Edu Barcellos
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Odebrecht registra lucro recorde de R$ 1,5 bi e investirá até R$ 15 bi este ano

Empresa consolidou atuação multissetorial e reduziu peso do tradicional setor de construção a um terço do faturamento de R$ 53,8 bilhões do ano passado

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Na esteira do lucro recorde de R$ 1,5 bilhão registrado em 2010 - alta de 114% em relação ao resultado de 2009 -, a gigante nacional Odebrecht prepara-se para "turbinar" em até 50% os valores de investimento em expansão e novos negócios este ano, de acordo com o vice-presidente financeiro da empresa, Luciano Guidolin. O investimento total do grupo, que ficou em R$ 10 bilhões no ano passado, pode chegar a R$ 15 bilhões em 2011.

Os resultados da companhia, que incluem um crescimento de 27% nas receitas, que atingiram R$ 53,8 bilhões em 2010, refletem a estratégia de diversificação implementada com mais força ao longo dos últimos cinco anos: com a emergência de novos negócios, como a operação de óleo e gás, a importância relativa da construtora, origem do grupo, caiu para um terço do resultado total.

Hoje, a maior contribuição para o faturamento da companhia vem da petroquímica Braskem, na qual a holding Odebrecht detém 38% do capital total, em sociedade com a Petrobrás e a BNDESPar, empresa de participações do banco oficial de fomento. Guidolin, no entanto, diz que a intenção da empresa é ser majoritária nos negócios da qual faz parte - em todos os outros segmentos em que atua, a participação mínima da Odebrecht de 65%. "Na Braskem, temos 38% do capital total e 50,1% do votante", emenda o executivo.

Mesmo com a abertura de capital de alguns de seus negócios no radar a partir do ano que vem, o vice-presidente financeiro do grupo diz que a pulverização societária, a ser feita individualmente e de acordo com a necessidade das diferentes empresas, não vai tirar a posição da Odebrecht como "proprietária" dos negócios. "As aberturas de capital virão a partir de 2012 e 2013. Mas já está decidido que um IPO não faz sentido nem para a construtora, que é um negócio maduro, nem para a holding."

Recursos. O desenvolvimento de parcerias foi uma forma que o grupo arranjou de financiar sua atuação em novos setores: com a gestora de recursos Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, a empresa montou um negócio imobiliário; na empresa de saneamento Foz do Brasil, a parceria é com o fundo de investimento oficial FIF-FGTS; nos empreendimentos de óleo e gás, tem associação com a Temasek, de Cingapura; e a ETH, empresa de etanol, tem participação do fundo americano Ashmore e do brasileiro Tarpon.

Entretanto, além de financiar investimentos, o vice-presidente financeiro da empresa conta que a companhia quer manter um "colchão de liquidez" nas diferentes companhias - a meta é que as empresas tenham caixa suficiente para agir rapidamente caso uma oportunidade apareça. A companhia captou R$ 20 bilhões no ano passado. Esse total, além de financiar investimentos e troca de dívidas, também engorda o caixa dos diferentes negócios em aproximadamente R$ 4 bilhões.

O momento, de acordo com Guidolin, é propício para companhias brasileiras captarem dinheiro novo, especialmente no exterior. "O mercado está muito líquido, e com custos baixos, especialmente nos Estados Unidos", afirma o executivo. Segundo ele, é preciso trabalhar rapidamente para aproveitar a onda positiva em relação ao Brasil, porque as experiências passadas ensinaram que, quando a torneira de liquidez é fechada, não se sabe quanto tempo vai levar para uma nova oportunidade de "bonança" surgir. "Quando os recursos secam, não se sabe se eles vão retornar em um mês ou em seis meses", explica.

Para se proteger de eventuais tempos de vacas magras e não ter de adiar projetos, o grupo se dedica a testar formas "criativas" de atrair o interesse de investidores internacionais. No ano passado, a companhia captou US$ 1,5 bilhão no setor de óleo e gás ao oferecer como garantia contratos de aluguel de sondas e a propriedade de navios, entre outros bens. "Não foi necessário usar os bens que constam do balanço como garantia, até porque esses recursos são finitos", explica Guidolin. "O interesse foi quatro vezes superior ao volume determinado para a captação."

Sinergias. Outra forma de a empresa se proteger de eventuais "soluços" econômicos - e, ao mesmo tempo, não se perder em setores sem relação aparente - é apostar em negócios sinérgicos aos já existentes. Essa estratégia pode ser percebida não apenas na contratação da construtora para as obras de engenharia civil das diferentes empresas. Hoje, conforme o executivo, a área de pesquisa da Braskem desenvolve soluções para o negócio de óleo e gás do grupo. Em Santo André, no ABC Paulista, onde a petroquímica mantém uma unidade, o sistema de reutilização de água é desenvolvido pela Foz do Brasil, companhia de saneamento da Odebrecht. As obras civis desse sistema de tratamento são, naturalmente, feitas pela construtora.

R$ 75,1 bi

é o valor total dos ativos da Odebrecht, segundo o balanço de 2010 do grupo. Trata-se de uma alta de 57% sobre 2009

R$ 700 mi

é o valor do lucro do ano de 2009, ajustado para a norma de contabilidade IRFS. Na regra antiga, o resultado havia sido de R$ 1,1 bi

PARA ENTENDER

Em meio a recordes, a Odebrecht vive uma briga societária bilionária. A família Gradin, que detém 20,6% das ações do grupo, tenta impedir judicialmente a venda de sua participação, exigida pela família que dá nome ao grupo, hoje com 62,3% das ações. A compra dos papéis dos minoritários seria, segundo os Odebrecht, um direito garantido no contrato de acionistas. Os Gradin, porém, não concordam e acionaram a Justiça pedindo uma arbitragem. As partes serão chamadas para uma audiência de reconciliação.

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