Obama rejeita o 'obamismo'

A Casa Branca decidiu que, em um país de republicanos intransigentes e ideólogos mesquinhos, é preciso ser intransigente e mesquinho

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2011 | 03h04

Artigo

Eu sou um bobo, um tipo específico de bobo. Eu sou um bobo de Obama.

Quando o presidente disse que os desempregados não podem esperar pela ajuda por mais 14 meses, e que é preciso fazer algo imediatamente, acreditei nele. Quando os representantes do governo começaram a dizer que a possibilidade de uma recessão de dois dígitos é algo assustadoramente real e seria irresponsável não apresentar um pacote que pudesse ser aprovado de imediato, acredito neles.

Eu gostava das ideias de Obama sobre o corte dos encargos sociais e quando ele pediu aos republicanos que o apoiassem. Mas, evidentemente, eu sou um bobo. Quando o presidente apresentou a segunda metade do seu pacote de estímulo, ficou claro que não tinha nada a ver com a ajuda imediata à população nem serviria para evitar um duplo mergulho. É um instrumento de campanha, e não um projeto de lei sobre o emprego.

É uma reciclagem de ideias que não foram aprovadas nem mesmo quando os democratas controlavam o Congresso. Em suas observações, na segunda-feira, o presidente não tentou conseguir o apoio dos republicanos nem mesmo para alguns pontos de suas medidas. Ele repetiu os apelos populistas que inflamam os liberais, mas enraivecem moderados e conservadores.

Ele afirmou que poderemos pagar o custo futuro do Medicare (assistência médica aos idosos) se elevarmos os impostos dos ricos. E repetiu a velha meia-verdade sobre os milionários que não pagam tantos impostos quanto suas secretárias. (Na realidade, os 10% mais altos da faixa dos assalariados pagam quase 70% de todos os impostos de renda, segundo o Departamento da Receita. As pessoas pertencentes à faixa de 1% pagam 31% de sua receita ao governo federal, enquanto o trabalhador médio paga menos de 14%, segundo o Departamento do Orçamento do Congresso.) Não foi um discurso destinado a suscitar uma ação. Mas foi o tipo de discurso que soava melhor na boca de Ted Kennedy. O resultado é que não teremos tão cedo nem o estímulo de curto prazo nem a redução da dívida a longo prazo, mas eu sou um bobo porque acho que isso seria possível.

Sou mesmo um bobo. Acreditei em Obama quando ele disse que queria ir muito além dos ultrapassados debates ideológicos que paralisaram este país. Eu sempre acredito que Obama está prestes a quebrar as categorias convencionais e a adotar um dos vários pacotes de reforma bipartidários que pululam por aí.

Mas, não se esqueçam, eu sou um bobo. A Casa Branca decidiu claramente que, em um país de republicanos intransigentes e ideólogos mesquinhos, é preciso ser também intransigente e mesquinho. O presidente foi atingido pela carga dos liberais que habilmente o venceu durante a luta sobre o teto da dívida. Portanto, a Casa Branca abandonou a abordagem do Homem Razoável ou a abordagem centrista de Clinton.

Ela voltou, como Ezra Klein de The Washington Post admitiu, para a política rotineira. O presidente está parecendo Al Gore na campanha para a presidência, mas sem o apelo pela terra. Aumentos dos impostos para os ricos! Proteção das dotações orçamentárias! O povo versus os poderosos! Eu esperava que o presidente desse a uma nação hipócrita algo não convencional, mas, como vocês sabem, eu sou um bobo.

Sendo um bobo, ainda acredito que a alma do presidente gostaria de fazer alguma coisa para sanar os problemas estruturais do país. Eu continuo achando que, dentro de algumas semanas, ele vai propor uma séria reforma fiscal e uma reforma das dotações. Mas toda vez que ele chega perto disso, ele não conclui.

Ele sussurrou que empreenderia uma séria reforma do Medicare, mas depois optou por mudanças válidas, porém reduzidas. Ele fala de uma reforma fiscal fundamental, mas continuo me esquecendo de que prometeu que nunca elevaria os impostos dos 98% mais pobres.

Isso significa que, quando ele fala em aumentar a receita, e tem o direito de fazê-lo, na realidade não pode falar de algo substantivo.

Ele não pode taxar a gasolina. Não pode taxar o consumo. Não pode fazer uma abrangente reforma fiscal. Ele precisa restringir suas mudanças na política fiscal aos 2% mais ricos, e para conseguir uma receita concreta deve atingi-los de qualquer maneira. Não simplificaremos o código fiscal, mas Obama vai elevar os impostos dos ricos que contribuem para as instituições de caridade! Temos de fazer alguma coisa para reduzir o espantoso superávit da filantropia que assola este país!

O presidente acredita que a imprensa impõe uma falsa equivalência à política americana. Nós culpamos igualmente ambos os partidos pela política conflituosa, quando na realidade os republicanos são mais rígidos e radicais.

Há muita verdade nisso, mas pelo menos os republicanos respeitam os americanos a ponto de dizer o que realmente pensam. A Casa Branca dá aos moderados bocadinhos de esperança, e depois os arranca da nossa boca. Ser um admirador de Obama significa deixar de ser um entusiasta para se sentir usado.

A Casa Branca decidiu empreender a campanha brigando com os liberais.

Acho que compreendo a sua opção, mas ainda acredito no estilo de governo de que Obama falava em 2008. Talvez eu seja o último. É que eu sou um bobo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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