Luciana Dyniewicz/Estadão
Luciana Dyniewicz/Estadão

Luciana Dyniewicz, enviada especial a Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

30 Setembro 2017 | 17h00

Após um primeiro ano de governo com resultado decepcionante na economia – retração de 2,3% no PIB e inflação na casa dos 40% em 2016 –, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, começa a respirar aliviado. Impulsionada por obras públicas e pelo agronegócio, a economia de seu país avançou 1,6% no primeiro semestre deste ano e os preços subiram de forma mais moderada: 12%. Em julho, o FMI elevou a estimativa de crescimento da Argentina para este ano de 2,2% para 2,4%; o governo projeta 3%. 

Caso essa expansão se concretize, Macri poderá dizer que suas reformas colocaram o País novamente na rota de crescimento, mesmo em um período em que seu principal parceiro comercial – o Brasil – puxou a recuperação para baixo. Entre as mudanças adotadas pelo presidente estão o fim do controle do acesso ao dólar, a redução dos subsídios a serviços como transporte, gás e eletricidade, a negociação do pagamento da dívida com os fundos abutres (que compraram os títulos do governo após a Argentina quebrar em 2001) e a desvalorização do peso em cerca de 40%.

Até agora, o desempenho mais positivo vem da construção civil. No segundo trimestre, o PIB do setor avançou 9,7% na comparação com o mesmo período de 2016, após uma alta de 2% entre janeiro e março. Esse crescimento acelerado é puxado pelas obras em infraestrutura e decorre também do fato de a base de comparação ser bastante baixa; em 2016, a construção havia recuado 11% no país.

O presidente da Câmara Argentina da Construção, Gustavo Weiss, lembra que as licitações para obras do governo pararam no início do ano passado, período em que Macri (que assumiu a Presidência em dezembro de 2015) colocou em dia contas atrasadas de sua antecessora, Cristina Kirchner. Desde o fim de 2016, porém, os investimentos em infraestrutura foram retomados.

Com 60% de seus trabalhos concentrados no setor público, a construtora Chediack aumentou seu quadro de funcionários de 1,5 mil para 1,8 mil neste ano e projeta crescer 20%, após retração de 4% em 2016. A empresa também pretende ampliar sua atuação no setor privado, depois de o governo ter criado um novo modelo de crédito imobiliário. Até o ano passado, diante dos altos índices de inflação do País, os financiamentos eram praticamente inexistentes. Agora, criou-se um pacote para incentivar o crédito, que vem crescendo a uma taxa de 8% ao mês.

“A indústria de imóveis deve ser retomada no próximo ano, quando os bancos começarem a liberar os créditos para as construtoras”, diz Weiss. “Não tenho dúvidas de que esse setor vai crescer muito. A Argentina tem um déficit de 3 milhões de casas”, acrescenta Chediack.

Agronegócios. Após anos de enfrentamento com Cristina Kirchner – que taxava as exportações de alimentos –, o setor de agronegócios vive uma lua de mel com Macri. A redução – e, em alguns casos, a eliminação – dos impostos cobrados do exportador de produtos agrícolas foi uma das primeiras medidas adotadas pelo presidente. “O governo Macri nos colocou em condição de igualdade com o resto da economia argentina”, diz o presidente da Sociedade Rural Argentina, Luis Miguel Etchevehere. 

Segundo ele, como resposta à medida do governo, o setor agropecuário investiu US$ 58 bilhões até agora. O resultado desses aportes foi uma alta de 28% na safra de grãos deste ano. O PIB do setor cresceu 4,8% e 4,9% no primeiro e no segundo trimestre, respectivamente.

Produtor de milho, soja e trigo nas províncias de Buenos Aires e Córdoba, Santos Zuberbühler conta que ampliou em 25% suas áreas de cultivo de trigo, cujos custos são mais elevados que os da soja, porque agora pode exportar o grão a preços internacionais. O número de funcionários fixos de suas fazendas, que somam dez mil hectares, passou de 10 para 18. “Agora vamos trabalhar para aumentar a produtividade por hectare.”

Desafios. O economista-chefe do BTG Pactual na Argentina, Andres Borenstein, destaca que, apesar da alta do PIB e da melhora do panorama econômico em geral, o modelo de crescimento do país ainda não está claro. “A partir do ano que vem, o governo buscará atrair investimentos por meio de parcerias público-privadas (PPP). Esses investimentos não estão garantidos”, diz. Borenstein afirma ainda que há uma preocupação com a consolidação desse crescimento nos anos seguintes. “A Argentina sempre cresce em um ano e perde no seguinte. Se houver dois anos consecutivos de expansão (2017 e 2018), os investidores poderão se animar e injetar mais recursos no país.”

O economista Lorenzo Sigaut, da consultoria Ecolatina, afirma que a retomada da economia está em um ritmo mais lento do que se esperava quando Macri assumiu. “Algumas medidas que o presidente adotou no começo do mandato tiveram impacto inicial negativo, como a desvalorização do peso (que acelerou a inflação em 2016). Agora, a economia está mais ordenada, mas ainda não voltamos ao patamar de 2015.”

