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Obsessão eleitoral

Cenas do momento. Desacreditados, o governo Dilma e o PT enfrentam a pior rejeição popular vivida por um partido que está no poder em 126 anos de República. Crises política, econômica e ética não dão trégua e parecem não ter fim. Para onde olha, a população enxerga roubalheira e corrupção nas estatais, nos governos e nos partidos políticos. Em Brasília, gastam-se tempo, espaço e dinheiro público em conchavos e acertos para livrar políticos da cassação e da cadeia, e a gestão do País fica à deriva, pouco ou nada se constrói. Fora de Brasília, os brasileiros enfrentam desesperança e uma realidade patética: recessão econômica, inflação, desemprego e queda da renda familiar (falta dinheiro para pagar o aluguel, a escola das crianças, a conta de luz é ameaçada de corte e muitos sonhos ruíram, foram desfeitos).

Suely Caldas, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2015 | 03h00

E faltam só oito meses para a próxima campanha eleitoral. O que fazer? O PT e seu maior líder, Lula, constatam que não dá mais para esperar o tal ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy. Eles têm pressa, precisam agir, se mexer, fazer alguma coisa, propor alternativa. Qual? Ao contrário de uma parte do PT que continua defendendo as maluquices do passado (gastar o que não tem e endividar mais o País), Lula fez duas propostas que agradaram ao mundo econômico: substituir Levy por Henrique Meirelles na Fazenda e aplicar uma política de crédito expansionista, que estimule o consumo e a produção. Não demorou, ele já conseguiu sua primeira vitória: contra a vontade de Levy, Dilma recuou e liberou crédito subsidiado para empresas no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES.

Meirelles não é o ministro dos sonhos do PT, Lula sabe disso. Mas é um nome aceito pelo mercado financeiro e teve bom desempenho à frente do Banco Central (BC) nos seus oito anos de mandato, tempo em que os dois construíram amizade e confiança. Mais próximo do PT, o atual ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não é bem aceito no mercado financeiro e é até rejeitado em alguns círculos empresariais. Lula também sabe disso.

Mas será que resolve trocar um ministro por outro que defende o mesmo ou até mais duro ajuste fiscal do que o proposto por Levy, com cortes mais drásticos nos gastos do governo? E, ainda por cima, vê nas “malditas” privatizações uma saída para a recessão? Lula acredita que vale a pena porque, em quase um ano dirigindo a política econômica, Levy obteve poucos resultados, desgastou-se, e com ele no comando não saem ajuste fiscal nem retomada do crescimento. Então entra a parte mais importante, a obsessão que mais preocupa Lula e o PT: se a eleição de 2016 for um fiasco, uma derrota vergonhosa, o PT arrisca começar a escrever aí o capítulo final de sua história.

A alternativa Meirelles é um risco para o projeto do PT, até porque ele vai exigir liberdade para agir e decidir, como fez nos seus oito anos de BC. Mas Lula acredita que é preciso mudar, e, se não é possível mudar na esfera mais alta do poder, que se mude pelo menos o piloto da economia. Se Meirelles vai ou não conseguir algum sucesso a tempo de influenciar o resultado eleitoral, o futuro vai dizer. O importante, agora, é mudar. E o que diz Dilma disso tudo? Aceita o desafeto Meirelles? Dará a ele carta branca para decidir? Seria capitular, entregar o governo a Lula.

Como a obsessão de Lula é ganhar eleição, sua segunda proposta é parte do que ele fez em 2010: pau na máquina, a economia tem de crescer a qualquer custo, ainda que dure pouco e deixe sequelas. E ele propõe sair distribuindo crédito, estimulando o consumo e a produção das empresas. Só que a realidade hoje é muito diferente da de 2010. Hoje a população vive sobressaltada com os riscos de inadimplência e do desemprego, que não para de crescer. Contrair dívidas para gastar em geladeira não é sensato, a família pensa no futuro e não comete o desatino. E os eleitores pobres - alvos de Lula - são os mais atingidos. Segundo o BC, 45% dos brasileiros com renda até três salários mínimos estão em atraso com o cartão de crédito. A propósito, o que pensa Meirelles da proposta de Lula?

*SUELY CALDAS É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO

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