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Obras imponentes, época de excessos

A crise econômica e social na Espanha é aguda, mas as lojas mais chiques da Rua Poeta Querol não estão de todo vazias. Na Milla de Oro de Valência, a turbulência existe. Mas seu público consumidor de alto luxo, frequentador de lojas como Louis Vuitton, não desapareceu por completo. Em parte são turistas alemães e britânicos e não raro brasileiros, que dividem espaço com os valencianos ainda com poder aquisitivo para comprar na cidade, a sede do falido banco Bankia e um dos epicentros da crise do sistema financeiro espanhol.

VALÊNCIA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h07

Os clientes da Poeta Querol estão entre os espanhóis que fizeram muito dinheiro nos 20 anos de excessos de gastos do governo da Comunitat Valenciana. As obras dessa época ainda encantam, ao vivo ou durante as transmissões de Fórmula 1. Porém, deixaram um rastro de elefantes brancos, de dívidas e de 25,28% de desemprego em Valência, de 28,19% em Castellón e de 29,94% em Alicante. "A cidade cresceu muito neste período, mas é verdade que exageraram. Ficaram as dívidas e o desemprego para contar a história", diz um vendedor, fumando na frente da loja de luxo onde trabalha, na Poeta Querol.

Valência é o exemplo mais bem acabado de uma Espanha que gastava e crescia com vigor, mas sobre pés de barro. Entre 1995 e 2007, a cidade e a comunidade autônoma de Valência mergulharam com tudo na política de "visibilidade" que foi moda no país. Essa estratégia visava a reformar as cidades, lançando grandes projetos culturais e arquitetônicos para estimular o turismo e atrair investimentos externos.

Bilbao, no País Basco, investiu do Museu Guggenheim, por exemplo. Com a ambição de ser a "nova Mônaco", o governo local reformou toda a orla de Valência, por onde uma vez por ano circulam os carros de Fórmula 1. Construiu a Cidade de Ciências e de Arte, uma ópera, um aquário grandioso e um aeroporto digno dos períodos de milagre econômico. Castellón, a cerca de 50 quilômetros de Valência, é gigante, belo e vazio.

Essa política de fato devolveu Valência, cidade de 5,5 milhões de habitantes, a terceira mais rica da Espanha, ao mapa do turismo internacional. Também estimulou a construção civil na cidade. Tudo ia bem até que, com a crise dos subprimes, a realidade veio à tona. As primeiras consequências da crise em Valência, como em toda a Espanha, foram a redução do crédito, o encalhe dos imóveis, a diminuição do turismo e do comércio internacional.

Então a estratégia da "visibilidade" mostrou que não era sustentável. De acordo com o Banco Central da Espanha, o governo regional tem a segunda mais elevada dívida do país, atrás da Catalunha: 19,9% de seu PIB, ou € 20 bilhões. Em dezembro, € 130 milhões em títulos em poder do Deutsche Bank não puderam ser honrados e outros € 4,5 bilhões ainda terão de ser reembolsados em 2012. "Demos um passo grande demais e o que aflora agora são os excessos. Valência se converteu em um símbolo do desperdício. Mas essa política era de todo o país", diz Matilde Mas, PhD em economia e pesquisadora da Universidade de Valência.

Alfredo Arahuetes, economista e decano da Universidade Comillas, de Madri, confirma: "Por toda a Espanha, há prefeituras e governos que não têm dinheiro para pagar os salários de seus funcionários", lembra.

Enquanto a administração regional gastava fortunas em ícones arquitetônicos, as famílias se endividavam, mergulhando na bolha imobiliária. Com o aumento do desemprego e a flutuação dos juros, os empréstimos imobiliários se tornaram caros. O número de imóveis devolvidos aos bancos ou recém-construídos, mas vazios, explodiu, esvaziando a bolha da especulação imobiliária e prejudicando as contas de construtoras, investidores e bancos.

Com a queda das vendas e do preço dos imóveis, de até 50% em algumas regiões, veio a crise das cajas de ahorros, que atingiu em cheio três bancos valencianos: a Bancaja e a Caja del Mediterraneo (CAM), ambas infestadas por ativos imobiliários tóxicos.

Para contorná-la, o governo espanhol estimulou a fusão do Bancaja com outras seis instituições, criando o Bankia, com sedes em Valência e Madri. Nada disso adiantou. Em novembro de 2011, outra instituição, o Banco de Valência, com 111 anos, teve de ser nacionalizada por não conseguir lidar com € 3,9 bilhões em ativos imobiliários tóxicos. No CAM, também socorrido pelo Fundo Espanhol de Garantia Bancária (Frob), um buraco de € 5 bilhões foi descoberto.

O pior, no entanto, ainda estaria por vir. Mergulhado em dívidas e em suspeitas de corrupção e fraudes de gestão, o Bankia, quarto maior banco do país, seria nacionalizado pelo governo de Mariano Rajoy em maio ao custo de € 19 bilhões, o plano de socorro mais caro da história do Tesouro de Madri. E assim a Espanha daria início a um novo momento de sua crise, que mais uma vez ameaça a Europa: a de liquidez do sistema financeiro. / ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL

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