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Olhando para o futuro

Bolsonaro é um sucessor ainda mais improvável em relação aos presidentes anteriores; sua principal qualificação parece ser a insatisfação com o PT

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2019 | 05h00

Em 1905, o filósofo espanhol George Santanya nos forneceu uma máxima: “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro insistem em repetir o passado acreditando que esse é o caminho para um futuro melhor.

Governar um país vai bem mais além da experiência pessoal. No caso de Trump, comprar cassinos e forçar credores a assumir a maior parte do prejuízo e promover sua riqueza pessoal imobiliária constituíram uma base tênue e muito imprevisível para a eleição em 2016. Em seu discurso de posse, a ênfase foi na destruição do passado, especialmente o ligado ao seu predecessor, Barack Obama, e em tornar a América “grande novamente”.

De maneira similar, Bolsonaro é um sucessor ainda mais improvável em relação aos presidentes anteriores. Sua principal qualificação parece ser a insatisfação com Dilma Rousseff e de modo mais geral com o PT, que estaria levando o País ao comunismo. Suas primeiras nomeações encorajadoras, de Sérgio Moro para a pasta da Justiça, e Paulo Guedes, foram feitas com vistas a cuidarem dos problemas legais e econômicos do País, ao passo que ele, pessoalmente, se comprometia a pôr fim a uma sociedade desgarrada que não mais observava os valores cristãos. Bolsonaro também ansiava por retornar a um passado militar.

Não surpreende, portanto, o fato de os dois presidentes terem colocado líderes militares em seus gabinetes. E ambos têm famílias que se tornaram muito mais influentes do que os próprios assessores. 

O que os dois governos têm conseguido?

O maior ganho parece ser a capacidade de se queixarem de uma imprensa falaciosa, sempre pronta para criticar e tornar públicas todas as informações sobre o que vem ocorrendo dentro das suas administrações. 

Trump tem se negado a participar de coletivas de imprensa, preferindo o Twitter. Bolsonaro, aparentemente, decidiu restringir as informações ao Diário Oficial e usa o Facebook e o Twitter para justificar suas ações.

Um segundo ponto em comum é a crença na extensão do direito público às armas.

Nos Estados Unidos este é um reflexo da Associação Nacional do Rifle na interpretação da 2.ª Emenda Constitucional; armas de guerra estão à venda com base em averiguações de antecedentes limitadas. Ocorreu uma série de massacres no país. Reduzir a liderança global dos EUA é fundamental.

No Brasil, estender o direito às armas é defendido pelo governo em resposta à violência urbana, uma das principais preocupações dos eleitores. O Congresso até agora restringiu esse acesso.

Uma terceira área em que há semelhança entre os dois governos é o compromisso forte com uma expansão nacional, e não internacional. A insistência impraticável de Trump em acordos para assegurar um equilíbrio comercial positivo com todos os países coincide com a incapacidade do governo de planejar uma presença militar mais atenuada no exterior.

O Brasil não resolveu ainda a questão da sua dependência dos subsídios para as montadoras e regras especiais para o comércio com a Argentina. Alguns afirmam que a conclusão das longas negociações do tratado do Mercosul com a União Europeia (UE) reflete uma medida importante na direção de tarifas menores e uma maior diversificação. Mas isso dependerá de uma ratificação, e Emmanuel Macron, após disputa pessoal com Bolsonaro, poderá defender uma rejeição do tratado pela UE.

Por fim, há um quarto assunto em comum: mudança climática. Nos EUA, Trump encara o problema com total desdém. O Brasil não está agindo melhor. Assegurar a capacidade da Amazônia de conter as emissões de CO2 é uma necessidade internacional. Mas os incêndios na região ampliam as terras para a agricultura e a produção ilegal de madeira.

Bolsonaro não estava muito preocupado. Acusou as ONGs, mas agora vem analisando a implementação de uma política pública mais ativa. O ministro do Exterior Ernesto Araújo afirmou que “não há nenhuma catástrofe climática”.

Infelizmente, mencionei muito mais o passado do que o futuro. Concluo este artigo, portanto, me perguntando o que Bolsonaro, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, esta semana, e depois Trump, terão a dizer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE

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