Fábio Motta/ Estadão
BNDES pagou R$ 42,7 milhões por auditoria que investigava "caixa-preta". Fábio Motta/ Estadão

OAB quer que BNDES forneça cópias de contratos de auditoria da 'caixa-preta'

Corregedor nacional da Ordem pediu uma série de documentos relacionados à contratação de escritório que recebeu R$ 42,7 milhões para investigar operações de crédito do banco

Rafael Moraes Moura e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 08h06

BRASÍLIA - O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) quer que o BNDES forneça cópias dos contratos envolvendo a contratação de uma auditoria externa para abrir a "caixa-preta" do banco. Em ofício obtido pela reportagem, o corregedor nacional da OAB, Ary Raghiant Neto, solicitou o envio de documentos "para melhor análise do caso concreto" e verificar o "cumprimento" de normas sobre a atividade profissional de escritórios estrangeiros de advocacia no Brasil.

Na semana passada, a OAB enviou um ofício ao BNDES com questionamentos sobre a legalidade da contratação do escritório estrangeiro Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP para realizar serviços de auditoria no BNDES em operações relacionadas ao Grupo J&F, que controla a JBS.  

O custo total dos serviços subiu dos iniciais R$ 23,4 milhões para R$ 42,7 milhões no fim das investigações. O valor é diferente dos R$ 48 milhões informados pelo BNDES via Lei de Acesso à Informação (LAI) por causa da taxa de câmbio usada no cálculo.

Segundo o Estado apurou, a resposta enviada pelo BNDES não foi considerada satisfatória pela OAB, o que levou a instituição a pedir novas informações.

Desta vez, o corregedor nacional da OAB pediu ao BNDES uma série de documentos, entre eles cópias do edital de licitação e seus anexos e do contrato firmado entre BNDES e o escritório Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP (responsável pela condução do processo de investigação independente).

O corregedor também quer cópias dos contratos de subcontratação do escritório Levy & Salomão Advogados (subcontratado pelo Cleary para análise da legislação nacional) e das empresas Protiviti Inc (prestadora de serviços de TI para a apuração), KPMG Assessores Ltda e Grant Thornton Auditoria e Consultoria Ltda, além dos relatórios das auditorias apresentados.

A KPMG e a Grant Thornton tocaram a "shadow investigation" (investigação sombra, em tradução livre), uma espécie de função de "revisor da auditoria".

Esclarecimentos

Em resposta à OAB, o BNDES alegou que o objetivo da investigação independente foi a avaliação de eventuais impactos das operações realizadas pelo BNDES/BNDESPar com o grupo J&F no contexto das investigações conduzidas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América.

"A assessoria quanto à análise do direito brasileiro no âmbito desta atividade foi realizada pelo escritório nacional Levy & Salomão, subcontratado pelo Cleary, por lhe faltar a expertise necessária para se pronunciar sobre a legislação pátria", informou o banco.

"Neste caso, é permitido ao escritório estrangeiro realizar diretamente a subcontratação de escritório nacional, tendo o Cleary efetuado pesquisa de mercado com escritórios de notória experiência em matéria de compliance, o que culminou com a escolha do Levy & Salomão, que possui vasta experiência nas áreas de compliance e anticorrupção, governança e ética corporativa", acrescentou o BNDES, em resposta publicada na página oficial do banco.

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O BNDES e as investigações internas milionárias

Montante daria para pagar o salário médio de cerca 150 auditores da CGU por um ano e fiscalizações teriam conclusões mais acuradas

Luiz Navarro*, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 04h00

Rezam as cartilhas do compliance anticorrupção que, em face de denúncias ou de supostas irregularidades, as empresas devem realizar investigações internas, a fim de averiguar se os fatos supostamente ilegais procedem, devendo, idealmente, reportá-los às autoridades, caso constatados. Foi isso que ocorreu no Brasil, nos casos da Petrobrás, da Eletrobrás e agora do BNDES.

