Imagem Fábio Alves
Colunista
Fábio Alves
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Oba-oba ou pra valer?

A questão é se o eventual choque de confiança com a troca de governo já comprova uma retomada sustentável da atividade econômica

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

Uma onda de otimismo começa a tomar conta, mesmo que timidamente, das estimativas de analistas quanto à recuperação da economia brasileira sob o comando de Michel Temer e Henrique Meirelles. Para 2016, uma profunda recessão está contratada, mas para o ano que vem alguns economistas revisaram significativamente suas projeções para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). A questão é se a simples troca de governo, com eventual choque de confiança, já corroboraria uma retomada sustentável da atividade econômica ou se essa melhora seria apenas um voo de galinh – uma reação quase que automática, embora pontual, da produção, consumo e investimento a uma base tão deprimida.

A projeção do PIB para 2017 foi revisada pela terceira semana consecutiva na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central. Os analistas ouvidos esperam agora um crescimento de 0,5% do PIB em 2017, em comparação com uma previsão de queda de 3,86% neste ano. Já os economistas do banco francês BNP Paribas esperam agora uma expansão de 2% no ano que vem, após uma contração estimada em 4% em 2016. Para os analistas do banco Fibra, a reversão será ainda mais drástica: de uma retração de 4,5% neste ano para um crescimento de 2,1% em 2017.

O raciocínio por trás das estimativas mais otimistas é que o governo Temer conseguirá apoio suficiente no Congresso para aprovar um ajuste fiscal amargo e, assim, abrir espaço para corte de juros mais agressivo por parte do BC. O BNP Paribas, por exemplo, aposta que a taxa básica de juros cairá de 14,25% ao ano para 9% ao fim de 2017 – redução de 5,25 pontos porcentuais. Seriam os analistas mais confiantes com a recuperação da economia pontos fora da curva ou os outros terão de correr atrás dessas previsões? Afinal, em 1992, ano do impeachment de Collor, o PIB caiu 0,5%, mas cresceu 4,9% no ano seguinte e 5,9% em 1994.

Há quem acredite que a economia bateu no fundo do poço da atual recessão, outros creem que isso não chegou, mas estaria próximo – definitivamente nos últimos dois trimestres deste ano. De qualquer forma, há uma ociosidade muito grande na indústria e em outros segmentos da economia, o que permitiria um crescimento do PIB no ano que vem mesmo se não ocorrerem novos investimentos. Apenas uma redução dessa ociosidade já surtiria efeito.

Para isso, basta uma melhora do humor provocada apenas com o fim da desastrosa condução econômica do governo Dilma. Os índices de confiança encontram-se ainda em patamares tão deprimidos que qualquer melhora poderá gerar um impacto razoável. O Índice de Confiança do Consumidor, por exemplo, fechou abril em 64,4 pontos, menor patamar da série histórica, iniciada em 2005. O da indústria ficou em 77,5 pontos. Acima de 100 pontos, esses índices sinalizariam expansão da atividade. Ou seja, mesmo que fiquem abaixo desse nível, há espaço para uma subida razoável desses índices. Além disso, uma estabilização da atividade econômica nos últimos trimestres deste ano resultaria num carrego estatístico positivo para o número do PIB de 2017.

A diferença entre acontecer uma recuperação sustentável da economia brasileira e uma retomada temporária em 2017 estará na capacidade do governo Temer de adotar reformas estruturais e aprovar medidas fiscais que controlem os gastos públicos e a dinâmica da dívida bruta, contribuindo, por tabela, para baixar a inflação para mais próximo do centro da meta, de 4,5%. Até porque a mera expansão do PIB no ano que vem com base apenas na redução da ociosidade da atividade produtiva será suficiente para gerar pressões inflacionárias devido ao grau de indexação ainda existente na economia. Sem um ajuste macroeconômico de fôlego, os mais de 11 milhões de desempregados dificilmente perceberão uma eventual retomada do crescimento em 2017 refletida numa melhora da renda e do mercado de trabalho.

Mais conteúdo sobre:
Michel TemerPibBanco Central

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.