Antes da compra da Valeant, a Sprout se associou à Cardinal Health, uma das maiores distribuidoras de medicamentos do país. Mas quando a Valeant assumiu, acabou com o acordo, disseram ex-funcionários, entregando o problema crucial à Philidor, que fechara as portas.

Agora os acionistas da Sprout, em sua carta à Valeant, afirmam que confiar à Philidor a distribuição do produto foi um erro fundamental.

Ex-funcionários da Sprout dizem que as mudanças introduzidas na estratégia de marketing dificultaram seus esforços para promover o remédio junto aos médicos.. Eles também alegam que não têm acesso a diversos instrumentos de vendas mais comuns, inclusive materiais promocionais básicos, como cartazes e folhetos. A Valeant também interrompeu um programa planejado de conferências no qual os médicos explicavam o medicamento aos colegas.

As semanas passaram, e numerosos integrantes da equipe de vendas começaram a suspeitar de que a Valeant não estava interessada ou não conseguia vender o Addyi, segundo admitiram ex-funcionários. Perto do final do ano passado, Whitehead saiu, e os representantes de vendas também começaram a sair. Suas vagas não foram preenchidas, e este mês, a companhia está demitindo o restante da equipe de vendas.

 O dr. James A. Simon, membro do conselho de assessores científicos da Valeant para o Addyi, disse que aparentemente a companhia perdeu o pé da situação. A empresa tinha experiência na venda de produtos mais antigos com um mercado já estabelecido, mas não no de novas drogas.

"A Valeant não produz os remédios do zero", disse o dr. Simon, que foi diretor médico da Sprout de 2012 1 2013. "Este produto precisava ter sido desenvolvido internamente".

Tradução de Anna Capovilla

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