Oito anos sobre o 'touro mecânico'

Oito anos sobre o 'touro mecânico'

Ministro da Fazenda Guido Mantega prepara 'dossiê' com mais de 100 páginas para demonstrar como segurou a economia do País durante a crise

VERA ROSA, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2014 | 02h04

BRASÍLIA - Eram quase 11 horas de quarta-feira quando cerca de 300 auditores da Receita Federal faziam uma manifestação por melhores salários diante do Ministério da Fazenda. De óculos escuros, Guido Mantega chegou, entrou por uma porta que geralmente fica fechada e nem sequer foi notado. A poucos dias de deixar o governo e passar o comando da economia para Joaquim Levy, Mantega vive tempos de transição solitária na Esplanada, mas parece conformado com o destino, que foi da bonança à tempestade, do aplauso ao calvário.

''Ser ministro da Fazenda é como cavalgar um touro mecânico. Você pode ser derrubado facilmente, a qualquer momento. Toda hora tem gente querendo derrubá-lo", disse ele ao Estado

Desde que recebeu aviso prévio, aos 65 anos, Mantega começou a encaixotar suas memórias. Antes de desencarnar do poder, no entanto, decidiu usar a escrita como escudo para defender sua gestão. Obstinado, ele prepara um livro para mostrar como o Brasil enfrentou a crise mundial de 2008 sem cortar empregos, além de um "dossiê" de realizações, com mais de 100 páginas e gráficos coloridos. 

Lá estão, ano a ano, conquistas obtidas na seara econômica desde que Mantega assumiu a Fazenda, em 27 de março de 2006. Os índices revelam expansão do emprego, renda, investimento direto e até do crescimento, que chegou a 7,5% em 2010 e hoje beira a zero. 

O consultor Antoninho Marmo Trevisan, amigo de Mantega, chegou a lhe perguntar por que ele não saiu do ministério após o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, ou mesmo no fim de 2011, já no governo da presidente Dilma Rousseff, quando os indicadores ainda iam de vento em popa. 

"Sabe que eu também me pergunto isso?", respondeu Mantega. "Olha, depois de tanto tempo aguentando essa pancadaria em Brasília, você só pode ir para o céu", provocou Trevisan. 

Caratê. Nascido em Gênova e prestes a completar oito anos e nove meses no cargo, o mais longevo ministro da Fazenda no período democrático não tem o "sangue quente" dos italianos e parou de tomar café para evitar adrenalina e dor no estômago. 

Bem humorado, mesmo quando comete gafes, o homem que admitiu defeitos em sua "bola de cristal" ao errar previsões sobre crescimento é dono de uma paciência tão elástica que amigos chegaram a compará-lo a um samurai. "Treinei caratê por muito tempo, na juventude, mas esses ensinamentos me servem até hoje", contou Mantega ao Estado. "Adquirindo autocontrole, você tem força para vencer o adversário."

Mesmo se os golpes não fossem tantos, o ministro que se despede da Esplanada planejava ficar em Brasília somente até 2011 para fazer novos ajustes. Seu sonho era melhorar a renda da população que, embora crescendo, ainda estava a "anos-luz de distância" do que gostaria. 

Depois veio a crise e ele achou que seria desleal de sua parte deixar Dilma numa situação difícil, embora enfrentasse em casa um drama pessoal: a descoberta de um tumor em sua mulher, a psicanalista Eliane Berger. E assim foi ficando até que, na esteira de sucessivas turbulências no cenário internacional, a política fiscal desabou. 

Nem mesmo a contabilidade criativa deu jeito ao inferno astral que se seguiu e, para evitar fiasco maior, o governo foi obrigado a acabar com a meta de superávit para 2014. 

O anúncio de uma guinada nos rumos da economia, com Joaquim Levy na Fazenda, caiu como um raio sobre Mantega, mas ele não acusou o cruzado de direita. Pelo menos não da mesma forma que o soco levado em setembro, quando Dilma - pressionada pelo escândalo de corrupção na Petrobrás e pela estagnação econômica - ofereceu sua cabeça ao mercado ao falar em "governo novo, equipe nova". 

Foi um choque. Poucos sabem, mas Mantega já havia acertado com ela, bem antes, que não ficaria na equipe a partir de 2015, em caso de reeleição. Diante do mal-estar criado pela presidente, Lula e até o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, vira e mexe crítico de Mantega, entraram em cena para impedi-lo de entregar ali, no auge da campanha contra o PSDB, sua carta de demissão. 