Nada de errado nisso. O ponto de destaque deste artigo é outro. Tais investigações internas, apesar de milionárias, são muitas vezes inúteis. Ou seja, não alcançam resultados que as justifiquem e, ao contrário do objetivo inicialmente pretendido, isto é, de aprofundar o exame de possíveis "maus feitos", tornam-se quase que peças de defesa a escamotear possíveis impropriedades.

Normalmente, os escritórios de advocacia contratados nesses casos, que lideram as investigações internas, pelo fato de que as informações encontradas nas averiguações ficam protegidas pelo sigilo profissional entre o advogado e seu cliente (“attorney client privilege”), subcontratam empresas especializadas na garimpagem de grandes massas de dados.

Por exemplo, em uma investigação interna, é inevitável que o escritório de advocacia contratado demande de empresa especializada em informática subcontratada o espelhamento dos discos rígidos dos computadores corporativos utilizados pelos envolvidos nos fatos e, a partir daí, tentar encontrar, nesse colossal conjunto de “terabytes”, indícios da prática de ilícitos.

A operação, por vezes, se torna risível, pois, se uma notícia publicada pela imprensa revela que corruptos, naquele caso específico, se referiam à propina, paga em reais ou dólares, como entrega de “peixes”, passa-se a pesquisar, nos e-mails dos suspeitos, se eles mencionaram “peixes”, em suas mensagens eletrônicas. Coitados dos verdadeiros pescadores.

Descontados os exageros do exemplo, embora real, o fato é que, sobretudo em tempos posteriores à Lava Jato e mesmo antes, mensagens comprometedoras, indicativas de atos de corrupção, por óbvio, são escassas ou inexistentes, mas o universo pesquisado é imenso, o que encarece a conta de honorários advocatícios, fazendo a alegria de muita gente, mesmo daquelas que trabalham de forma séria e profissional.

Veja-se, por exemplo, o caso do BNDES, o que é mais efetivo? Procurar no HD dos computadores do banco registros da evidência de que houve relações promíscuas entre a J&F e os técnicos da estatal – pelos quais, aliás, tenho, via de regra, o maior respeito – ou assinalar, como fez o Tribunal de Contas da União, que o prazo médio das operações de crédito, no âmbito do BNDES, dura em torno de 150 dias úteis, enquanto que, no caso da empresa dos irmãos Batista, durou apenas 22 dias úteis? E, além disso, apontar, como novamente indicou o TCU, que, na operação realizada pela J&F com o BNDES, foi utilizada a média das ações da empresa de frigorífico dos 120 últimos pregões da Bolsa, enquanto a praxe, informada pelo próprio banco, é utilizar os últimos 30, 60 ou 90 pregões?

A utilização de uma ou de outra média, ainda conforme o órgão de controle externo (TCU), dá uma variação que oscilaria entre R$ 4,74 e R$ 7,07 por ação. É muita discrepância. Salta aos olhos.

Hoje, vive-se uma situação, no mínimo, esdrúxula, não se sabe se devemos questionar o trabalho do escritório de advocacia ou valor que lhe foi pago? Talvez ambos devam ser escrutinados.

Causa, ainda, um constrangimento maior saber que as investigações internas estão resguardadas por sigilo? Como assim, o banco não é público?

O próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, como qualquer outro cidadão, se surpreendeu com o valor pago pelo BNDES ao escritório estrangeiro para a execução das investigações internas ou de “auditoria”, como muitas vezes se referem os meios de comunicação ao serviço contratado pelo banco. Também se surpreendeu ao saber que um dos aditivos do contrato com a empresa responsável pela investigação foi firmado sob as barbas do seu governo, sem qualquer questionamento do atual presidente do BNDES, Gustavo Montezano.