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Luciana Dyniewicz, enviada especial a Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

30 Setembro 2017 | 16h57

Poucos passos separam a banca de jornais de Luiz Galan da barraquinha de flores de Mara Menezes, ambas na estação de trem do Retiro, na capital argentina. As sensações de seus donos em relação ao momento econômico, entretanto, não poderiam ser mais distantes. Enquanto o primeiro diz sentir uma retração nas vendas desde 2016, a segunda afirma que a situação melhorou. Em geral, esse é o cenário do País: a população  está dividida entre os que já percebem, no dia a dia, a melhora proveniente do crescimento de 1,6% do PIB no primeiro semestre deste ano e os que não notam nenhum sinal.

Galan, que trabalha em sua banca há 30 anos, afirma que, há dois anos, comercializava 170 jornais por dia. Desde o ano passado, são 120 em média. Ele conta que as vendas vão bem na primeira semana de cada mês, logo após os trabalhadores receberem seus salários, e vão caindo até a última. Galán reclama ainda do aumento nas tarifas de luz, gás e transporte. Antes de o governo de Mauricio Macri começar a retirar os subsídios dos serviços, a conta de luz da banca de jornal era de 300 pesos por mês. Agora, são 1.300 pesos.

Mara também reclama dos preços. No caso do gás, diz que subiu de 40 pesos para 120 pesos. Por outro lado, afirma que as vendas dobraram em relação ao ano passado. De rosas, por exemplo, antes se abastecia com dois pacotes de cem unidades cada um por dia. Atualmente são quatro.

De acordo com o economista Andres Borenstein, do BTG Pactual na Argentina, é normal que as pessoas demorem a sentir a recuperação, já que muitas empresas estão procurando melhorar sua competitividade, aumentando a produção sem alterar seu quadro de funcionários. Na indústria, isso é mais acentuado: os segmentos que estão se destacando  são pouco intensivos em mão de obra, explica. Além disso, as industriais que empregam mais, como a têxtil, são as que competem com produtos internacionais, e os importados ganharam força com a abertura do mercado que vem sendo promovida por Macri.

A taxa de desemprego recuou de 9,3% no segundo trimestre de 2016 para 8,7%, patamar ainda considerado alto. O trabalhador Emanuel Cancino, de 35 ano, está desempregado desde junho, quando a Pepsi fechou uma fábrica na região metropolitana de Buenos Aires e demitiu 691 funcionários – desses, 155 foram transferidos para outra unidade.

A empresa informou que encerrou as atividades da planta por ela estar em um bairro residencial – o que impedia a expansão –, por sua inviabilidade econômica devido aos custos altos de manutenção e por dificuldades logísticas. Sem o salário de 18 mil pesos por mês, Cancino, que tem um filho de quatro anos, vive de bicos e de ajudas e passa os dias em um acampamento diante do Congresso argentino, pedindo a reincorporação dos trabalhadores da Pepsi.

Até mesmo nos canteiros de obra, o clima não é de grande empolgação, apesar do crescimento de 9,7% do setor da construção entre abril e junho. O pedreiro paraguaio Salvador Lara, de 29 anos, diz não sentir diferença no mercado de trabalho nos últimos três anos. Apenas comemora o fato de estar alocado na construção de uma pista que ligará as regiões norte e sul de Buenos Aires. A obra pública deverá levar três anos. “Estamos garantido até lá”, diz.

O taxista Hercules Cejas, de 55,  afirma que a situação começa a melhorar, mas que "a reativação que todos esperam vem muito lentamente".

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'O Brasil foi um peso para nossa indústria'

O economista afirma que o Brasil “foi um peso” para a Argentina nos últimos dois anos e que uma estabilização política fará com que o Brasil volte a avançar

Entrevista com

Nicolás Dujovne, ministro da Fazenda da Argentina

Luciana Dyniewicz, Enviada especial a Buenos Aires

30 Setembro 2017 | 16h59

Com metade de suas exportações industriais destinadas ao Brasil, a Argentina conta com uma recuperação da economia brasileira em 2018 para acelerar seu crescimento, diz o ministro da Fazenda argentino, Nicolás Dujovne. O economista afirma que o Brasil “foi um peso” para a Argentina nos últimos dois anos e que uma estabilização política fará com que o Brasil volte a avançar. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado

Quão importante é o Brasil para a retomada das exportações e do setor industrial argentino?

O Brasil é muito importante para a indústria argentina: 50% das nossas exportações manufatureiras vão para lá. O Brasil foi um peso para nossa indústria em 2015 e 2016. Em 2017, não vai somar nem subtrair. Acredito que, em 2018, o País vai crescer e ajudar nossas exportações. 

Vocês buscaram outros países para exportar por causa da crise no Brasil?

Isso aconteceu naturalmente. Estamos exportando veículos para a América Central e do Norte. Estão aparecendo outros mercados porque a crise brasileira forçou nossos industriais a buscarem outros mercados e diversificarem nossas exportações. 

A balança comercial com o Brasil está bastante desfavorável para a Argentina, principalmente por causa das exportações brasileiras de carros. Isso preocupa o governo? 