Com a confirmação de Levy como seu sucessor, em 27 de novembro, Mantega mais uma vez se aprontou para sair, mas Dilma o segurou. "Você fica até o fim do ano comigo, Guidinho", exigiu ela. A mais de um interlocutor, Dilma confidenciou que não gostaria de ter magoado um de seus mais fiéis auxiliares. 

'Deixem ele agir'. Em conversa com amigos, na semana passada, o ministro do PT foi evasivo ao ser questionado sobre a volta triunfal do ortodoxo Levy, secretário do Tesouro quando Antonio Palocci ocupou a Fazenda, de 2003 a 2006. 

"Deixem ele agir. Eu não sei como Levy está hoje e não gosto de rotular as pessoas. Do jeito que vocês falam, parece que só os ortodoxos querem fazer bom resultado fiscal. Na minha gestão, fiz muito mais resultado fiscal positivo do que nos oito anos do governo Fernando Henrique", argumentou Mantega, deixando os interlocutores intrigados ao dizer que, apesar das divergências, considera o ex-presidente "um grande estadista". 

"O Guido não guarda mágoa nem rancor de ninguém. Ele até retruca, discorda, briga, mas depois esquece", contou o ex-ministro da Previdência Nelson Machado, que foi secretário executivo de Mantega na Fazenda, no governo Lula, e é seu amigo desde os anos 80. Detalhe: Fernando Henrique participou da banca que aprovou com nota 10 a tese de doutorado de Mantega em Ciências Sociais, na USP, sob o título "Raízes e Formação da Economia Política Brasileira (a fase estagnacionista)". 

Disciplinado, o titular da Fazenda demissionário produziu para a equipe de Levy um pacote de medidas para conter os gastos públicos, intitulado "Programa de Consolidação Fiscal e Retomada do Crescimento Econômico". 

Na lista estão sugestões em estudo desde 2013, que não saíram do papel por pressão de empresários, como a volta da Cide - contribuição que regula o preço dos combustíveis -, a cobrança do PIS-Cofins sobre importados e o aumento de impostos para cosméticos e bebidas. Após várias conversas com Dilma, Mantega também propôs maior controle no pagamento de seguro-desemprego, pensão por morte, abono salarial e auxílio doença. 

Trombadas. Quando era ministro do Planejamento e, depois, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no primeiro mandato de Lula, Mantega trombou várias vezes com Levy, conhecido por cortar despesas a qualquer custo, prática que lhe rendeu o apelido de "mãos de tesoura". 

Uma das colisões ocorreu na definição da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), usada pelo BNDES. Mantega queria mantê-la baixa para estimular investimentos. Levy, na outra ponta, pregava que a TJLP deveria subir na velocidade da taxa básica de juros, a Selic. Àquela época, Mantega venceu. Na atual batalha, foi derrotado. 

Muitos foram, nessa temporada, os rivais no caminho do ministro da Fazenda. Supersticioso ele não é, mas alguns subordinados o definem como sensitivo. Em 2006, por exemplo, ao substituir o também petista Palocci - abatido após o escândalo da quebra de sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa, revelado pelo Estado -, Mantega contou que ainda sentia uma "energia estranha" no gabinete. 

Agora, apesar de todos os percalços, com inflação em alta, contas no vermelho, juros na estratosfera e "pibinho", o ministro alega que seu maior orgulho foi ter contribuído para a redução da taxa de desemprego, de 11,7% para os atuais 5%. Além disso, destaca a criação do Banco do Brics - bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - e o protagonismo no G-20, o grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo. 

"Mantega cumpriu papel importante no governo Lula e no primeiro mandato da Dilma, mas, como ocorre até na iniciativa privada, quem fica muito tempo no cargo entra num processo de exaustão e acaba punido", afirmou o senador Delcídio Amaral (PT-MS). "É uma saída melancólica", emendou o cientista político Leôncio Martins Rodrigues. 

Adepto dos exercícios, Mantega queima calorias todo dia bem cedo no aparelho aeróbico Transport, com os olhos grudados na televisão. Mesmo em aviso prévio, ainda fica circunspecto sempre que aparece uma notícia negativa na economia e acelera o ritmo das pedaladas. Desta vez, porém, elas não são fiscais. 

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