Em entrevista coletiva, Montezano disse que o banco pagou R$ 42,7 milhões pelas investigações internas conduzidas pela empresa Cleary Gottlieb Hamilton & Steen LLP, tentando explicar o inexplicável, uma vez que o resultado da investigação interna contraria as investigações do TCU, do Ministério Público Federal e da própria delação premiada de Joesley Batista, que assumiu ter pago propinas para obter vantagens no BNDES. 

O montante pago para a Cleary Gottlieb daria para pagar o salário médio de cerca 150 auditores da Controladoria-Geral da União por um ano inteiro de trabalho, cujas fiscalizações, certamente, resultariam em conclusões mais acuradas, relevantes e confiáveis, pelo prestígio que goza o órgão de controle interno, sem nenhum denodo à empresa contratada pelo BNDES.

Como alternativa para que o mote da campanha de abrir a caixa-preta do BNDES não seja promessa não cumprida, seria conveniente determinar à Controladoria-Geral da União que audite esse imbróglio.

* EX-MINISTRO DA CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO E EX-PRESIDENTE DA COMISSÃO DE ÉTICA PÚBLICA DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

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BNDES não descarta auditoria na Odebrecht

Nova apuração dependerá de avaliação do ‘custo-benefício’, diz diretor de compliance

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 21h01

O BNDES não descarta deflagrar no futuro uma nova leva de auditorias em contratos que a instituição considere suspeitos, embora assegure não ter encontrado indícios de ilegalidades nas operações realizadas em gestões anteriores. Como mostrou o Estadão, o plano original era apurar eventuais irregularidades nas transações do banco com a Odebrecht logo após a conclusão das análises nas operações com o Grupo J&F. Qualquer nova apuração, no entanto, dependerá da avaliação de “custo-benefício”, disse o diretor de compliance do BNDES, Claudenir Pereira.

A sinalização do banco ocorre depois de a instituição ter que dar explicações sobre o gasto de R$ 48 milhões com uma auditoria externa para analisar oito operações com empresas do grupo J&F. O custo foi revelado pelo Estado após o próprio BNDES prestar as informações via Lei de Acesso à Informação. Ontem, o banco disse ter revisto as taxas de câmbio usadas nos pagamentos em dólar a escritórios internacionais, reduzindo o custo para R$ 42,7 milhões.

A mudança no valor ocorre um dia após o presidente Jair Bolsonaro dizer que achava “esquisito” o gasto com a auditoria e que parecia que “alguém quis raspar o tacho”. Em entrevista convocada para prestar esclarecimentos, o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, disse que “não foi o caso” de alguém ter cobrado acima do preço devido e que o gasto “foi necessário”.

Segundo Montezano, a contratação da auditoria para as operações com a J&F foi feita por recomendação da KPMG, auditor independente que dá o parecer sobre as demonstrações contábeis do banco. É ela que confere uma espécie de selo de que as informações são confiáveis e fidedignas.

O custo inicial projetado em 2018 era de R$ 23,4 milhões, sendo R$ 19,6 milhões aprovados em fevereiro daquele ano para o escritório estrangeiro Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, além de mais R$ 3,766 milhões para que a própria KPMG atuasse como uma espécie de “revisor” do trabalho da banca internacional.

Em novembro de 2018, com ampliação da quantidade de dados a serem processados e o maior número de depoimentos a serem coletados, o Conselho de Administração e a diretoria do banco aprovaram uma primeira suplementação no contrato, no valor de R$ 5,067 milhões.

Montezano disse ainda que, em 2 de julho de 2019, foi aprovado o aumento do escopo da auditoria para abarcar informações levantadas pela Operação Bullish (da Polícia Federal e do Ministério Público Federal) e pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas no Congresso sobre o tema. Com isso, o custo da auditoria aumentou em R$ 11,9 milhões. O presidente do banco, porém, ressaltou que a aprovação se deu um dia antes de ele tomar posse oficialmente no cargo. “Sem o aumento do escopo, o relatório da auditoria teria ressalva que praticamente o invalidaria”, argumentou Montezano.

