OCDE não deve se recuperar antes de 2010, diz secretário

Para Angel Gurría, países mais industrializados do mundo terão crescimento baixo ou nulo no ano que vem

Priscila Arone, da Agência Estado,

20 de outubro de 2008 | 17h53

Abatidas pela crise financeira e pela retração do mercado de crédito, as economias dos países mais industrializados do mundo devem registrar crescimento nulo ou, na melhor das hipóteses, baixo em 2009, e voltar a crescer somente em 2010. A declaração foi feita por Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O crescimento deve ser nulo na maioria dos países da OCDE pelo restante de 2008 e "podemos ver alguns países caindo em recessão", disse Gurría.   Veja também: Consultor responde a dúvidas sobre crise   Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise     Segundo ele, a expectativa geral era de que 2008 seria turbulento, mas ele acredita que, com uma melhora no fim deste ano, os países membros da OCDE deverão estar melhor no final de 2009. "Ninguém está prevendo números para 2010, mas o primeiro ano no qual deveremos ver um crescimento normal (ajustado pela inflação) de cerca de 3% deve ser 2010", disse Gurría, acrescentando que essa previsão dependerá do comportamento do preço do petróleo.   Em suas Perspectivas Econômicas de meio de ano, publicadas em junho, antes da crise financeira, a OCDE, com sede em Paris, previu crescimento de 1,8% para seus 30 países membros em 2008 e 1,7% para 2009. Economistas independentes dizem que esses números são agora extremamente otimistas e serão revisados para baixo quando a organização divulgar suas novas estimativas, no dia 25 de novembro. As últimas projeções do FMI, divulgadas no início deste mês, apontam crescimento de 1,5% em 2008 e de apenas 0,5% em 2009.   Um fator positivo para a economia mundial é que os preços de alimentos e matérias-primas impulsionados pela especulação começam a refletir os fundamentos da economia, lembrou Gurría. "Se a demanda está mais fraca, os preços caem e o mercado de petróleo é mais compreensível", disse ele. "O que é mais importante é que isso acalma as pressões do lado da inflação, fator que havia feito alguns países apertarem suas políticas monetárias. Se eles agora produzem certo alívio em razão da desaceleração econômica, haverá espaço para a política monetária ser, de alguma forma, mais fácil de ser adaptada", acrescentou.   Estabilização   No início do mês, os maiores bancos centrais do mundo fizeram cortes em suas taxas de juros, num esforço para amortecer a iminente desaceleração ampla da economia real ao reduzir o custo do crédito. A engrenagem que foi colocada em ação pelas maiores economias do mundo para reduzir os efeitos da crise de crédito e para servir de base para o sistema bancário são extremamente importantes para restaurar a confiança, afirmou Gurría. "Estabilizar o sistema financeiro e fortalecê-lo é uma ferramenta contracíclica muito forte", disse ele.   "Se há uma lado encorajador dessa crise financeira e seu impacto na economia real é o reconhecimento, dentre os maiores países, de que eles não podem sair de seus problemas sozinhos", afirmou. "Eu acredito que agora nós temos uma forma diferente de ver as coisas, de que em uma semana há uma nova confiança em todos eles, não apenas individualmente, mas também como um grupo. Esse é uma elemento muito importante para o que vier a acontecer depois", disse Gurría. "Tornou-se dolorosamente óbvio que estamos nisso juntos e que se não fizermos a coisa certa sairá muito caro".   Doha   Ele expressou sua frustração com o fato de que os principais líderes mundiais foram capazes de se reunir rapidamente e de orquestrar uma pesada operação de resgate para o sistema financeiro global, mas não conseguiram chegar a um acordo para as conversações da Rodada Doha de comércio multilateral, que fracassou em julho em meio a disputas sobre importações agrícolas. "Nós estávamos tão perto. Poderíamos discutir o assunto novamente", disse.   Concluindo que a rodada de liberalização do comércio é "fundamental", ele disse que os países em desenvolvimento começam a sentir a pressão, em parte por causa da séria desaceleração das economias dos maiores países da OCDE, mas também porque eles não podem vender seus produtos. "Não é apenas porque há menor demanda, mas porque os impedimento para o comércio não foram removidos", afirmou Gurría.   O secretário-geral da OCDE disse que há o risco de que o custo da operação de socorro financeiro sem precedentes nas principais economias do mundo as leva a reduzir seus esforços de ajuda ao desenvolvimento. "Estou preocupado com os orçamentos de ajuda", disse ele. "Em tempos apertados você pode ter desistências, então, estamos fazendo fortes pressões e escrevendo para líderes e ministros para lembrá-lo de seus compromissos", disse Gurría.

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