Não. O mercado bilateral automotivo é regulado em um regime flex (para cada US$ 1,5 em mercadoria que o Brasil vende para a Argentina, o Brasil tem de importar US$ 1). Hoje, o acordo está em 2,3. O que ultrapassar tem de ser compensado nos próximos anos, ou a diferença terá de ser reparada. Confiamos que, com a recuperação do Brasil, em 2018 haverá um salto das exportações da nossa indústria automotiva para o País, para compensar em parte o descumprimento do flex deste ano.

Como o senhor vê hoje a situação econômica do Brasil?

Vejo com otimismo, porque o País passou por uma situação muito difícil nos últimos anos e hoje a recuperação atual está baseada na melhora dos fundamentos macroeconômicos. Com a estabilização política, a mudança de expectativa vai permitir liberar todo o potencial da economia brasileira.

A Argentina perde competitividade com a aprovação da reforma trabalhista brasileira?

Se o Brasil crescer, para nós, é bom. Sobre as condições trabalhistas, cada país tem seu esquema. Nós escolhemos um caminho de reforma setor por setor. Fazemos mesas de diálogo entre sindicato, governo e empresas e vamos resolvendo as travas que cada setor tem buscando que todos colaborem com uma parte.

Não há planos de uma reforma?

Não. O que procuramos é seguir com as discussões setoriais. O Ministério do Trabalho está trabalhando para que as empresas coloquem em situação formal os empregados que estejam na informalidade. A reforma tributária tem que dar resposta aos motivos que fazem com que tenhamos trabalhadores informais. Acredito que esse é o caminho e temos tido resultado, porque o emprego está crescendo.

O governo está planejando uma reforma tributária que incluirá a redução dos impostos do setor produtivo. No Brasil, o governo Dilma Rousseff desonerou a indústria, mas os investimentos não aumentaram. Como garantir que o setor produtivo invista?

Há poucas certezas, mas pensamos que, se temos melhores impostos, há maior probabilidade de que a economia cresça e que haja mais investimento, assim funciona no mundo. Os investimentos já estão vindo para a Argentina. Neste ano, vão crescer 10%. Pensamos que teremos ainda mais investimentos se tivermos impostos melhores. Há muitos impostos na Argentina que distorcem a atividade produtiva e fazem que custe muito exportar. Por exemplo, o imposto sobre ingressos mútuos, que são cobrados nas Províncias. É um imposto que se cobra sobre a atividade produtiva. Se uma companhia tem muitas etapas de produção, vai acumulando a cobrança e não se deduz na etapa seguinte; acumula tanto imposto que depois é difícil exportar. Vemos isso na assimetria da nossa indústria automotiva na comparação com a brasileira. No Brasil, existe bastante tributos no setor automotivo, mas incidem nas vendas. São questões que temos que corrigir. Precisamos exportar mais e a estrutura de hoje da Argentina não ajuda nisso.

O mercado se preocupa com o déficit fiscal argentino. O governo vai conseguir cumprir a meta de 4,2% mesmo com os investimentos que têm feito em infraestrutura?

Vamos cumpri-la. Nós temos muitos objetivos: temos que melhorar a infraestrutura e diminuir o déficit. Então grande parte do investimento em infraestrutura no ano que vem será feito pelo setor privado, como parte dos acordos que tivemos para normalizar os preços dos serviços públicos (que estavam congelados). Por outro lado, tem o investimento do programa de PPP (parcerias público-privadas), que é algo incipiente na Argentina e que esperamos que, nos próximos anos, estejamos gerando um ponto de PIB. Assim, o gasto em infraestrutura no ano que vem subirá de 2,5% a 3,5% do PIB, mesmo com os gastos públicos se mantendo constantes, porque o resto virá de PPPs ou investimento privado.

A economia começa a melhorar, mas o desemprego ainda é alto. O que o governo planeja fazer?

O desemprego hoje é 8,7% e aspiramos taxas muito mais baixas. A maneira de conseguir isso é com investimento, para que a produtividade seja mais alta. É um caminho longo, mas estamos certos de que o desemprego vai diminuir nos próximos anos. Nas etapas iniciais de recuperação econômica, é lógico que a economia se recupere criando pouco emprego. Mas, quando se consolida o processo de recuperação, já começa a aparecer muito mais o crescimento do emprego. 

No começo do ano passado, o governo anunciou que terminaria 2016 com uma inflação pouco superior a 20%. Esse será o resultado de 2017, novamente ultrapassando a meta, de 17%. Falta uma política monetária mais forte para segurar o avanço dos preços?

Estamos fazendo as coisas que os países fazem para diminuir a inflação: ter um Banco Central independente e com metas de inflação. Vamos a um ritmo um pouco mais lento do que pensávamos, mas na direção que pensávamos. Vamos chegar a uma inflação de um dígito em 2019, mas não esqueçamos que a Argentina tem taxas de inflação acima dos 10% por ano desde 2007. Nós normalizamos a economia e, nesse processo, tivemos que remover os diferentes tipos de câmbio (o que acelerou a inflação). Mas estamos certos de que estamos fazendo o correto

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