Obra de usina nuclear se arrasta desde os anos 80

Na usina de Angra 3, somente os funcionários da manutenção de equipamentos estão na ativa

Idiana Tomazelli / ANGRA DOS REIS, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2016 | 20h00

As demissões no estaleiro Brasfels foram mais um golpe na economia de uma cidade já combalida pela paralisação das obras da Usina Nuclear de Angra 3, no fim de setembro de 2015, que entrou no radar da Lava Jato, da Polícia Federal, em julho. A suspensão das atividades deixou aproximadamente 2 mil trabalhadores da construção civil de braços cruzados desde o início de outubro, segundo informações do sindicato local fornecidas à prefeitura de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio.

A história de Angra 3, a terceira usina nuclear do País, é repleta de idas e vindas. A obra foi paralisada pela primeira vez ainda na década de 80. Com aval para a retomada em 2007, o projeto teve aprovado empréstimo de R$ 6,1 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2010 e viu seus custos crescerem e o cronograma atrasar até virar alvo da Lava Jato.

O Estado visitou o canteiro de obras de Angra 3 em dezembro. Guindastes e máquinas de grande porte estão parados. Apenas funcionários que fazem a manutenção dos equipamentos seguem trabalhando. Algumas edificações, como salas de controle, estão prontas, mas o compartimento principal, onde ficará o reator – coração de uma usina nuclear –, ficou pela metade. Outros prédios previstos no projeto estão apenas na fundação.

A previsão anterior de inauguração, 2018, torna-se cada vez mais inatingível. Segundo dados disponíveis na internet pela Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás responsável pela operação das usinas nucleares, 58,4% do empreendimento foi concluído até setembro, ao custo de R$ 5,3 bilhões (o total do investimento deverá chegar a R$ 14,8 bilhões). A empresa afirma que a paralisação se deve à falta de recursos financeiros e não há previsão para a retomada das obras até que essa questão seja solucionada.

As obras já caminhavam a passos lentos quando a Lava Jato chegou à Eletronuclear. Segundo a Polícia Federal, um esquema de corrupção envolvendo ex-membros da cúpula da Eletronuclear e executivos das construtoras que integram o consórcio Angramon (Odebrecht, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Techint, UTC Engenharia e EBE) teria resultado em pagamentos de propina e favorecimento em licitações.

Entre os denunciados à Justiça está Othon Luiz Pinheiro da Silva, que presidiu a Eletronuclear até abril de 2015, quando foi afastado após as primeiras suspeitas. Ele foi detido em julho e passou a cumprir prisão domiciliar em dezembro. A Eletronuclear diz que sindicâncias internas não constataram envolvimento de atuais ou ex-funcionários no esquema.

Mais uma vez parada no tempo, a obra de Angra 3 também passou a abastecer menos os cofres da prefeitura. Desde o início de 2015, a média mensal de ISS pago pela Eletronuclear caiu de R$ 2,8 milhões para R$ 2,3 milhões. No total, a Secretaria Municipal de Fazenda estima que deixou de arrecadar R$ 3,5 milhões até novembro.

“A gente vive aqui de Angra 3, da pesca, do comércio, da construção naval e do porto. Se uma dessas falha, com certeza há uma lacuna, e essa lacuna prejudica, e muito, nossa população”, afirma o secretário municipal de Atividades Econômicas, Marcelo Oliveira.

Com duas de suas principais atividades econômicas dando sinais de curto-circuito, Angra teme trilhar pelo mesmo caminho que Itaboraí, na região metropolitana do Rio, onde a interrupção das principais obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) resultou em milhares de desempregados e um imenso problema social.

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