Obama atribui alta de impostos à oposição

Falta de acordo na Câmara, de maioria republicana, causará perda a 160 milhões

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE , WASHINGTON , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h07

O Congresso dos Estados Unidos acentuou ontem o impasse em torno de benefícios fiscais para empresas e trabalhadores e do auxílio aos desempregados, cujo objetivo é estimular a atividade econômica no país, em crise desde 2008.

A menos de um dia da debandada dos políticos de Washington para a celebração do Natal, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lavou as mãos sobre a ausência de um acordo e atirou sobre a Câmara de Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil), dominada pela oposição republicana, a culpa por 160 milhões de trabalhadores estarem sujeitos a uma maior tributação em 2012.

"Nós fizemos tudo o que podíamos nas últimas semanas para assegurar que os 160 milhões de trabalhadores americanos não sejam atingidos pelo aumento de impostos a partir de 1o de janeiro", afirmou Obama, em pronunciamento à imprensa, feito por volta das 16 horas de Brasília.

"Nós também fizemos tudo o que podíamos para garantir que os milhões de pessoas que estão procurando emprego em um ambiente muito difícil não comecem a perder o seguro-desemprego em 1o de janeiro", desculpou-se Obama.

O impasse diz respeito ao acordo alcançado no último dia 16 entre líderes dos Partidos Republicano e Democrata no Senado. O acerto previa a prorrogação da redução da alíquota da contribuição patronal e de trabalhadores e do seguro-desemprego por dois meses, período no qual seria negociada a extensão de ambos por um ano.

A vigência desses benefícios termina em 31 de dezembro. Essas medidas estavam presentes no pacote de incentivos fiscais à economia enviado em setembro ao Congresso por Obama. Previam a prorrogação por um ano.

O papel do Tea Party. Aprovadas no Senado, no sábado, as medidas foram rejeitadas nesta semana em votação na Câmara, desde o início do ano conduzida pela ala radical republicana, o chamado Tea Party.

O presidente da Casa, o republicano John Boehner, justificou haver "tempo suficiente" para a prorrogação dos benefícios por um ano. Ainda demandou o início imediato de uma nova rodada de negociações entre os líderes da Câmara e do Senado sobre o tema. A Casa Branca e os líderes democratas no Congresso negaram-se a indicar seus negociadores.

Desde então, o impasse se mostra insuperável. O fim dos benefícios terá impacto sobre o crescimento econômico ainda fraco e sobre a taxa de desemprego, de 8,6% em novembro.

Ontem, o governo americano divulgou ter havido expansão de apenas 1,8% na atividade no terceiro trimestre - não mais de 2,0%, como no cálculo preliminar. Foi a terceira e última revisão do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do período.

A alíquota do imposto sobre empresas e trabalhadores aumentará de 4,2% para 6,2%, a partir de 1o de janeiro. Para cada americano empregado e com renda anual superior a US$ 50 mil, essa elevação significará uma despesa adicional de US$ 1.000 ao ano.

Pressão. "Agora chega. As pessoas não podem tolerar mais esses jogos. Elas não podem perder US$ 1.000 por causa de um ridículo impasse em Washington", declarou Obama.

"A Câmara precisa aprovar o compromisso de curto prazo e, então, nós devemos negociar um acordo o mais rápido possível para estender os benefícios pelo restante de 2012", acrescentou o presidente.

A pressão sobre a bancada republicana no Congresso aumentou sensivelmente ontem, vinda de eleitores furiosos e de líderes do próprio partido.

Em um movimento inesperado, o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, apelou aos colegas da Câmara para aprovar a prorrogação dos benefícios por dois meses e chamou, indiretamente, a atenção para a insana posição de seus correligionários. Aproveitou, entretanto, para castigar Obama.

"Os trabalhadores americanos sofreram suficientemente com as políticas econômicas fracassadas do presidente e não devem enfrentar incertezas sobre um aumento de tributos no dia de ano novo", afirmou McConnell.

John Boehner ainda tentou argumentar com o presidente Obama, por meio de mais uma carta à Casa Branca, sobre a necessidade de se alcançar um acordo definitivo antes do dia 31. No fim da tarde, tentou convocar os deputados de ambos os partidos para uma conferência por telefone.

Vários deles já haviam embarcado para seus Estados para as festas de fim de ano. Até o fechamento desta edição, a reunião não havia começado.

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