O presidente do BNDES disse que o único aditivo aprovado em sua gestão foi um adicional de R$ 2,3 milhões no contrato com a auditoria KPMG, para que ela acompanhasse os trabalhos da investigação externa como revisora.

Na semana passada, o Estado mostrou que um aditivo de US$ 3,5 milhões no contrato com o Cleary foi aprovado em outubro de 2019, já na gestão Montezano. O diretor jurídico do BNDES, Saulo Puttini, argumentou que esse aumento foi feito para ampliar o valor do “contrato guarda-chuva” e permitir que o escritório continuasse prestando serviços jurídicos ao banco, sem relação com a auditoria externa.

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Bastidores: No Palácio, desempenho de Montezano não agrada por deixar Bolsonaro 'exposto'

A expressão "caixa-preta", um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro, não foi usada uma única vez pelo presidente do banco

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 18h36

O desempenho do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, em dar explicações sobre a auditoria milionária no banco desagradou no Palácio do Planalto.

A avaliação de interlocutores do presidente é que o "garoto" deixou o presidente Jair Bolsonaro "exposto" ao insistir que não houve nenhuma irregularidade nos desembolsos do banco para o grupo J&F, dos irmãos Batista.

"Como você explica para uma população geral, que paga altos impostos, que não tem escola, não tem saúde, não tem segurança, que a gente emprestou R$ 20 bilhões para (quem se envolveu em) um dos maiores esquemas de corrupção da história, com o dinheiro deles (população), e não teve nada de ilegal?”, questionou Montezano, para depois ele mesmo responder: " A verdade é que a gente concluiu que não houve nada de ilegal".

A expressão "caixa-preta", um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro, não foi usada uma única vez pelo presidente do banco.

Para muitos apoiadores do presidente, a sua abertura teria potencial para revelar malfeitos maiores do que os descobertos pela Operação Lava Jato na Petrobrás.

Logo após a vitória nas urnas, o presidente eleito se comprometeu a determinar, no início do mandato, "a abertura da caixa-preta do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos".

A "sorte" de Montezano, segundo os interlocutores do presidente, é que o chefe imediato dele é o ministro da Economia, Paulo Guedes, que considerou  o desempenho "satisfatório". Pelo menos, no momento. 

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'Acho que é um elogio', diz presidente do BNDES sobre ter sido chamado de 'garoto' por Bolsonaro

O executivo afirmou que não conversou pessoalmente com Bolsonaro depois que o presidente criticou publicamente o custo da auditoria

Patrik Camporez e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 12h36

BRASÍLIA - O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, agradeceu nesta quarta-feira, 29, ter sido chamado de "garoto" por Jair Bolsonaro. "Acho que é um elogio", afirmou em coletiva de imprensa para explicar o gasto do banco com a auditoria da "caixa-preta" nas operações com o grupo J&F.

Na terça-feira, 28, Bolsonaro disse: "É o garoto lá, foi o garoto, porque, conheço por coincidência desde pequeno, o presidente do BNDES é um jovem bem intencionado. E ele que passou as informações disso que falei para vocês agora que são os aditivos. A ordem é não passar a mão na cabeça de ninguém. Expõe logo o negócio e resolve".

O presidente também disse que "tem coisa esquisita" na auditoria. "Parece que alguém quis raspar o tacho". "(Com relação à fala do presidente) Entendi que parecia que alguém queria gastar todo dinheiro. A gente provou aqui (na coletiva de imprensa) que não foi o caso", rebateu Montezano, após exibir planilhas que detalhavam os aditivos das contratações.

"Meu entendimento em relação ao que 'está esquisito' é que era importante a gente estar aqui para esclarecer o que está esquisito. A gente fez um trabalho extenso de revisão de tudo o que aconteceu no banco para dar segurança e esclarecimento. A gente veio a público", afirmou.Ao encerrar a coletiva ele afirmou no entanto que, naquele momento, todas as questões estavam "exauridas". O executivo afirmou que não conversou pessoalmente com Bolsonaro depois que o presidente criticou publicamente o custo da auditoria. "Foi com interlocutores, não foi pessoal".

