O volátil etanol e os humores ciclotímicos

Era mais um ano perdido de produção de etanol (fim dos anos 90) e o então governador de São Paulo, Mário Covas, deu o diagnóstico: "Vocês precisam de demanda." Esforços e políticas públicas vieram, principalmente o carro flex (2004). Uma demanda incrível foi criada, em cenário de petróleo acima de US$ 100/barril. Os investimentos na cana atingiram crescimento anual de dois dígitos.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2011 | 00h00

Em 2011, os preços subiram muito, como ocorrera em 2010. Todos os brasileiros sabiam que o consumo era elevado para uma oferta trancada pela "marolinha" de quatro metros de 2008! Faltou, no entanto, o diagnóstico de Covas, que seria certamente: "Vocês precisam ofertar."

As políticas públicas devem buscar os maiores efeitos sociais, nos campos econômico, ambiental e de geração de emprego. O setor canavieiro, extraordinário gerador de efeitos positivos, tem sempre duas vertentes: a do "mal", usada pelos políticos com a mensagem de "falta de compromisso dos produtores"; e a do "bem", muito pouco usada. Viver nessa ciclotimia é quase um transtorno bipolar, só explicado por psiquiatras.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP), por lei, é executora e não formuladora de políticas públicas. O Ministério da Agricultura, no entanto, é agente de política pública, ou seja, há o risco de politicamente o setor se enfraquecer. A medida provisória que reduziu a mistura para diminuir a demanda de etanol amplia o uso da gasolina importada. Se o mercado é assim reprimido, a cana vai ser desviada para o hidratado (crescente mercado) ou para o açúcar (aí o governo ameaça com taxa de exportação). Nada novo!

Ainda não temos política pró-ativa. Há sempre uma ação reativa. Se o agronegócio canavieiro é realmente importante para o País, deve-se buscar o equilíbrio. Isso significa compromisso do produtor a um pedido firme e formal do governo. Nos EUA, o subsídio à distribuidora é mão de duas vias. Aqui, não. E, por isso, sempre alguém perde. O compromisso ajudaria muito.

VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGRIBUSINESS (ABAG) E CONSULTOR DA CANAPLAN

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