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Obama quer o pacote. Mas o que vem depois?

Coro de céticos cresce, e plano de quase US$ 900 bi é alvo de críticas

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Um pacote de estímulo à economia de quase US$ 900 bilhões será votado no Senado americano nesta semana - e tudo indica que será aprovado, com amplo apoio dos democratas. O pacote é a principal iniciativa do presidente Barack Obama para tirar a economia americana de sua maior crise desde a Grande Depressão. As notícias ruins não param - o PIB dos Estados Unidos encolheu 3,8% no último trimestre de 2008, a maior queda desde 1982 - e todas as esperanças do governo americano (e das economias do mundo) estão depositadas nesse pacote. Mas será que vai funcionar?Nos Estados Unidos, o pacote tem defensores fervorosos, keynesianos e neokeynesianos que acreditam que, sem o plano, o país se encaminha para uma nova Grande Depressão. Ao lado de economistas respeitados, como o Nobel Paul Krugman, e até de alguns conservadores, o maior advogado do plano é o presidente Obama. "É preciso que aprovemos o Plano de Recuperação e Reinvestimento Americano (pacote de estímulo), um plano que vai salvar ou criar mais de 3 milhões de empregos nos próximos anos e fará investimentos que serão úteis para nossa economia durante anos", exortou Obama mais uma vez, na sexta-feira. "Não podemos fazer corpo mole por muito mais tempo. A recessão está se aprofundando."Mas o coro dos céticos está crescendo. Na quinta e na sexta-feira, um grupo de mais de 200 economistas publicou um anúncio de página inteira no The New York Times e no Washington Post, criticando o pacote. O anúncio abre com uma declaração do presidente Obama no início do mês: "Ninguém discorda de que seja necessária ação de nosso governo, um plano de recuperação para reviver a economia". E rebate: "Com todo respeito, sr. presidente, isso não é verdade". Segundo texto assinado pelos 200 economistas, "apesar de noticiarem que agora somos todos keynesianos e todos apoiamos um grande aumento no papel do governo, nós abaixo-assinados não acreditamos que gastos do governo vão melhorar o desempenho da economia doméstica". E continua: "Aumentos de gastos do governo por Hoover e Roosevelt não tiraram os EUA da Grande Depressão nos anos 30; mais gastos do governo não resolveram a ?década perdida? do Japão nos anos 90; portanto, é um triunfo da esperança sobre a experiência achar que mais gastos do governo vão ajudar os Estados Unidos hoje". Para esses economistas, a receita para tirar o país da crise é fazer reformas que removam obstáculos ao trabalho, à poupança ao investimento e à produção. Muitos legisladores republicanos e economistas de centro e direita acham que o pacote tem um custo muito alto. Eles se opõem à ênfase em programas de gastos do governo, em vez de cortes de impostos. O plano inclui US$ 275 bilhões em cortes de impostos e US$ 550 bilhões em gastos do governo em estradas e pontes, energia alternativa, tecnologia de saúde, assistência ao desemprego e ajuda a Estados e municípios."Eu acho que as expectativas das pessoas são totalmente irrealistas - esse pacote produz dívida e inflação e vai simplesmente aumentar o tempo necessário para a economia se recuperar", diz Tom Palmer, pesquisador sênior do Cato Institute. "Só uma parte do pacote vai ter efeitos imediatos de estímulo à economia, porque grande parte dos projetos serão realizados de forma gradual e lenta", diz Vincent Reinhart, ex-diretor do Fed e pesquisador do conservador American Enterprise Institute. "Por isso, o PIB vai encolher nos dois primeiros trimestres deste ano."Mesmo economistas mais à esquerda têm restrições. Barry Bosworth, economista sênior da Brookings Institution, afirma que os democratas incluíram no plano várias medidas que não têm efeito imediato. "Eles querem reestruturar o governo a longo prazo, incluindo muitos programas de governo e obras para estimular energia renovável. Isso não é gasto de emergência, não vai estimular a economia agora."Segundo último cálculo do Congressional Budget Office (a Comissão de Orçamento do Congresso), só 65% dos mais de US$ 800 bilhões do pacote vão ser gastos até o fim de 2010 - a meta de Obama era pelo menos 75%. O presidente tentou rebater as críticas, dizendo que espera ver o dinheiro "sendo liberado imediatamente", uma vez que o pacote for aprovado.Segundo Bosworth, a parte do pacote que é composta de cortes de impostos precisa se dirigir às pessoas certas - americanos de baixa renda que vão gastar imediatamente, e não gente que vai guardar o dinheiro ou pagar dívidas. No ano passado, os cortes de impostos não tiveram os "alvos" corretos e pouco do dinheiro enviado às famílias foi usado em consumo.Há ainda o ataque às medidas protecionistas do pacote. O plano pode conter uma emenda exigindo que todo o "ferro, aço e produtos manufaturados" usados em projetos do pacote sejam "made in USA". Empresários advertem que isso vai desencadear retaliações de parceiros comerciais e encarecer os projetos de infraestrutura.SECRETÁRIO DO COMÉRCIOUm alto funcionário do governo Obama disse ontem que o senador republicano Judd Gregg é o favorito para ser nomeado secretário do Comércio dos EUA. A nomeação de Gregg poderia dar ao Partido Democrata, de Obama, uma ampliação de sua maioria no Senado, que passaria a ser suficiente para impedir táticas e bloqueio de votações por parte da bancada republicana. Ela também estreitaria os laços de Obama com o empresariado, já que Gregg participou da elaboração do pacote de US$ 700 bilhões em ajuda financeira aos bancos, no fim do ano passado, ainda durante o governo de George W. Bush. COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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