Obama faz apelo e irrita oposição, mas acordo ainda pode evitar 'abismo'

Congressistas podem aprovar saída alternativa sugerida pelo presidente que prorroga redução de impostos para classe média

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h04

Diante do risco de fracasso das negociações entre os líderes no Senado do acordo para evitar o 'abismo fiscal', o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lavou suas mãos. Em entrevista concedida no sábado e transmitida na manhã de ontem pela rede NBC, Obama fez um enfático apelo em favor do consenso. Mas, ao culpar os republicanos pelo impasse, tornou o ambiente no Congresso ainda mais corrosivo.

Quando a entrevista foi exibida, os senadores Harry Reid (democrata) e Mitch McConnell (republicano) já estavam mergulhados na negociação. Ambos os líderes haviam dedicado todo o sábado ao acordo, cujo prazo máximo para ser aprovado pelas duas Casas do Congresso e sancionado pelo presidente termina às 24h de hoje (21h, no horário de Brasília).

No meio da tarde de ontem, eles anunciaram ao plenário que a conversa havia estagnado no corte de gastos da Previdência Social. Ainda fariam um esforço para avançar nesse tópico antes de cada um reunir-se com sua bancada para decidir o que fazer. A alternativa ao acordo amplo de ajuste nas contas públicas seria a votação, hoje, de um projeto de lei para prorrogar a redução de impostos para a classe média e o seguro-desemprego de 2 milhões de trabalhadores. Trata-se da saída sugerida por Obama para abrandar a queda da economia americana no 'abismo'.

Obama já havia dito, nesse momento, ter feito concessões que enfureceram a base de seu partido e que já não podia fazer mais nada a não ser apelar pelos últimos esforços no Congresso. Conforme sublinhou, os republicanos estão atuando apenas para 'proteger' a redução de impostos para os americanos mais ricos. Em sua argumentação, um acordo equilibrado deverá começar com a eliminação desse benefício fiscal. Com isso, será possível recolher mais US$ 800 bilhões em impostos em dez anos.

"Conversamos com os republicanos desde o final das eleições (6 de novembro). Eles tiveram dificuldade de dizer sim a uma série de ofertas", afirmou Obama. "Na sexta-feira, eu estava modestamente otimista, mas nós não vimos ainda um acordo. Agora, a pressão é para o Congresso produzir (um acordo)."

O abismo fiscal significa a adoção automática de cortes nos gastos públicos e o fim de renúncias fiscais para as classes média e alta e para empresas a partir de 1º de janeiro, se não houver acordo até a noite anterior. O objetivo das medidas será reduzir substancialmente, até 2022, a dívida pública federal de mais de US$ 16 trilhões. Seu principal efeito será empurrar a economia americana para uma nova recessão.

A versão de Obama irritou os republicanos. "Enquanto o presidente estava gravando suas declarações discordantes no sábado, o senador McConnell estava no seu gabinete trabalhando para que republicanos e democratas chegasse juntos a uma solução. As discussões continuam hoje", rebateu Don Stewart, porta-voz do líder republicano.

"O presidente continua a insistir em um pacote dramaticamente enviesado e em favor de impostos mais altos, que podem destruir os empregos", reforçou o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, que será o responsável por colocar em votação hoje um eventual acordo amplo ou o projeto de lei na Casa, dominada por seu partido.

Nó. A questão sobre o benefício fiscal aos americanos mais ricos (2% da população) continuava ontem a ser o nó da negociação. A Casa Branca quer o fim dessa renúncia para quem tem renda anual acima de US$ 250 mil, mas pode aceitar um piso maior, de US$ 400 mil. Boehner não conseguiu o apoio dos radicais republicanos para sua proposta de eliminar o benefício para quem ganha mais de US$ 1 milhão ao ano. Os membros do Tea Party se opõem a qualquer elevação no recolhimento desses contribuintes.

Mas somaram-se outros tópicos ao impasse. A taxa de inflação usada para calcular reajustes em aposentadorias e pensões foi questionada pelos republicanos, que preferem uma fórmula capaz de reduzir os desembolsos federais. Os democratas resistem. A oposição é contra o aumento do imposto sobre imóveis herdados de 35% para 55% no caso de propriedades avaliadas em mais de US$ 1 milhão.

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