A abertura da "caixa-preta" foi uma das missões conferidas por Jair Bolsonaro ao Montezano, que tomou posse em substituição a Joaquim Levy, primeiro nomeado pelo governo para comandar a instituição. Ele se juntou a outros executivos que passaram pelo banco após o fim da gestão Dilma Rousseff e tiveram dificuldades para comprovar irregularidades na concessão dos financiamentos.

No governo Temer, Maria Silvia Bastos Marques evitou o assunto. Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira negaram sua existência. "Ou sou um completo idiota ou não existe 'caixa-preta' no BNDES", chegou a dizer Rabello.

Levy falou em "ter clareza sobre operações do passado", mas não chegou a avançar na busca por operações fraudulentas. A dificuldade foi apontada como um dos motivos para a insatisfação de Bolsonaro com sua gestão - o executivo pediu demissão após o presidente dizer em entrevista que estava "por aqui" com ele.

A "caixa-preta" foi um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro. Para muitos apoiadores do presidente, a sua abertura teria potencial para malfeitos maiores do que os descobertos pela Operação Lava Jato na Petrobrás.

Logo após a vitória nas urnas, o presidente eleito se comprometeu a determinar, no início do mandato, "a abertura da 'caixa-preta' do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos".

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Após afirmar que banco não fez nada ilegal, presidente do BNDES diz que Brasil 'legalizou' corrupção

Durante entrevista para explicar auditoria que investigou 'caixa-preta', Gustavo Montezano disse que o País 'construiu leis, normas, aparatos legais e jurídicos que tornaram legal esse esquema de corrupção'

O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 11h59

BRASÍLIA - Após nove dias de silêncio, o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que “não há mais nada a esclarecer” sobre o resultado de uma auditoria milionária que não encontrou irregularidades nas operações do banco com as empresas do Grupo J&F.

Montezano declarou que “não houve nada de ilegal”. Por outro lado, disse que o próprio País “legalizou” um esquema de corrupção que teria resultado, entre outros malfeitos, no uso indevido dos recursos financiados pelo banco. “A gente (Brasil) construiu leis, normas, aparatos legais e jurídicos que tornaram legal esse esquema de corrupção. A conclusão é essa”, disse ele, sem elencar quais leis deveriam ser alteradas para coibir a mesma prática no futuro.

Não pegou bem

No Palácio do Planalto, o desempenho de Montezano, que foi chamado de “garoto” pelo presidente Jair Bolsonaro, não foi aprovado. Eles consideraram que a explicação dada para a contratação da auditoria ainda deixou o presidente “exposto”.

No banco, a avaliação é que Montezano não conseguiu “proteger” os funcionários e deslizou ao dar lição de moral sobre como o Brasil “legalizou” a corrupção. A avaliação é de que não tinha necessidade de o presidente do BNDES fazer uma abordagem política do problema.

O presidente do BNDES decidiu falar sobre o caso após o presidente Jair Bolsonaro afirmar que tinha “coisa esquisita” na contratação da auditoria que abriria a “caixa-preta” do banco. O Estado revelou que Montezano autorizou o último aumento do contrato, que elevou o preço de US$ 14 milhões para US$ 17,5 milhões, chegando à polêmica cifra de R$ 48 milhões.

Em uma entrevista de uma hora e meia, convocada para dar explicações sobre a contratação da auditoria, Montezano, que disse ter visto como um “elogio” a menção de garoto, feita por Bolsonaro, não citou sequer uma vez o termo “caixa-preta”, o qual foi popularizado pelo presidente e que ganhou os holofotes na última campanha eleitoral. Bolsonaro defendeu várias vezes a abertura da investigação e cobrou do antecessor de Montezano na presidência do BNDES, Joaquim Levy, uma investigação detalhada sobre os contratos. Levy acabou pedindo demissão em junho do ano passado após Bolsonaro dizer que estava “por aqui” com ele.

