Obama e o benefício econômico ascendente

Apenas os mais nerds como eu aguardam ansiosamente os relatórios anuais do Bureau Censitário a respeito da renda, da pobreza e dos seguros de saúde. Mas os relatórios de 2015 justificaram a expectativa.

Paul Krugman, The New York Times

17 Setembro 2016 | 05h00

Esperávamos boas notícias; mas parece que, no ano passado, a economia viveu uma verdadeira festa, como se estivéssemos em 1999. E isso nos diz algo muito importante - o governo pode tornar a sociedade americana mais igualitária se assim desejar, melhorando a qualidade de vida para as famílias comuns.

Os relatórios mostram expressivo progresso em três frentes: rápido crescimento na renda das famílias comuns (a renda média aumentou notáveis 5,2%); uma queda substancial na proporção de pobres; e um significativo aumento posterior na proporção de cidadãos cobertos por seguro-saúde, após a alta observada em 2014. Não víamos a conjunção desses três elementos desde…1999.

É verdade que a alta na renda média ocorre após anos de frustração, e mesmo agora a renda de uma família típica, ajustada pela inflação, é um pouco mais baixa do que antes da crise financeira. Mas o porcentual de americanos sem cobertura de seguro saúde é atualmente o mais baixo já visto. E o desempenho geral da economia do governo Obama mostrou que boa parte das críticas feitas às políticas do presidente estava equivocada.

Lembremos da campanha eleitoral de 2012. Já havia sinais do debate político impulsionado por preconceitos e teorias da conspiração que vemos na eleição deste ano; Donald Trump estava afirmando em alto e bom som que a certidão de nascimento de Obama era falsa, e Mitt Romney aceitou animado o apoio de Trump à sua candidatura.

Mas também houve espaço para o debate dos planos de governo. Os republicanos acusaram Obama de ser um “redistribuidor”, tirando dinheiro dos “criadores de empregos” para dar dinheiro de graça aos 47%. E afirmaram que essas políticas socialistas estavam destruindo incentivos e impedindo a recuperação econômica.

Havia, na verdade, uma migalha de verdade na primeira parte dessa acusação. Obama não é socialista, mas, desde sua reeleição, ele presidiu um significativo aumento nos impostos para rendas altas. Na verdade, o 1% mais rico está pagando agora uma proporção em impostos federais sobre a renda comparável à de 1979, antes de Ronald Reagan dar início à era dos grandes cortes nos impostos para os ricos. E alguns dos aumentos nos impostos estão sendo usados para subsidiar o seguro saúde dos mais pobres.

Os conservadores previram que tais iniciativas levariam ao desastre. Insistiram que o aumento nos impostos dos ricos faria a economia perder vigor. A combinação de subsídios e regulação do Obamacare acabaria com milhões de empregos sem aumentar o número de americanos cobertos pelo seguro saúde, declararam.

Em vez disso, o que ocorreu após a reeleição de Obama foi o melhor período para a criação de empregos desde os anos 1990. Mas a renda das famílias, ao menos de acordo com a estimativa do Bureau Censitário, continuava apática. Assim, ainda havia nas estatísticas alguma base para críticas a Obama vindas da direita. Agora essa base estatísticas sumiu.

Sabemos como é o raciocínio: dizem-nos que toda tentativa de ajudar diretamente as famílias trabalhadoras terá resultado negativo e prejudicará a economia como um todo. Assim, devemos reduzir os impostos cobrados dos “criadores de empregos”, contando que a maré alta fará subir os cascos de todas as embarcações.

Seria exagero dizer o governo Obama fez o oposto, mas houve definitivamente algo de uma economia dos benefícios ascendentes em sua resposta à Grande Recessão: boa parte do estímulo envolveu a expansão da rede de segurança social, não apenas para proteger os vulneráveis, mas para aumentar o poder de compra e sustentar a demanda. E, no geral, as políticas da era de Obama tentaram ajudar as famílias, em vez de distribuir benefícios aos ricos e torcer para que seu benefício seja sentido até a base da pirâmide.

Agora temos os resultados desse experimento em política econômica, e eles não são ruins. Poderiam ser melhores: o estímulo deveria ser maior e mantido por mais tempo, e a oposição restringiu a política econômica do governo depois dos primeiros dois anos. Ainda assim, as políticas progressistas funcionaram, e ficou provado que os críticos dessas políticas estavam enganados. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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