ED FERREIRA|ESTADÃO-24|8|2007
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Oferta de milho cresce e setor de suínos e aves deve ter ano mais favorável

Após preços recordes do cereal em 2016, perspectiva é de que cotação do principal insumo do setor de carnes recue em 2017

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2016 | 19h01

A safra recorde de milho projetada para esta temporada será um presente de ano-novo à agroindústria de aves e suínos, que em 2016 enfrentou muitas dificuldades por causa da oferta restrita do insumo. Devido ao clima adverso, o Brasil colheu 18 milhões de toneladas a menos na safra 2015/16 e os preços internos do cereal dispararam.

As cotações recordes comprimiram as margens da indústria, reduziram a produção de aves e suínos e limitaram investimentos. A situação começou a melhorar no segundo semestre, quando a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) passou a ofertar milho dos estoques e a indústria conseguiu importar do Mercosul. Além disso, por causa dos preços remuneradores – que superavam os do mercado internacional – tradings ofertaram internamente lotes que seriam exportados. Em 2017, o abastecimento tende a ser mais tranquilo. A expectativa é de maior produção na primeira safra (verão) do milho, pois a lavoura cresceu, e também na segunda safra (safrinha), que deve contar com clima mais favorável às lavouras.

Analistas e representantes do setor são unânimes em afirmar que o milho, principal insumo da avicultura e da suinocultura, foi o grande vilão do segmento em 2016. "Esse ano aconteceu um verdadeiro 'tsunami' para nós a partir de fevereiro. Não imaginávamos que o preço do milho pudesse chegar a R$ 60/saca", disse o presidente executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, que representa o segmento de aves e suínos.

Com a alta da cotação do grão, o custo de produção da atividade, medido pelo índice ICPFrango/Embrapa, atingiu seu pico em junho, com 242,32 pontos, quase 40% a mais em relação a igual mês de 2015. Desde então, o valor vem cedendo, fechando em novembro com 210,82 pontos. A mesma movimentação foi registrada para o custo de produção de suínos (ICPSuíno/Embrapa), com o pico em junho e quedas desde então. Ambos os custos, no entanto, ainda estão acima dos verificados no segundo semestre de 2015. Em novembro do ano passado, o custo do frango, por exemplo estava em 203,27 pontos (-3,71%).

Os preços do milho começaram a ceder no segundo semestre de 2016, com o quadro mais favorável de abastecimento, garantido pelas importações, leilões de estoques públicos e oferta das tradings. A partir de agora, a pressão sobre as cotações aumenta. A colheita da nova safra começa em janeiro e até agora a perspectiva é de aumento de produtividade. Segundo a consultoria AgRural, em seu primeiro levantamento sobre a safra 2016/17, a área da safrinha deve crescer 5% e atingir o recorde de 11,1 milhões de hectares. Na soma das duas colheitas (verão e safrinha), o Brasil pode produzir 88,3 milhões de toneladas, aumento de 33% em relação à temporada 2015/2016.

Com base nessas estimativas, a agroindústria trabalha com um cenário mais favorável. O diretor executivo da Frimesa, cooperativa paranaense de carne suína e derivados de leite, Elias José Zydek, avaliou, em entrevista ao Broadcast Agro – serviço de notícias do agronegócio em tempo real da Agência Estado – que a saca de 60 quilos do milho estará cotada no norte do Paraná a R$ 28 no segundo trimestre de 2017, R$ 20/saca abaixo dos R$ 48 registrados em junho de 2016.

Para o CEO do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), Ariovaldo Zani, a maior oferta de milho fará com que o consumo de ração à base do cereal também cresça, impulsionado pela queda de preços. A entidade prevê vendas 3,3% maiores, para um volume recorde de 69 milhões de toneladas, ante uma previsão de 66,8 milhões de toneladas para 2016.

Segundo Zani, os preços domésticos do grão no primeiro trimestre de 2017 devem ficar abaixo dos observados no mesmo período deste ano. Em 2016, a produção de ração para a avicultura de corte, que somou 24,6 milhões de toneladas até setembro (+1,5% ante mesmo período de 2015), pode terminar o ano com queda de 2%. O setor de ração para suínos, que começou o ano crescendo 7%, deve fechar o ano com crescimento de 3% a 3,5%, segundo Zani. O que impulsionou o setor de suínos este ano foram as exportações, que devem terminar o ano com 720 mil toneladas embarcadas, alta de 30% na comparação com o registrado no ano passado (555 mil toneladas).

O diretor-geral de Brasil da BRF, Rafael Ivanisk, observa, porém, que a melhora das margens das empresas pode demorar um pouco para ser observada. "Devemos ter uma curva mais suave no primeiro trimestre e custos mais equalizados a partir do terceiro trimestre", afirmou. Ao longo do ano, por causa da alta do milho, a BRF elevou os preços ao consumidor. A Seara, da JBS, também enfrentou as mesmas adversidades, refletidas na queda da margem Ebitda da unidade de negócio que ficou em 7,3% no terceiro trimestre de 2016, ante margem de 20,7% em igual período do ano anterior.

A Cooperativa Central Aurora Alimentos, com sede em Chapecó (SC), consome 90 mil sacas de milho por dia, o que equivale a 180 carretas/dia ou 120 mil toneladas por mês, e reduziu a produção ao longo do ano. Em novembro, a empresa anunciou o investimento de R$ 21,5 milhões para ampliar sua capacidade de armazenamento de grãos, para tentar se proteger das oscilações do mercado.

Por causa do ano mais difícil, a produção brasileira de frango deverá encerrar 2016 em queda de 1,8%, com 12,9 milhões de toneladas, segundo ABPA, frustrando as projeções iniciais de alta. As exportações devem atingir um total de 4,39 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 2% na comparação com o volume exportado em 2015 (4,30 milhões), mas abaixo da expectativa da entidade divulgada em julho, que previa um avanço de 8% no volume dos embarques, para 4,6 milhões de toneladas.

Já para 2017, a ABPA projeta um avanço do volume exportado e da produção de 3% a 5%. No caso das vendas externas, além da abertura de novos mercados, os novos surtos de influenza aviária em importantes regiões produtoras, além da queda da oferta chinesa, devem impulsionar os embarques brasileiros.

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