Olhar para o futuro, não para o retrovisor

Produtividade é a bola da vez. E faz tempo. Com a produtividade praticamente estagnada desde os anos 80, o governo brasileiro lançou a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (2004), centrada na inovação, além da Política de Desenvolvimento Produtivo (2008-9), o Brasil Maior (2011) e o Plano Inova Empresa (2013). Isso porque há consenso de que inovação tecnológica e educação no longo prazo são os principais emuladores da produtividade.

JOÃO DE NEGRI, , GLAUCO ARBIX , E FERNANDA DE NEGRI, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2014 | 02h03

Alguns analistas, entretanto, entram tarde nesse debate, com propostas incapazes de equacionar as particularidades da produção científica e tecnológica. A ideia de que uma ampla liberalização e abertura da economia produziriam convergência tecnológica entre nações é antiga e equivocada. Nenhum país conseguiu se aproximar da fronteira tecnológica sem estreita cooperação entre o setor público e o privado. A existência de um ambiente competitivo é fundamental para a inovação, uma vez que protecionismo e isolamento não tiram a economia e as empresas de sua zona de conforto. A presença do Estado é essencial, pois a incerteza e o risco desses investimentos precisam ser compartilhados e mitigados para estimular o envolvimento das empresas. A dinâmica, o ritmo e o tempo da produção de CT&I nem sempre são previsíveis. Por isso o Estado é ator de peso no mundo todo.

As conclusões do Seminário "Infraestrutura, Inovação e Produtividade", realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo e a Finep no último dia 4, enriqueceram o debate sobre a agenda da inovação no Brasil. Ficou claro que os ganhos de produtividade são fundamentais para o crescimento econômico com inclusão social.

Nos últimos anos o Brasil fortaleceu suas instituições, reduziu a pobreza e a desigualdade social e gerou milhões de empregos - avanços que ajudaram a detectar constrangimentos estruturais, dos quais a baixa produtividade é apenas a síntese. Temos de melhorar a qualidade e o foco da educação; avançar na infraestrutura; criar um ambiente regulatório e institucional mais favorável aos negócios; aumentar a produção de conhecimento, tecnologia e inovação. O debate é sério e precisamos evitar a contaminação eleitoral. Os passos dos últimos 11 anos, ainda que insuficientes, foram mais velozes e de maior qualidade que em outras épocas.

O Plano Inova Empresa elevou o patamar das políticas públicas ao fixar como alvo o aumento da produtividade por meio da inovação tecnológica. A experiência internacional evidencia, entretanto, que é preciso avançar mais. Os EUA destinam mais de US$ 130 bilhões por ano para Ciência e Tecnologia. Cerca de US$ 30 bilhões vão para os 27 Institutos Nacionais de Pesquisa em Saúde e de US$ 12 bilhões para 17 Laboratórios Nacionais de Energia, mobilizando mais de 6 mil pesquisadores. Nesse ambiente, altamente subsidiado, pesquisas de ponta geram novas drogas, equipamentos e tratamentos produzidos por empresas privadas associadas aos Institutos.

A Comunidade Europeia, na mesma direção, apoia um programa de cerca de 40 Plataformas Tecnológicas, que cobrem da pesquisa básica aos produtos e processos de interesse da indústria. Todos os países na fronteira da inovação servem-se de recursos públicos subsidiados para estimular a ciência e a tecnologia. No Brasil, precisamos fazer mais CT&I, melhor e mais rápido. Podemos agrupar universidades, instituições de pesquisa e empresas em torno de centros de última geração, capazes de entregar à sociedade brasileira produtos e processos de alto impacto social. Vacinas, medicamentos, sementes resistentes ao clima e sistemas de laser para agricultura são exemplos que podem salvar vidas e estimular a nossa economia.

Apesar das dificuldades, o País tem rumo quando o assunto é CT&I. Temos de aperfeiçoar todo o sistema nacional, a começar pelo fortalecimento do CNPq, da Capes e da Finep. Temos de aumentar o volume de investimento e a escala de geração de CT&I, aprofundando a parceria público-privada. Sem ousadia, dificilmente o Brasil conseguirá alçar voos mais altos e elevar sua produtividade e competitividade.

SÃO, RESPECTIVAMENTE, SECRETÁRIO EXECUTIVO DO MCTI, PRESIDENTE DA FINEP E DIRETORA DE INOVAÇÃO DO IPEA

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