Montezano insistiu que não foi encontrada nenhuma ilegalidade no banco, embora o presidente ainda defenda a investigação nas operações da instituição, tema da campanha que o elegeu. Segundo essas fontes, a “vantagem” do presidente do BNDES é que o chefe direto dele é o ministro da Economia, Paulo Guedes, a quem o presidente sempre ouve.

À frente da Operação Bullish, que mira os negócios entre o BNDES e o Grupo J&F, o procurador Ivan Marx afirma que as investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal apontam crimes de gestão fraudulenta e até exportação da corrupção. O ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega viraram réus a partir dos achados da operação. “Não encontramos legalização da corrupção. Se houve, é importante que se demonstre como ocorreu e quem o fez”, afirma o procurador.

Montezano repetiu diversas vezes que o banco não encontrou nenhuma ilegalidade nas operações passadas, as quais abrangem, inclusive, o período do governo petista. As investigações nos contratos com a JBS, por exemplo, miraram as operações de 2005 a 2018. “O BNDES está pronto para virar a página”, afirmou. / IDIANA TOMAZELLI, PATRIK CAMPOREZ, TÂNIA MONTEIRO E ADRIANA FERNANDES

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Presidente do BNDES diz que 'não há nada mais a esclarecer' sobre desembolsos feitos pelo banco

Segundo Gustavo Montezano, investigações internas não encontraram nenhuma irregularidade no empréstimos para o grupo J&F nem em outras operações

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 11h08

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que “não há nada mais esclarecer” em relação às operações passadas da instituição de fomento. Segundo ele, as investigações internas do banco não encontraram nenhuma irregularidade nas operações com o grupo J&F ou em quaisquer outras operações. “Não houve nada de ilegal”, disse.

A “caixa-preta” do BNDES ganhou espaço no debate entre políticos e sociedade e foi um dos pontos explorados durante a última campanha presidencial. O presidente Jair Bolsonaro defendeu várias vezes a abertura da “caixa-preta”.

Montezano disse que é “razoável” que cidadãos tenham dúvidas em relação a operações que somaram mais de R$ 20 bilhões com uma empresa envolvida em apurações sobre corrupção, como a JBS. Quando questionado sobre o uso eleitoral, ele disse que os políticos representam os cidadãos e que os questionamentos são “legítimos”. “Nossa função é esclarecer”, afirmou. "Nada de ilegal foi encontrado no BNDES, e o banco já foi visto e revisto por diversas frentes de investigações internas e externas."

O atual presidente do BNDES evitou comentar se a demissão de seu antecessor, Joaquim Levy, foi justa ou não. “Não cabe a mim comentar”, afirmou. Levy foi rifado por Bolsonaro após dizer “ter clareza sobre operações do passado”. Ele não chegou a avançar na busca por operações fraudulentas, e a dificuldade foi apontada como um dos motivos para a insatisfação de Bolsonaro com sua gestão. O executivo pediu demissão após o presidente dizer em entrevista que estava "por aqui" com ele.

Montezano afirmou que, hoje, a função dos executivos do banco é “recuperar a reputação” do BNDES. “Não estamos aqui para culpar ninguém, mas sim para esclarecer os fatos. Nossa função como executivo é dar total transparência. O BNDES hoje não tem mais nada a esconder. Não houve nada de ilegal”, disse.

Apesar do resultado da auditoria externa contratada pelo banco, o diretor jurídico do BNDES, Saulo Puttini, reconheceu que investigações privadas têm “limitações inerentes” e afirmou que o trabalho “não se contrapõe” aos resultados das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas pelo Congresso ou da Operação Bullish, da Polícia Federal. Ambas indiciaram responsáveis por irregularidades nas operações.

