Evelson de Freitas/AE
BR Distribuidora deve voltar ao mercado de capitais em 2020 Evelson de Freitas/AE

Oferta de ações na Bolsa brasileira pode atingir até R$ 200 bilhões em 2020

Se a expectativa do mercado se confirmar, valor de operações vai mais do que dobrar em relação ao número de 2019 e representar um novo recorde para o mercado financeiro do País

Renée Pereira e Monica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 14h00

As empresas brasileiras devem continuar se financiando na Bolsa para promover sua expansão em 2020, a exemplo do que já aconteceu em 2019. As operações de abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) e emissões de ações de companhias já listadas na B3, a bolsa paulista, podem atingir de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões no ano que vem, segundo fontes ouvidas pelo Estado. Em 2019, as operações no mercado de capitais somaram cerca de R$ 90,2 bilhões, com 42 transações (37 emissões de ações e 5 IPOs).

Do total movimentado em 2019, cerca de R$ 80 bilhões foram em emissões de ações – quase metade desses recursos foi para financiar os projetos de expansão das empresas e o restante foi para o bolso dos acionistas. 

“As operações de emissões de ações (follow on) e IPO podem, no mínimo, dobrar em relação a 2019. Há potencial para bater R$ 200 bilhões”, disse à reportagem Fabio Nazari, chefe de mercado de capital de renda variável do BTG Pactual. Se concretizada a expectativa, poderá superar a marca recorde histórica de 2010, quando as operações totalizaram R$ 150,3 bilhões.

Fôlego de estatais

O movimento deve ser impulsionado pelas estatais, como Petrobrás e Caixa, além da venda de boa parte da carteira de ações nas mãos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na Bolsa. Somente a venda dos papéis do banco de fomento na petroleira deve movimentar cerca de R$ 25 bilhões. O BNDES também já tornou pública a intenção de se desfazer de metade de sua participação na JBS, podendo levantar cerca de R$ 10 bilhões. 

O chefe de mercado de capitais e renda variável para América Latina do Morgan Stanley, Eduardo Mendez, destaca que a carteira de ações do banco de fomento é da ordem US$ 90 bilhões.

O Estado apurou que a BR Distribuidora, empresa de distribuição de combustíveis da Petrobrás, deverá  fazer nova oferta de ações da companhia ainda no primeiro trimestre de 2020. Em julho, a Petrobrás levantou R$ 8,6 bilhões com a venda de 30% da fatia da BR Distribuidora na B3. A distribuidora de combustíveis, líder no País, abriu seu capital em 2017. A Petrobrás, dona do controle da empresa até julho de 2019, detém atualmente 37,5% de fatia na empresa.

Segundo Pedro Costa, chefe de renda variável do banco Santander, há potencial de 75 operações de emissões de ações e IPOs na Bolsa em 2020. Mais conservador, ele acredita que o valor movimentado pode ser de até R$ 150 bilhões. O Santander participou de 17 das 42 operações realizadas em 2019.

O setor de saneamento, que passa por uma mudança no marco regulatório, também deverá ser bastante ativo em 2020, de acordo com Costa. “Pelos menos duas companhias – a Cagece, do Ceará, e Compesa, de Pernambuco – já tornaram pública a intenção de fazer abertura de capital”, disse Costa. A Cagece já fez o pedido de registro de oferta pública na Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

O Estado apurou que a Bahia, Distrito Federal e Rio de Janeiro também estudam a possibilidade de abertura de capital de suas empresas de saneamento como forma de melhorar suas contas e conseguir investir na expansão da rede. Nesses casos, no entanto, o processo ainda pode demorar mais algum tempo. 

Na fila

Entre as empresas que já estão com processos em andamento para abertura de capital na B3 estão, por exemplo, a empresa catarinense de shoppings Almeida Junior, o birô de crédito Boa Vista SCPC e as construtoras Kallas e Cury. Já entre as ofertas de novas emissões de ações que devem acontecer já no primeiro trimestre é a do Banco Votorantim.

Para Eduardo Mendez, chefe de mercado de capitais e renda variável para América Latina do Morgan Stanley, com a queda da taxa de juros de 14% para 4,5% fez com que os investidores iniciassem um processo de realocação de seus investimentos, em fundos imobiliários e renda variável. Antes eles não precisam se preocupar muito, pois os títulos públicos conseguiam dar o retorno necessário para seus recursos. Por isso, diz ele, o apetite do investidor brasileiro está grande.

Do outro lado, a valorização da Bolsa tem atraído companhias que em outros momentos não queriam se financiar com emissão de ações. Nesse cenário, ele aposta que o volume e número de operações cresça 50% em 2020, com 18 a 25 IPOs. “Isso pressupondo um céu de brigadeiro com relação a apetite do investidor para as ofertas públicas”, diz o executivo. 

A expectativa é que a demanda mais forte, de 60%, venha do mercado doméstico. “Mas não subestimaria o investidor estrangeiro se o governo continuar fazendo as reformas necessárias.” Na avaliação dele, o ano de 2020 vai mesclar grandes ofertas com operações de empresas menores. Acho que tem todo tipo, todo formato e todo gosto.

