Oferta dos EUA gera guerra em Doha e cancela reunião de 4ª

Reunião se transforma em palco de acusações e obriga reformulação de todo o processo das discussões

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

22 de julho de 2008 | 18h45

Com exigências sobre os mercados emergentes e sem nenhum efeito prático para reduzir as distorções no comércio agrícola, o governo americano apresenta uma oferta de corte de subsídios como forma de tentar salvar a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas, ao invés de injetar otimismo no processo, destravou uma verdadeira guerra na reunião desta terça-feira, 22, de mais de sete horas, abriu uma crise na entidade e obrigou uma reformulação de todo o processo da semana crucial para a entidade.  Veja também:Movimentos sociais ameaçam protestos contra acordo na OMCCorte de subsídios dos EUA é pouco ambicioso, diz Amorim Rodada Doha: entenda o que está em jogo em GenebraProposta de corte dos EUA não surpreende, diz especialistaEUA oferecem cortar subsídio agrícola para US$ 15 bilhões A Casa Branca afirma que aceitaria um teto de US$ 15 bilhões por ano na distribuição de recursos a seus fazendeiros, com a condição de que as tarifas de importação nos países emergentes fossem retiradas para bens industriais. Mas Washington foi atacado pelo Brasil e outros países emergentes, que acusam os americanos de estarem "reciclando" uma oferta antiga e de manipular o impacto que terá nos próximos anos. A reunião desta terça em Genebra para tratar da oferta se transformou em um palco de acusações e colocou o processo em risco. O encontro acabou em um caos e a solução foi a de cancelar as reuniões desta quarta-feira. O diretor da OMC, Pascal Lamy, alertou que as negociações poderiam durar 15 dias. Os países optaram por fazer consultas bilaterais para tentar solucionar a crise. Para quinta-feira, a conferência sobre serviços também foi adiada, em uma demonstração de que os problemas são sérios. Por enquanto, o Itamaraty não decretou o fracasso do processo e espera que os americanos podem fazer novas concessões nos próximos dias. Antes do encontro, o chanceler Celso Amorim tentava manter um certo otimismo. "Estamos decepcionados com a oferta. Mas é um começo", afirmou Amorim.  Ao final, o clima era bem diferente. "Estamos nos movendo em câmera lenta. É melhor que uma paralisia. Mas a proposta americana ainda não foi suficiente para iniciar negociações sérias. Continuamos em desacordo", afirmou Amorim ao final. O chanceler, porém, garante que o Brasil não fez qualquer concessão, como pediu a Casa Branca. "É uma oferta decepcionante", afirmou Jorge Taiana, ministro das Relações Exteriores da Argentina, país que está pressionado a fazer concessões no setor industrial. "As pessoas riram ao ouvir a proposta", afirmou o embaixador da Índia, Vjal Singh Bhatia. Quem gostou foi o senador Tom Harkin, presidente da comissão de agricultura do Senado americano. "A proposta representa cortes reais e espero que outros países agora façam sua parte", disse. Harkin é de senador por Iowa, Estado conhecido por sua produção de milho e bilionários subsídios. O que mais preocupa o setor privado brasileiro, porém, é o fato de que a Casa Branca não deu qualquer indicação de quanto será o limite de subsídios para cada produto agrícola. O Brasil teme que um volume grande de subsídios seja jogado para poucos produtos, como milho, soja, algodão, açúcar e trigo.  "Sem um limite por produtos, não há como ter um acordo", afirmou Andre Nassar, do Icone. Para o Ministério da Agricultura, a falta de um limite para produtos específicos pode anular qualquer ganho no processo.

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