“Não se encontrou (na investigação privada) evidência de corrupção, suborno ou interferência indevida nas operações com JBS”, disse Puttini, ressaltando que o BNDES tem interesse em colaborar com as demais investigações das CPIs ou da Bullish.

Montezano, por sua vez, afirmou que a investigação foi feita para apurar fatos, “não para torcer para um lado ou outro”. Ele também pediu desculpas pela demora, embora considere que nove dias para um “tema sensível” não seja tanto tempo. O Estado revelou o custo da auditoria externa, de R$ 48 milhões (hoje corrigidos para R$ 42,7 milhões pelo BNDES por uma diferença em relação ao câmbio), em 20 de janeiro.

“O BNDES está pronto para virar a página. O BNDES é um agente fundamental para recuperação econômica”, afirmou o presidente do banco.

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Com câmbio diferente, presidente do BNDES contradiz banco e diz que auditoria custou R$ 42,6 milhões

O próprio banco havia informado que serviço para investigar suposta 'caixa-preta' havia custado R$ 48 milhões

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 10h40

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para avaliar oito operações com empresas do grupo J&F custou R$ 42,666 milhões.

O próprio BNDES havia informado ao Estado, via Lei de Acesso à Informação, que o custo total era de R$ 48 milhões. Montezano esclareceu, porém, que a diferença se deve ao fato de que os pagamentos em dólar passaram a ser convertidos ao câmbio do dia do repasse.

Segundo Montezano, o custo inicial total projetado em 2018, no momento da contratação da auditoria, era de R$ 23,4 milhões. “O Conselho de Administração e a diretoria concluíram (em novembro de 2017) que a investigação externa era primordial”, justificou o presidente do BNDES.

Segundo ele, em 2018 houve uma ampliação da quantidade de trabalho das investigações, com maior volume de dados, o que levou a uma primeira suplementação em novembro daquele ano, no valor de R$ 5,067 milhões.

Montezano disse ainda que, em 2 de julho de 2019, foi aprovado o aumento do escopo da auditoria para abarcar informações levantadas pela Operação Bullish e pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas no Congresso sobre o tema. Ele ressaltou a data dizendo que foi um dia antes de ele tomar posse oficialmente como presidente.

O aumento do escopo ampliou em R$ 11,9 milhões o valor do contrato. “Sem o aumento do escopo, relatório teria ressalva que praticamente o invalidaria”, disse.

Montezano disse que o único aditivo aprovado em sua gestão foi um adicional de R$ 2,3 milhões no contrato com a auditoria KPMG para que ela acompanhasse os trabalhos da investigação externa como uma espécie de revisor, no que é chamado no jargão do setor como “auditoria shadow”.

O presidente do BNDES ainda exibiu um vídeo de seu depoimento na CPI do BNDES em que ele, em agosto de 2019, informava que o valor da auditoria poderia se aproximar dos R$ 45 milhões.

Aditivo

O diretor jurídico do BNDES, Saulo Puttini, afirmou ainda que o aditivo de US$ 3,5 milhões aprovado em outubro de 2019 no contrato com o Cleary foi feito para ampliar o valor do contrato guarda-chuva para serviços jurídicos. “Os valores ficam em stand by para uso à medida que serviços jurídicos forem sendo demandados, para o banco não ficar descoberto na área internacional”, disse.

“O aditivo contratual em outubro de 2019 não diz respeito à investigação sobre a JBS, mas sim ao contrato guarda-chuva”, acrescentou o diretor.

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Auditoria de 'caixa-preta' mirou empréstimos de R$ 21,2 bi ao grupo J&F, diz presidente do BNDES

Gustavo Montezano se pronuncia pela primeira vez sobre o caso desde que o 'Estado' revelou que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação para apurar eventuais irregularidades em operações de empréstimo

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 09h55

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para investigar contratos do banco com as empresas do grupo J&F mirou oito operações que, em valores atualizados, somaram R$ 21,2 bilhões. “O valor é quase equivalente a todo o valor desembolsado pelo BNDES a grandes empresas em 2019”, afirmou Montezano.

