Oferta tímida para Alca é estratégia, diz especialista

A reclamação feita em Tóquio pelo Representante Comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, de que a proposta do Mercosul para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ainda é modesta, em nada difere da posição brasileira sobre a oferta de Washington. Ao tomar conhecimento da proposta norte-americana de liberalização de bens industriais e agrícolas para o bloco, Brasília também classificou a proposta de "limitada". "Em termos de universo tarifário, as duas partes oferecem pouco. Mas esse é apenas o início do jogo", diz Amâncio Jorge de Oliveira, pesquisador do Núcleo de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri-USP).Na estratégia de relações internacionais, Estados Unidos e Mercosul começaram o "jogo de barganha". Nessa fase, as ofertas são tímidas. Durante as negociações, que começam a partir de 15 de julho, prazo final para a revisão das ofertas iniciais, cada parte vai seguindo conforme as concessões do outro. "É um processo absolutamente normal", diz o analista.Oliveira ressalta que, a se julgar pelas ofertas iniciais, a Alca nem poderia ser classificada como área de livre comércio. Pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), a zona de livre comércio só existe quando 85% do comércio são incluídos no acordo. O Mercosul ofereceu aos parceiros do bloco a liberalização de apenas 34% dos bens industriais e 36% dos agrícolas. Os EUA, na quarta-feira passada, propuseram a liberalização de 65% dos bens industriais e 56% dos agrícolas. "É sempre assim na área comercial. Primeiro se oferece o mínimo e se demanda o máximo, para depois negociar aos poucos."Ofertas diferentes Na verdade, o maior incômodo até agora é o fato de os Estados Unidos terem feito ofertas diferentes de liberalização para Caribe, América Central, Pacto Andino e Mercosul. Para o bloco do Cone Sul, as ofertas foram as piores. "A metodologia de negociação ficou mal definida e os EUA aproveitaram as brechas para bilateralizar as negociações, enfraquecendo a posição negociadora do Mercosul", critica Oliveira. Para ele, é impossível querer que o bloco seja negociado de formas diferentes.Outra preocupação, segundo o analista, é que a modéstia das ofertas de ambas as partes provoque a perda de interesse nas negociações. "Não podemos pensar que a Alca não vai andar. Ao contrário. É preciso aumentar o nível de alerta para não corrermos o risco de perder na negociação", defende Oliveira.

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