Oferta geral de crédito cresce, mas com cautela

Maioria dos bancos privilegia operações mais seguras, como o crédito consignado

Fernando Nakagawa e Fabio Graner, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2009 | 00h00

A recuperação da economia e as taxas de juros cada vez mais baixas reabriram as portas dos bancos para pessoas e empresas tomarem crédito. Mas esse renascimento, que tende a ganhar corpo nos próximos meses e o ritmo mais intenso em 2010, ainda não é generalizado.Ainda com atitude cautelosa diante da crise, a maioria dos bancos privilegia operações mais seguras, como o crédito consignado, cuja média diária de novas operações em junho foi 62% maior que o visto antes da crise, em agosto de 2008. O financiamento para veículos saltou 34,2%. Na média geral de todos os empréstimos para famílias e empresas, o crescimento em igual base de comparação foi de apenas 3,2%. Medidas como o maior comprometimento das aposentadorias para o consignado e a desoneração do setor automotivo aceleraram a reação do crédito.Para o trabalhador formal, os bons tempos de crédito estão de volta. Dados do Banco Central mostram que a média diária de concessão do crédito consignado atingiu R$ 285 milhões em junho, R$ 109 milhões a mais que em agosto de 2008. Isso quer dizer que quase R$ 200 mil foram emprestados a cada minuto de junho a trabalhadores e pensionistas. A rápida reação do consignado é explicada pela forma de pagamento dessa dívida, em que as parcelas são pagas mensalmente quando há o recebimento do salário ou aposentadoria, o que reduz a praticamente zero a chance de calote. Pesou também a iniciativa do governo de aumentar a margem de comprometimento dos aposentados para tomar crédito. Até março, eles podiam usar até 20% do benefício para pagar as parcelas. Agora, até 30%. "Esse aumento foi um grande diferencial e fez muitos bancos retomarem o interesse pela operação", diz o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito (Acrefi), Adalberto Savioli. Situação semelhante ocorre na compra de veículos, cuja média diária de novos financiamentos saltou 34,2% em junho ante agosto de 2008. A segurança para o banco é dada pelo próprio carro, que pode ser retomado em caso de inadimplência. "O crédito já está mais forte nas linhas para pessoas físicas e dentro dos empréstimos considerados mais seguros. Mas não é possível ignorar que temos um cenário diferente. Houve mudança estrutural com a crise, e os bancos mudaram seus critérios de avaliação", afirma o economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg. Após a maior crise financeira em décadas, diz ele, é natural que a reação dos empréstimos ocorra primeiro nas modalidades mais seguras. Sardenberg diz ainda que até os mais otimistas preveem que o maior conservadorismo fará o ritmo dos financiamentos não voltar mais ao que se via no início de 2008. "Ninguém mais fala de voltar a crescer 30% ou 35%. Agora, os bancos projetam crescimento menor, entre 10% e 15%." Para Bráulio Borges, da LCA Consultores, a retomada do crédito vai ocorrer, mas por causa da base mais alta em que essa expansão se dá. Segundo ele, nos últimos anos o volume de financiamento subiu muito, batendo a marca de 40% do PIB e seu ritmo tende a ser mais moderado. De qualquer forma, avalia que o sinal mais claro da retomada se dá pela volta no alargamento de prazos, que ele enxerga como a variável mais relevante de decisão para o consumidor. "As pessoas no Brasil não olham muito os juros, mas se a prestação cabe no bolso", diz.

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