Obstáculo silencioso

Passado o impeachment, as atenções se voltam para o programa de ajustes e reformas anunciado pelo presidente Michel Temer.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2016 | 05h00

A principal dúvida que paira no ar é se o novo governo, agora definitivo, vai levar a bom termo e em tempo hábil a promessa de reequilibrar as contas públicas e relançar a economia.

Mesmo na hipótese incerta de que Temer entregará, até fins de 2018, o prometido, é consenso que o reequilíbrio da economia vai precisar da contribuição do crescimento para fechar a equação virtuosa, visto que a elevação da carga tributária, pelo menos no grau que seria exigido, se encontra politicamente fora de cogitação. Em resumo, o crescimento terá de ser promovido além da expansão cíclica, puxada pelas frágeis molas propulsoras do fundo do poço, que agora começa a dar as caras.

Nas condições atuais, isso significa dizer que vai ser preciso destravar o investimento. Sem direcionar recursos para inversões em ampliação ou renovação do parque produtivo, qualquer esboço de retomada tende a ser abortado pelo baixíssimo nível em que se encontra, no momento, o produto potencial. Ou seja, aquele conceito econômico não observável e, portanto, de determinação instável, que serve como indicação de referência para o grau de expansão econômica possível sem produzir pressões inflacionárias e desequilíbrios setoriais.

A recuperação dos investimentos, hoje restritos a uma taxa historicamente baixa, inferior a 17% do Produto Interno Bruto (PIB), para dez entre dez economistas, depende de um movimento consistente de redução nas taxas de juros. O início de um ciclo de corte nos juros aguarda indicações mais robustas de que o ajuste fiscal prometido pelo novo governo será, efetivamente, capaz de promover uma acomodação mais estrutural das contas públicas.

Há, porém, um obstáculo silencioso que interfere nessa equação virtuosa. Trata-se do alto nível de endividamento que sufoca famílias e empresas. Sabe-se estar em curso um processo lento de redução de dívidas, mas enquanto a desalavancagem não se completa, o risco é o de que a esperada redução dos juros não sensibilize as decisões de investimento. Uma coisa, como se sabe, é levar o cavalo para a beira do rio. Outra, bem diferente, é fazê-lo beber água.

Embora aqui e ali - e com frequência crescente - apareçam notícias que permitem perceber sinais de dificuldade na digestão das dívidas acumuladas, a verdadeira dimensão do problema continua envolta em sombras. De 35% do PIB em 2005, o total do endividamento de famílias e empresas saltou para 75% do PIB em 2015.

O total da dívida em moeda estrangeira de empresas brasileiras não financeiras dobrou entre 2008 e 2015, saindo de US$ 58 bilhões em 2008 para US$ 118 bilhões, no ano passado. A forte queda da rentabilidade empresarial, a partir de 2011, afetou muito negativamente o lucro e o retorno dos investimentos. Combinada com a elevação dos juros e a valorização do dólar, que fizeram subir o custo dos financiamentos, a situação levou as empresas a ingressarem no pior dos mundos em que a expansão de seus ativos se tornou menor do que a de seus passivos. 

Mais da metade das empresas de capital aberto, de fato, não consegue gerar recursos suficientes para cobrir o serviço de suas dívidas. Vive-se hoje, no Brasil, se for usada a linguagem mais precisa, uma crise de solvência.

Esse quadro não é só evidenciado pela explosão dos pedidos de recuperação judicial, que já chegaram, em 2016, até agosto, a um recorde superior a 1.200, com tendência a fechar o ano perto de 2.000 - se confirmado, mais de 50% do número de 2015. 

O recente anúncio da abertura de linhas de pelo menos R$ 5 bilhões, para compra de ativos de empresas em recuperação judicial, é outro forte indicativo de que o desequilíbrio fiscal não é o único a atrapalhar o relançamento da economia.

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