OCDE alerta para novo choque de petróleo

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que congrega os trinta países mais desenvolvidos do mundo, disse hoje que a alta do petróleo dos últimos dois anos equipara-se em termos normais aos grandes choques de energia ocorridos nas décadas passadas. O economista-chefe da entidade, Jean-Philippe Cotis, disse que ainda é prematuro se ter uma avaliação concreta sobre o impacto negativo da alta da commodity na economia mundial mas previu que a tendência de queda dos juros nos Estados Unidos não deverá ser revertida, embora possa ser desacelerada. A OCDE manteve em 3,6% a sua previsão de crescimento do PIB dos Estados Unidos para este ano. "Superposta ao choque está a devastação nos últimos dias causada pelo furacão Katrina, cujo impacto macroeconômico ainda não pode ser avaliado com confiança", afirmou Cotis.Desde que a OCDE divulgou suas previsões para a economia mundial em maio passado em seu estudo Economic Outlook, o preço do barril do petróleo subiu cerca de US$ 20. "Os preços futuros da commodity mais distantes também se elevaram, consistentes com a percepção de que os preços mais altos vão continuar por algum tempo", disse Cotis. "Os efeitos mecânicos adversos da alta do petróleo podem ser acentuados pela grande incerteza relacionada à evolução dos preços de energia no médio prazo."Segundo ele, a reação de cada economia vai depender do seu ritmo atual de expansão, seu grau de resistência e às políticas adotadas pelas autoridades. Quanto mais forte o desempenho atual de uma economia, maior seu grau de resistência. Nos Estados Unidos, a expansão econômica segue num ritmo robusto. Entretanto, ele observou que o choque do petróleo e a devastação causada pelo Katrina poderão reduzir o crescimento norte-americano nesse segundo semestre. No Japão, a atividade econômica também estava mais acelerada do que nos períodos que antecederam choques do passado. Em contraste, na Europa, onde o crescimento do PIB é mais moderado, "a atividade é mais vulnerável à alta do petróleo".Cotis observou que quanto mais fatores ancorarem uma expansão econômica - exportações, consumo interno, investimentos etc - menor o impacto com o choque petrolífero. Nesse caso, os Estados Unidos também estão mais bem posicionados, seguidos do Japão. Mas na Europa, particularmente na França e Reino Unido, o consumo doméstico vem declinando. O crescimento da Alemanha vem sendo ancorado nas fortes exportações, mas há sinais de que os investimentos estão crescendo.As regiões também apresentam diferenças importantes no comportamento inflacionário. O núcleo da inflação dos Estados Unidos tem oscilado em torno dos 2% anuais, com a taxa corrente ficando um pouco acima devido à alta dos custos energéticos. No Japão, o núcleo da inflação é estável, mas ainda negativo. A inflação européia tem ficado em torno dos 2% desde o final do ano passado, embora o núcleo inflacionário esteja em queda, em torno de 1,25%. No Reino Unido, no entanto, o núcleo inflacionário tem apresentado altas.Cotis prevê que o Federal Reserve manterá o ciclo de alta dos juros norte-americanos, "embora possivelmente num ritmo mais comedido do que até agora". Já o banco central japonês deverá manter inalterada sua política de taxa zero de juros. "Em contraste, os bancos centrais na área do Euro e no Reino Unido enfrentam um dilema maior", disse. Ele explicou que na área do Euro, onde os juros foram reduzidos um pouco desde o primeiro semestre deste ano, a inflação tem se mantido estável apesar da alta dos preços do petróleo. Isso, segundo Cotis, deve-se à credibilidade do Banco Central Europeu, mas também a um prolongado período de fraca atividade econômica na região. "Isso implica que o argumento para uma política monetária estável ainda é forte", afirmou.No lado fiscal, a OCDE avalia que a Europa e o Japão têm obtido alguns progressos. Nos Estados Unidos, embora a arrecadação tributária tenha surpreendido positivamente, "ainda não está claro se isso representa uma melhora duradoura" Cotis alerta, no entanto, a maioria dos países ricos certamente terá que promover um aperto fiscal no futuro.

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