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Objetivo brasileiro é negociar acordos além do Mercosul

Especialistas alertam para o isolamento comercial do País, que hoje estimula pouco as trocas com nações vizinhas como Peru e Colômbia

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2015 | 03h00

Em um contexto de notícias negativas em relação ao cenário econômico, o fato de o saldo da balança comercial brasileira operar de forma positiva em 2015 pode parecer um alento.

Trocando em miúdos, isso significa que o País, até o momento, exportou sua produção mais do que comprou de nações parceiras. No acumulado do ano, as exportações somam US$ 177,3 bilhões e as importações, US$ 163,1 bilhões, com saldo positivo de US$ 14,2 bilhões, melhor resultado para o período desde 2012, quando o saldo da balança comercial somou US$ 13,1 bilhões, conforme mostram números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

O caminho para conquistar o mercado externo, porém, é longo. Em termos de acordos comerciais, o Brasil tem sob o seu guarda-chuva de política externa o Mercosul, bloco que une os interesses de Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, como membros, e Chile, Peru, Colômbia, Equador, Guiana e Suriname, enquanto nações associadas, em uma área de livre comércio. Trata-se da principal movimentação comercial externa do País desde 1992, quando o acordo foi firmado. 

Em números, o Brasil exportou para o Mercosul, em 2014, US$ 20,4 bilhões, e em 2015, até o mês de outubro, esse número foi de US$ 15,2 bilhões, de acordo com o MDIC. Do lado das importações, o país comprou do bloco, até outubro de 2015, US$ 10,578 bilhões. A cada quatro produtos que saem do Brasil rumo a mercados externos, um deles tem como destino algum país ligado ao Mercosul.

Estar atrelado a países com pouca relevância no cenário atual de trocas comerciais (leia mais abaixo) e limitado pela cláusula 32/2000 estabelecida pelo próprio Mercosul, que impede os membros do bloco de negociarem individualmente com outros acordos pode, porém, estagnar a política externa do Brasil. Especialistas apontam que essa paralisia já vem acontecendo.

Para o professor de Relações Internacionais das Faculdades de Campinas (Facamp), Pedro Costa Junior, a saída para essa encruzilhada pode estar nos acordos bilaterais, entre países que negociam por si, política reforçada nos últimos anos com parcerias com países africanos e do Oriente Médio. 

“Somos uma liderança internacional sem precisar fazer força. Temos o maior território da América Latina, o maior PIB do continente e nos falta exercer essa liderança. A Colômbia vem crescendo 5% ao ano, a Bolívia próxima disso. E não estamos dialogando com esses países.”

Além de cativar a vizinhança, Pedro aponta que alçar voos mais longos em direção aos mercados em ascensão também é um caminho que tende a ampliar possibilidades de mercado consumidor.

“É importante o Brasil estar concentrado na reformulação estrutural do comércio mundial. China e Índia, por exemplo, têm os maiores mercados consumidores do mundo. Não podemos viver de Mercosul. É importante, mas o que interessa não está lá”, explica Pedro.

A abertura com a África, apesar de contestada, hoje representa a relação com o 4º maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de Estados Unidos, China e Argentina. “No eixo ‘sul-sul’, que envolve países como Moçambique e Angola, se concentram muitas empresas brasileiras e o lucro que vem de lá é extraordinário”, analisa Costa Junior.

Política. A transição política na Argentina, terceiro país na lista de principais parceiros comerciais do Brasil, também pode mudar os rumos futuros do Mercosul. O presidente eleito para substituir Cristina Kirchner, Mauricio Macri, é empresário e talvez tenha um pensamento diferente sobre o tema. 

“Macri tem um problema doméstico, que é encontrar governabilidade em meio ao peronismo. Apesar disso, ele tende a negociar para transformar o bloco em uma real área de livre comércio, com circulação de produtos, serviços e pessoas”, pontua o especialista em relações internacionais do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREI-Unb), Carlos Pio.

"O Mercosul foi muito bom no passado, mas tem se tornado péssimo nos últimos dez anos. É um acordo que nunca se completou porque nenhum dos membros é exatamente liberal. Estamos perdendo em escala mundial”, avalia o professor Carlos Pio.

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