Keiny Andrade/AE-10/5/2010
Keiny Andrade/AE-10/5/2010

Odebrecht tentou forçar venda de ações dos Gradin

Mesmo após marcação de audiência na Justiça, empresa da família Odebrecht deu prazo de 48 horas para entrega dos papéis

Tiago Décimo, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Cerca de um mês após a juíza marcar uma audiência de conciliação entre a Graal (empresa que representa a família Gradin) e a Kieppe (que representa os Odebrecht), os controladores do conglomerado tentaram uma saída extrajudicial para resolver a disputa entre sócios que estavam juntos há quase 40 anos. Na semana passada, a Kieppe enviou à Graal uma notificação exigindo em até 48 horas a transferência das suas ações para os controladores.

O documento, obtido pelo Estado, está nos autos do processo que tramita na 10.ª Vara Cível da Justiça baiana. O texto alerta que o "não atendimento da notificação obrigará a Kieppe a adotar todas as medidas jurídicas cabíveis para obter o cumprimento coercitivo da obrigação devida e até aqui inadimplida".

A discussão societária começou no fim de agosto de 2010, quando Marcelo, presidente da Odebrecht e neto do fundador, procurou os Gradin para ajustar o acordo de acionistas, firmado em 2001. Mas os sócios não chegaram a um consenso sobre a venda da participação dos Gradin, que corresponde a cerca de 20% da Odebrecht Investimentos, holding controladora do grupo. Diante do impasse, os Gradin decidiram ir à Justiça para pedir um mediador para a arbitragem do caso. A audiência de conciliação está marcada para 23 de fevereiro.

Segundo o documento, dia 8 de dezembro foi a data fixada pela Kieppe para a compra e venda das ações da Graal. O prazo foi prorrogado para 16 de dezembro e, em seguida, para o dia 30 do mesmo mês. Como os Gradin não aceitaram vender sua parte na companhia, os Odebrecht enviaram a notificação.

Compra e venda. O acordo de acionistas firmado há dez anos dá à Odebrecht Investimentos o direito de comprar as ações dos chamados "acionistas administradores", aqueles executivos e conselheiros que recebem papéis da empresa como parte da remuneração. Critérios como idade, tempo de casa e saída de executivos determinam a negociação dessas ações.

Procurada, a Graal informa apenas que a Odebrecht tem realmente o direito, mas entende que os Gradin não são "elegíveis para o exercício de opção". Ou seja, não se enquadram dentro dos tais critérios, não detalhados por nenhuma das partes.

Até dezembro do ano passado, os irmãos Bernardo e Miguel Gradin ocupavam cargos executivos em empresas do grupo. O primeiro era presidente da Braskem e ainda hoje é conselheiro da ETH, produtora de etanol. O segundo estava à frente da Odebrecht Óleo e Gás, que ele mesmo ajudou a criar há cinco anos. O pai, Victor, foi o braço direito do fundador do grupo, Norberto Odebrecht, e hoje ainda ocupa uma cadeira no conselho da holding.

A fatia dos Gradin foi avaliada pelo Credit Suisse por US$ 1,5 bilhão. Mas, segundo pessoas próximas aos Gradin, a questão não se resume a valor. Em um dos melhores momentos da história da empresa, eles não querem abrir mão de seu quinhão. Procurada, a Odebrecht não comentou o assunto.

ODEBRECHT X GRADIN

Outubro de 2010

A Kieppe, empresa que representa a família Odebrecht, anuncia que vai exercer opção de compra das ações dos Gradin.

Dezembro de 2010

A Graal, empresa dos Gradin, entra com ação na Justiça da Bahia pedindo um mediador para a arbitragem do caso.

11 de janeiro de 2011

A família Odebrecht entra com duas petições contra a ação movida pelos Gradin, uma de embargo de declaração e outra de contestação.

19 de janeiro de 2011

Justiça rejeita o pedido dos Odebrecht e mantém agendada para 23 de fevereiro a audiência de conciliação entre as partes

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