Pilar Olivares/Reuters
Prédio da Eletrobras; um dos primeiros passos esperados pelo mercado no processo de privatização é a troca de executivos da companhia e também do conselho de administração.  Pilar Olivares/Reuters

Eletrobras é privatizada com oferta de R$ 33,7 bilhões na Bolsa

Após acirrada disputa  entre investidores, papel saiu a R$ 42, desconto de 4% em relação à cotação de hoje; com operação, governo deixará de ter controle do negócio

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 21h13

A oferta de ações que resultou na privatização da Eletrobras movimentou cerca de R$ 33,7 bilhões, considerando os lotes extras, depois de o preço de cada papel ser definido a R$ 42 na noite de quinta-feira, 9, segundo fontes de mercado. O ajuste de preço foi alvo de uma intensa disputa entre investidores locais e estrangeiros, que só terminou depois das 20h. A venda da estatal de energia via Bolsa foi o maior movimento de desestatização do País em duas décadas. A fatia do governo e do BNDES no negócio deve cair a cerca de 35%.

O preço de R$ 42 representou um desconto de 4% em relação ao valor da ação ao fim do pregão de quinta-feira, de R$ 44. Além de ter sido uma das maiores ofertas de ações em todo o mundo no ano de 2022, a operação da Eletrobras também foi a maior operação na B3, a Bolsa brasileira, desde a megacapitalização da Petrobras, em 2012, que movimentou R$ 100 bilhões.

Grandes investidores marcaram presença na operação, entre eles o fundo 3G Capital – dos fundadores da Ambev – e banco Clássico, de José Abdalla Filho, que também é um relevante acionista da Petrobras. A demanda total, considerados todos os tipos de investidores teria superado R$ 70 bilhões.

Mas a oferta da Eletrobras teve um empurrão importante da possibilidade de uso de recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de ações. Foi a primeira vez em cerca de 20 anos que o trabalhador brasileiro teve essa oportunidade. Antes, isso ocorreu com papéis da Vale e da Petrobras.

Diante da oportunidade, a demanda foi alta: cerca de 350 mil pessoas reservaram ações da companhia. O teto para uso do FGTS era de R$ 6 bilhões, mas a demanda ficou em R$ 9 bilhões, ou 50% a mais. Por essa razão, deverá haver uma redução em relação aos valores reservados por trabalhadores. 

O investidor que fez uso de seu FGTS para entrar na oferta não poderá se desfazer do investimento por um prazo de no mínimo 12 meses – exceto em alguns casos, como o de demissão sem justa causa.

De olho em ganhos de eficiência

Em relação à privatização da companhia, um dos primeiros passos esperados por fontes de mercado ouvidas pelo Estadão é a troca de executivos da companhia e também do conselho de administração. Com a redução de sua participação, o governo terá menos assentos no colegiado, abrindo espaço para que fundos de investimento indiquem seus representantes. 

A partir dessa mudança, o novo conselho deverá fazer uma mudança geral no quadro administrativo da empresa, incluindo todo o alto escalão. 

Analistas do setor acreditam que a empresa poderá ter mais fôlego para investir, incluindo em fontes de energia renováveis. “A Eletrobras terá exatamente o mesmo modelo de governança que já foi testado em outras privatizações do setor elétrico na Europa

A disponibilidade de caixa e o uso do mercado de capitais para novas captações vão permitir novos planos de investimento que são essenciais no segmento”, aponta Fabio Coelho, presidente da Amec, associação que representa mais de 60 investidores, entre locais e estrangeiros, que têm investimento de mais de R$ 700 bilhões na Bolsa brasileira. 

Segundo Coelho, um dos pontos relevantes na “nova Eletrobras” será uma maior agilidade na tomada de decisão. “É importante ressaltar que o governo continuará sendo o maior acionista individual, e que, portanto, terá acesso a maior porcentual dos lucros esperados, justificando, assim, o interesse público na operação”, comenta.

Mais próxima do setor privado

Sócio do M3BS Advogados e especialista em negócios públicos, Lucas Miglioli afirma que, com a privatização, a Eletrobras deve se tornar mais eficiente. “Tornando sua burocracia mais compatível com a do setor privado, terá mais agilidade para enfrentar um cenário cada vez mais competitivo e ávido por novas tecnologias”, disse. “A expectativa é de que, ao deixar de ser controlada pela União, a Eletrobras deixe de atuar como mera operadora e ganhe protagonismo no setor.”

Para o público em geral, uma das expectativas é de que a conta de luz fique mais barata, mas pode não ser bem assim. Sócio do PMMF Advogados e especialista em direito público, Ulisses Penachio lembra que apenas parte do novo capital – aquele destinado à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) – poderá gerar alguma redução nas tarifas. “A médio e longo prazo, o impacto da privatização na tarifa tende a ser neutro”, aponta. 

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Cerca de 350 mil trabalhadores usaram recursos do FGTS na oferta da Eletrobras, dizem fontes

Embora governo tenha estabelecido teto de R$ 6 bilhões para investimento, demanda foi 50% superior e chegou a R$ 9 bi

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 19h49

Cerca de 350 mil trabalhadores utilizaram parte de seu saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para participar da oferta de ações da Eletrobras, transação que levará à sua privatização, apurou o Estadão. Ao todo, esse grupo fez reservas para compra de ações que somaram aproximadamente R$ 9 bilhões, acima do teto imposto pelas regras da oferta, de R$ 6 bilhões.

Essa é a primeira vez que os recursos do FGTS podem ser utilizados para compra de ações desde a megacapitalização da Petrobras, em 2010. Como a demanda foi maior do que esse limite, é esperado que os investidores não recebam o total de ações que inicialmente reservaram. O investidor que fez uso de seu FGTS para entrar na oferta não poderá se desfazer do investimento por um prazo de no mínimo 12 meses, exceto em alguns casos, como demissão.

Segundo analistas, a alta demanda pelas ações da companhia, mesmo em um ambiente global de maior aversão ao risco, se deve às apostas de ganhos com a valorização das ações após a privatização, com maior ganho de eficiência por parte da companhia.

Ao fim da oferta na Bolsa brasileira a União terá sua participação caindo para abaixo de 50%, ou seja, deixará de ser a controladora. A previsão é de que a fatia que hoje pertence ao governo, somando União e BNDES, vá dos atuais 60% para cerca de 33%, de acordo com o prospecto da oferta. 

O modelo da privatização é o mesmo do que foi utilizado pela antiga BR Distribuidora, hoje Vibra.

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