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Sucesso da XP anima mais empresas brasileiras a abrir capital nos EUA

Flexibilidade de regras, que evita diluição de poder de acionistas, e chance de atrair investimentos a projetos embrionários incentivam empreendedores nacionais a tentar a sorte lá fora

Renée Pereira e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 14h00

Do ano passado para cá, cinco empresas escolheram as bolsas de Nova York e Nasdaq para lançar suas ações em detrimento da B3, bolsa de valores de São Paulo. Juntas, elas captaram US$ 6,2 bilhões – ou R$ 25 bilhões, considerado o dólar a R$ 4,05, valor quase 50% superior às ofertas feitas por oito companhias na bolsa brasileira no período.

O movimento, que começa a incomodar o mercado interno, tem potencial para crescer nos próximos anos, sobretudo entre as empresas de alto crescimento, como as unicórnios (startups que superam US$ 1 bilhão em valor de mercado).

O sucesso do IPO (sigla em inglês para oferta pública de ações) da XP Inc no início de dezembro, que captou US$ 2,25 bilhões na Nasdaq, deve incentivar outras companhias a desembarcar no mercado americano.

A rede de hamburgueria Madero, por exemplo, já anunciou que pretende fazer sua oferta de ações na Bolsa de Nova York, em 2020; a Cogna, holding que reúne Kroton e outros negócios na área educacional, também sinalizou para abertura de capital de sua subsidiária Vasta Educação nos Estados Unidos, seguindo o mesmo caminho trilhado pelas empresas de meio de pagamentos PagSeguro e Stone, e as companhias de ensino Arco Educação e Afya.

Como essas, outras companhias se movimentam para seguir a mesma trajetória. “O Brasil tem um potencial incrível em diversos setores, como educação, saúde, tecnologia e finanças”, afirma a diretora de listagem e mercado de capitais da Nasdaq na América Latina, Ivana Ferreira. Ela conta que tem viajado com frequência para o Brasil para se reunir com potenciais empresas interessadas em abrir o capital na bolsa americana.

A executiva afirma que o foco é se aproximar de companhias, empreendedores e times em começo de jornada. “Estamos comprometidos em apoiar empresas em todas as fases de seu ciclo corporativo”, diz ela, destacando que a listagem da XP Inc é a validação do trabalho da Nasdaq na região. “Os Estados Unidos é o país com maior número de investidores do planeta, ou seja é o mercado de maior liquidez no mundo.”

Empresas de tecnologia

Para algumas empresas, como as de tecnologia, essa é uma vantagem importante comparada ao mercado brasileiro. “Existe uma classe de empresas que ainda não tem tanta demanda no Brasil por serem desconhecidas ou menores. Para esses casos, falta a maturidade que o mercado americano tem”, diz o diretor da Santander Corretora André Rosenblit. Além disso, há fundos dedicados a determinadas áreas que não por aqui. Ele lembra que quase 60% dos investidores nos Estados Unidos aplicam em ações enquanto aqui apenas 1,2%.

Mas há outros fatores que têm determinado o desembarque das empresas brasileiras nos Estados Unidos. Um deles é o free float – porcentagem de ações emitidas no mercado. Aqui, as companhias têm de lançar o mínimo de 15% ou 25% se o volume for acima de R$ 3 bilhões, afirma o responsável pelo Investment Banking do Citi Brasil, Eduardo Miras. “Lá fora, não há essa restrição, pode ser 5%, 10%.”

No caso da XP, um dos motivos que levaram a instituição a abrir o capital na Nasdaq envolve a diluição da participação dos controladores. Como aqui só há uma classe de ação, os sócios perderiam o controle da empresa. Nos Estados Unidos, há duas classes (A e B) e isso não ocorre, diz Miras.

A opção de manter ações com superpoderes (voto plural) é um dos fatores importantes para se abrir o capital lá fora, explica Fabio Nazari, chefe de mercado de capital de renda variável do BTG Pactual. “As ações com superpoderes garantem aos fundadores de uma companhia os direitos políticos sobre uma empresa, mesmo com a diluição de capital”, diz.

Regulação

A B3, bolsa paulista, não está alheia a esse movimento. Para Flavia Mouta, diretora de emissores da B3, um dos pontos principais das ofertas no exterior é a maior valorização que essas companhias conseguem nos Estados Unidos do que aqui no Brasil. “Isso a gente tem menos controle porque é uma questão de conjuntura do mercado e porque essas empresas são de tecnologia.”

Mudanças regulatórias aqui no Brasil podem ajudar as empresas a considerar a fazer listagem na Bolsa paulista. Deste fevereiro deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) permite que as empresas brasileiras façam o registro de pedido de companhia em sigilo, o que só era permitido nos EUA. Também foi colocada em audiência pública a discussão do voto plural (ações com superpoderes). Para Flavia, essas discussões podem ajudar na escolha de empresas brasileiras antes de ir para fora.

“A B3 não quer perder as listagens e está considerando alterações nas regras”, diz Eduardo Mendez, chefe de mercado de capitais e renda variável para América Latina do Morgan Stanley. Ele afirma que há empresas no pipeline para abertura de capital no exterior, mas são histórias específicas. “Mas também trabalhamos com muitas listagens aqui no Brasil (ver matéria abaixo)”, diz Mendez.

Para ele, o lançamento de ações no exterior não é simples nem barato. O ambiente regulatório americano é bastante oneroso, tem um dinâmica de auditoria e de comunicação em inglês e compromissos assumidos que são caros. “O sucesso das últimas listagens vai trazer muitas empresas com objetivo de abrir o capital em Nova York, mas quando elas identificarem esses custos vão preferir lançar aqui."

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