Ocaso de um império e ‘À espera dos bárbaros’
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Ocaso de um império e ‘À espera dos bárbaros’

Por toda a parte, a forma democrática de governo vem sendo ameaçada e desrespeitada por forças até agora distantes e que não se conhecem muito bem

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 08h00

Vinte anos depois, o 11 de Setembro de 2001 ainda não parou de produzir consequências.

A acachapante derrota da maior potência militar do mundo para o Afeganistão – um país pobre, cujo PIB per capita é de pouco mais de US$ 500 por ano – e a desastrada retirada de Cabul pelas forças aliadas tendem a mudar a estratégia de defesa dos Estados Unidos contra os ataques terroristas.

Dia 31 de agosto, em pronunciamento à nação, o presidente Joe Biden avisou que seu país não mais combaterá o terrorismo por meio de guerras territoriais. Embora não tenha dito como seriam guerras assim, pode-se imaginar que a partir de agora será dada prioridade a reconhecimentos de inteligência e a operações táticas.

Mas a percepção geral de ocaso de um império, ou, se não disso, pelo menos de ocaso do exercício de um tipo de poder imperial, se alastrou pelo resto do mundo.

Por toda a parte, a forma democrática de governo vem sendo ameaçada. Permeia tudo não só a sensação de cansaço, mas, também, a de que as fronteiras – não só as físicas, mas também as psicológicas – vêm sendo desrespeitadas por forças até agora distantes e que não se conhecem muito bem.

Ao mesmo tempo, furacões, inundações, incêndios florestais e desastres de toda ordem multiplicam os sintomas de que o planeta não apenas está sendo devastado, mas, também, está seriamente doente. E, no entanto, os maiorais dos Estados e das Nações não chegam a um acordo sobre o que fazer nem parecem convencidos de que algo urgente precisa ser feito para evitar o pior.

A prática política e o modo de vida vigente até recentemente parecem estar em perigo. Apesar das centenas de milhares de estudos sobre o assunto, esse estado de espírito e de inquietação geral pode ser melhor traduzido pelo cinema, pela literatura e pelas artes plásticas

No início do século 20, o poeta Konstantínos Kaváfis (1863-1933), natural de Alexandria, publicou em grego moderno, um poema que antevê com impressionante acuidade esse estado de espírito prostrante. O maior crítico literário do Brasil, Antonio Candido (1918-2017), dedicou a ele a quarta parte do seu livro O discurso e a cidade (Editora Duas Cidades). Para ele, este é um dos poemas mais importantes do século. Em poucos, mas contundentes versos expressou essa sensação difusa de um inimigo que está para chegar, mas que pode não chegar. Aí vai a transcrição a partir da tradução livre da versão em espanhol (Editora Seix Barral): 

– À espera dos bárbaros

“– O que esperamos todos reunidos nesta praça?

É que hoje chegam os bárbaros.  

 

– Por que há tão pouca atividade no Senado? Por que a paralisia dos senadores? Por que não aprovam novas leis?

Porque hoje chegam os bárbaros.

Que leis poderiam votar os senadores? Quando chegarem, as votarão os bárbaros.  

 

– Por que o imperador levantou-se tão cedo e à porta principal da cidade segue sentado solenemente em seu trono, portando sua coroa?

Porque hoje chegam os bárbaros. 

Nosso imperador está à espera do seu chefe. Inclusive, preparou um pergaminho para ele. E lhe conferiu nomeações e títulos sem conta.  

 

– Por que nossos dois cônsules e os pretores se apresentam hoje com suas togas recamadas de púrpura? Por que esses braceletes e tantas ametistas e anéis de esmeraldas cintilantes? Por que empunham bastões preciosos lavrados maravilhosamente em ouro e prata?

Por que hoje chegam os bárbaros e essas coisas os deslumbram. 

 

– Por que os dignos oradores não vêm, como sempre, proferir discursos e perorações?

Porque hoje chegam os bárbaros e eloquência e arengas os aborrecem. 

 

– Por que, de repente, essa inquietude e essa confusão? Que seriedade nesses rostos! Por que rapidamente ruas e praças se esvaziam e todos voltam para suas casas tão preocupados?

Por que anoiteceu e os bárbaros não apareceram. Algumas pessoas que vêm da fronteira nos contam que não há sinal dos bárbaros. 

 

E agora, o que será de nós sem os bárbaros? Eles eram uma certa solução.”

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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