Essa é a primeira vez que o presidente do BNDES se pronuncia desde a revelação em 20 de janeiro, pelo Estado, de que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação externa para apurar eventuais irregularidades em operações com as empresas JBS, grupo Bertin e Eldorado Brasil Celulose, realizadas entre 2005 e 2018.

O valor foi pago a um escritório estrangeiro, o Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, que subcontratou outro brasileiro, o Levy & Salomão.

Segundo Montezano, o objetivo da investigação era apurar evidências de violação de leis anticorrupção no Brasil ou nos Estados Unidos por integrantes do banco, como atos de corrupção ou suborno.

O presidente do BNDES informou que a contratação da apuração externa foi recomendada em setembro de 2017 pelo auditor independente do banco (KPMG), que aconselhou o BNDES a “se proteger” contratando a investigação. A própria KPMG acompanhou as apurações como uma espécie de “revisor”, para verificar o passo a passo do Cleary.

Montezano iniciou a entrevista dizendo que a transparência é “atributo fundamental” para qualquer instituição financeira. “A lei nos obriga, mas transparência também protege executivos e funcionários da instituição”, disse. “Credibilidade é atributo mais importante para uma empresa, daí nossa conversa”, acrescentou o presidente.

Ele explicou que, desde que o tema da auditoria surgiu, há nove dias, as equipes do banco se debruçaram sobre as informações em relação à investigação para prestar os devidos esclarecimentos. “Entendemos que todos os pontos questionados estarão endereçados hoje”, disse.

Montezano afirmou ainda que “compartilha da frustração e ansiedade” dos veículos de notícias sobre prazos para as respostas. Desde que o Estado revelou o valor da auditoria, o banco não havia se pronunciado.

Nesta terça-feira, 28, o presidente Jair Bolsonaro disse ver algum "coisa esquisita" no reajuste que levou o BNDES a pagar R$ 48 milhões a uma auditoria para abrir a "caixa-preta" do banco em operações com o grupo J&F, sem encontrar nenhuma irregularidade. Ao comentar o último aditivo, feito pelo atual presidente do banco, Gustavo Montezano, Bolsonaro disse parecer  "que alguém quis raspar o tacho", sem citar quem. "Expõe logo o negócio e resolve", ordenou o presidente ao chegar ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, depois da volta dele da Índia.  

A abertura da "caixa-preta" foi uma das missões conferidas por  Bolsonaro a Montezano, que tomou posse em substituição a Joaquim Levy, primeiro nomeado pelo governo para comandar a instituição. Levy  se juntou a outros executivos que passaram pelo banco após o fim da gestão Dilma Rousseff e tiveram dificuldades para comprovar irregularidades na concessão dos financiamentos.

No governo Temer, Maria Silvia Bastos Marques evitou o assunto. Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira negaram sua existência. "Ou sou um completo idiota ou não existe 'caixa-preta' no BNDES", chegou a dizer Rabello.

Levy falou em "ter clareza sobre operações do passado", mas não chegou a avançar na busca por operações fraudulentas. A dificuldade foi apontada como um dos motivos para a insatisfação de Bolsonaro com sua gestão - o executivo pediu demissão após o presidente dizer em entrevista que estava "por aqui" com ele.

A "caixa-preta" foi um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro. Para muitos apoiadores do presidente, a sua abertura teria potencial para revelar malfeitos maiores do que os descobertos pela Operação Lava Jato na Petrobrás.

Logo após a vitória nas urnas, o presidente eleito se comprometeu a determinar, no início do mandato, "a abertura da 'caixa-preta' do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos".

“Em temas delicados, espinhosos, que passaram por várias gestões, temos de ter responsabilidade e acuracidade. Temos pontos a melhorar, queremos ser mais ágeis em prestar informações, mas sem abrir mão da acuracidade”, justificou.

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