Obama, a volta do líder

Obama, a volta do líder

A vitória de Barack Obama na votação do plano de saúde dos EUA tem um sentido maior do que a simples questão de justiça interna. É a recuperação de um líder num mundo sem líderes. Sim, não há nenhum líder nos países desenvolvidos, aqueles que decidem sobre a economia mundial. São todos controversos em si mesmos, não conseguem lidar com problemas internos e estão impedindo uma ação comum que permita tirar a economia mundial do clima de recessão.

Alberto Tamer, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

Na União Europeia, a confusão é total, com cada um defendendo a si mesmo. E nem falo do caso da Grécia. Na Alemanha, Angela Merkel, desde o início da crise, se recusou a pôr em prática um programa anticíclico agressivo. Resultado: seu PIB caiu 5% em 2009. Na Grã-Bretanha, Gordon Brown enfia os pés pelas mãos; na França, Sarkozy continua falando... A economia francesa cresceu 0,6% em 2009. Dizem que saiu da recessão.

Obama já fez muito... Obama chegou ao poder como líder inconteste de um mundo em crise política e econômica profunda. Sistema financeiro em frangalhos, recessão, desemprego, destruição de riquezas... Os EUA beiravam o caos. Obama recebeu, na Europa, ainda como candidato, a maior ovação que um chefe de Estado já teve. Em um ano, tirou o sistema financeiro e a economia do caos que as indecisões do governo anterior ajudaram a criar.

No primeiro trimestre de governo, janeiro-março 2009, o PIB havia despencado 6,4%. Sim, perda de 6,4% da riqueza de US$ 14 trilhões. Veio o teste de esforço nos bancos, o pacote de US$ 787 bilhões para incentivar o consumo, e, no segundo trimestre, a economia havia se recupera do baque. O PIB cai só 0,7%. No terceiro, a reação continua. O PIB positivo, mais 2,2%, e, para surpresa geral, um crescimento de 5,7% no último trimestre ? um resultado de dimensões discutíveis, pois decorreu basicamente da reposição de estoques. Terminou 2009 com recuo de apenas 2,4%.

... Mas ficou apagado. Mesmo Obama perdeu o brilho de sua liderança. Cometeu o erro de continuar a prometer, depois de eleito, mais do que havia prometido como candidato; milhões de empregos, retorno ao antigo padrão de vida americano.

Na área externa, sem contar as questões políticas, ainda sem sinais de solução, não conseguiu convencer a Europa a seguir seu programa de incentivo à demanda como pedra básica da política anticíclica, que dava certo, mesmo na China. Isolou-se também da União Europeia, em crise, cansado das desavenças entre seus governantes.

Mais importante, nem foi ouvido quando afirmou que a saída da crise passava pelo aumento do comércio mundial. Muitos europeus e, principalmente, chineses achavam que isso era apenas para aumentar as exportações americanas. Esqueciam que, mesmo recuando, o déficit comercial dos Estados Unidos ainda era de US$ 465 bilhões, enquanto a China tinha um superávit de US$ 284 bilhões (e não me falem nessa "gracinha estatística" do déficit que eles anunciaram ontem).

O retorno solitário. O enfraquecimento de Obama foi ainda mais acentuado com as lutas partidárias internas, com a resistência do desemprego e o fracasso de alguns planos internos, principalmente o de saúde. Como invocar medidas mundiais? Aí está a importância da sua vitória nesta semana.

O líder ressurge para enfrentar a China, com sua política cambial protecionista, que tanto prejudica o comércio mundial, e uma Europa relutante e perdida. Pode ainda construir uma nova ponte de diálogo, rompida, com os países emergentes. Mas, acima de tudo, ele ganha novo peso para relançar um plano econômico que permita recuperar a economia americana ? e mundial. Sim, se eles não voltarem a crescer de forma sustentada, a economia mundial também não crescerá. Obama vai poder fazer alguma coisa? Pode ser que sim, tem potencial para isso, mas encontrará "líderes"surdos, num mundo acomodado em sua própria estagnação.

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