O vírus da desigualdade

Pode-se dizer que em 2020 o Banco Central colocou a inflação abaixo da meta – para os ricos

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 05h00

Lastenia nasceu no interior da Bahia e mudou-se para São Paulo há muitos anos. Sem melhor opção, acabou trabalhando como empregada doméstica. Ela provavelmente não sabe, mas o IPCA fechou 2020 com uma variação de 4,5%, acima da meta de 4%. Não chega a ser uma novidade. Nos 21 anos de vigência do regime de metas, a inflação ficou 16 vezes acima do alvo. Se alguém contar para Lastenia que a inflação foi de 4,5% no ano passado ela vai rir (Lastenia ri à toa). Ela tem razão. A Carta de Conjuntura do Ipea de dezembro de 2020 mostra que a inflação para pessoas com renda abaixo de R$ 1.650,50 ficou em 6,22%. Na outra ponta, a inflação dos bacanas e bacaninhas que ganham mais de R$ 16,5 mil se contentou com 2,74%. Pode-se dizer que em 2020 o Banco Central colocou a inflação abaixo da meta – para os ricos.

Esta discrepância, a maior da série histórica, tem que ver com o comportamento incomum da taxa de câmbio e do preço das commodities, no contexto de uma recessão sem precedentes. Em geral, um aumento no preço das commodities traz mais dólares para o Brasil, o que contribui para a valorização da nossa moeda. A correlação entre variação anual do dólar e variação anual do preço das commodities foi negativa em 0,52%, considerando as 252 observações entre janeiro de 2000 e dezembro de 2020. No ano passado, no entanto, tanto as commodities como o dólar se valorizaram, o que significou um aumento, em reais, de 72% dessas mercadorias. Este choque se materializou com muita clareza no aumento no custo dos alimentos.

O custo do item Alimentação no Domicílio no IPCA cresceu nada menos que 18,2% em 2020, a maior elevação desde 2002. Como este item tem maior peso no orçamento das famílias pobres, a inflação foi maior para elas. Na outra ponta, a dos ricos, o que segurou a inflação? Em grande parte, a inflação na alta renda foi puxada para baixo pelos serviços. O item Serviços Pessoais fechou 2020 com uma inflação de 1,3% apenas, ao passo que o subitem Empregados Domésticos aumentou 1,7%. Lastenia, desta forma, paga duas vezes. Paga muito mais caro para comer e paga também porque o preço do seu serviço não acompanha a inflação média – o que, ironicamente, ajudou a manter baixa a inflação dos mais ricos. A penitência tem duas lâminas, como uma tesoura.

O setor de serviços, que representa 76% do PIB, foi o mais severamente afetado pela pandemia. O volume total de serviços, de acordo com o IBGE, era em novembro do ano passado ainda 4,7% menor que em novembro de 2019 – e 13,2% menor que em novembro de 2014. A variação em 12 meses, ante o mesmo período anterior, estava em -7,4%. O volume de serviços prestados às famílias caiu ainda mais: 26,1% entre novembro de 2020 e novembro de 2019, e nada menos que 33,4% na taxa anualizada. Aqui a recuperação será lenta, na dependência do avanço da vacinação, algo desdenhado pelo governo federal, que combina desdém, inépcia e má-fé em doses letais. Propõe apenas que a epidemia deva ser ignorada e pretere o debate transparente das ideias em favor de vitupérios chulos.

O desdobramento político deste quadro não é difícil de adivinhar. Com o deliberado atraso na vacinação, o setor de serviços vai se arrastar por todo o ano. A combinação entre desemprego alto e queda da renda real deve erodir ainda mais a cambaleante popularidade do governo, no rastro de uma elevação de juros que já provoca comichões no Banco Central. Neste contexto, o avanço de reformas no Congresso – que terá o governo como refém – será ainda mais difícil, se não impossível. As Lastenias do Brasil têm uma vida fatigante. Perdem na ida e na volta. Mas provavelmente não lhes faltará memória nas eleições do próximo ano.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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