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Obama e a cristandade: em nome de Deus, chega de superioridade moral

Declaração de Barack Obama sobre religião causou descontentamento em evento tradicional nos EUA

Economist.com

09 Fevereiro 2015 | 18h54

De acordo com uma estimativa grosseira, quase 100 milhões de americanos foram a uma igreja cristã no domingo passado. E, a julgar pela blogosfera, muitos deles estavam se sentindo perturbados por algo que o presidente deles disse durante a semana. Ao denunciar as crueldades do Estado Islâmico, ele indicou que todas as religiões, incluindo o cristianismo, estavam sujeitas a serem exploradas por aqueles interessados em estimular o ódio, a agressão e a maldade. 

Mais precisamente, Barack Obama disse ao público de um National Prayer Breakfast (tradicional evento que ocorre em fevereiro nos Estados Unidos) que "não acreditemos na superioridade moral e pensemos que isso (a violência em nome de uma religião) seja um fenômeno único de algum lugar diferente. É importante lembrar que durante as Cruzadas e a Inquisição, as pessoas cometeram atos terríveis em nome de Cristo. No nosso país, a escravidão e as leis segregacionistas muitas vezes eram justificadas em nome de Cristo… Michelle e eu voltamos da Índia, um país incrível e maravilhoso, cheio de uma diversidade magnífica, mas um lugar onde, nos anos mais recentes, fés religiosas de todos os tipos se viram atacadas por outras pessoas de fé… atos de intolerância que teriam chocado Gandhi."

Entre as muitas reações, foi argumentado em geral que as Cruzadas não foram tão más assim; que elas foram guerras defensivas e ocorreram porque os muçulmanos haviam tomado os locais sagrados para a cristandade;  e que as Cruzadas e Inquisição (e até a escravidão nos EUA) ocorreram há muito tempo, enquanto as infâmias do Estado Islâmico são cometidas aqui e agora. Entre os pontos mais inteligentes, temos a observação de que o cristianismo também serviu como incentivo para a abolição da escravidão e da segregação.

Independentemente de serem válidos ou não, todos esses argumentos seriam relevantes num debate acadêmico para determinar qual fé, cristianismo ou islã, seria a mais benigna, seja em termos dos seus ensinamentos ou sua história. Mas Obama não estava mergulhando num debate desse tipo. Seria estranho se, durante o exercício de suas funções, um chefe de Estado americano, presidindo um país que separa rigorosamente religião e governo, mergulhasse num debate do tipo. Estritamente falando, nada disso é da conta dele.

A argumentação do presidente era muito mais estreita: nenhuma religião pode se considerar imune à exploração por fins nefastos, e acreditar no contrário é perigoso. Em outras palavras, pessoas identificadas com uma organização religiosa, mesmo uma que pregue a caridade e o autossacrifício, não deveriam cair na armadilha de pensar que essa lealdade torna a elas e suas correligionárias melhores do que outras pessoas, ou menos inclinadas a cometer erros terríveis.

E elas podem cair com facilidade nessa armadilha. Eis um par de exemplos. Em 1969, um oficial americano chamado William Calley foi levado a julgamento por ter massacrado civis no Vietnã do Sul. Houve uma torrente de fúria por parte das igrejas do sul dos EUA, dizendo que as alegações não poderiam ser verdadeiras, ou parte de uma campanha antiamericana de difamação; ou, se Calley tinha matado, deve ter havido bom motivo. Um pastor sulista comparou Calley a Jesus Cristo. A lógica seguida era mais ou menos a seguinte: os Estados Unidos são um país virtuoso e cristão, lutando uma guerra justa, e seus soldados só podem agir com virtude.

Mais recentemente, houve reação semelhante na Sérvia quando a maior parte do mundo se convenceu que soldados e paramilitares sérvios tinham cometido atrocidades terríveis na Croácia, Bósnia e Kosovo, incluindo o maior massacre de não-combatentes visto na Europa desde 1945. As acusações simplesmente não poderiam ser verdadeiras, porque os sérvios eram um povo santo com uma devoção única à sua herança cristã. Quem quer que faça uma acusação desse tipo deve agir por desprezo aos cristãos ou alguma outra razão primária: por estranho que tudo isso soe para os forasteiros, essa era uma reação comum.

De maneira mais simples, se você acha que seu lado é virtuoso demais para pecar, isso significa que eles vão pecar, terrivelmente. É por isso que, como apontou Obama, "acreditar na superioridade moral" é algo a ser evitado. Independentemente de nossa opinião a respeito dos méritos relativos das grandes religiões mundiais, essa argumentação se sustenta.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com 

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