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Olhar para o longo prazo

A sociedade olha o curto prazo, algo compreensível em um país com baixo capital humano

Zeina Latif*, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2019 | 04h00

Este primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro tem peculiaridades quando comparado ao de presidentes anteriores. Por um lado, ele herdou um quadro macroeconômico mais estável, por outro, há uma sociedade que deseja mais crescimento econômico, sem saber que reformas serão necessárias para isso. A experiência mostra que nem sempre presidentes reformistas são valorizados pela sociedade.

Bolsonaro herdou de Michel Temer um quadro macroeconômico estável, com inflação baixa e sem artificialismos como tarifas públicas defasadas ou taxa de câmbio sobrevalorizada. Afasta-se, assim, a necessidade de guinadas na política econômica. Além disso, com Temer, o debate sobre políticas públicas evoluiu. Os que defendiam não ser necessária a reforma da Previdência ou mudaram de ideia ou já não têm a mesma influência sobre a classe política. Isso facilita o trabalho do time econômico, que não precisará pregar no deserto. Um cenário em que reforma alguma da Previdência é aprovada é improvável.

Mas tudo tem o outro lado, no caso, os anseios da sociedade, que estão focados no curto prazo e mudam ao longo do tempo. Com inflação baixa, agora a sociedade espera aceleração do crescimento e queda do desemprego. A sociedade, porém, não compreende que a inflação baixa depende da aprovação da reforma da Previdência. Só se enxerga o fardo, e não o benefício. A sociedade não aceita retrocessos no ambiente econômico e, pelo contrário, espera avanços. E a volta do crescimento também dependerá de mais reformas.

O descompasso entre a percepção da sociedade e a política econômica costuma dar dor de cabeça aos governantes.

FHC assumiu o governo em 1995 sob os holofotes do Plano Real. Apesar do árduo caminho para sua consolidação, pela fragilidade das contas externas e das finanças públicas, além do difícil ajuste dos bancos à inflação baixa, o sentimento da sociedade era de alívio com a queda da inflação. No segundo mandato, FHC conduziu reformas essenciais para garantir a sustentação da inflação baixa e construir o alicerce para o crescimento. Para a sociedade, no entanto, o segundo mandato não foi bom, afinal, a inflação já estava baixa. A sociedade queria avanços, mais crescimento, que foi mais lento e com aumento do desemprego. Como resultado, FHC não conseguiu eleger seu sucessor, apesar das importantes reformas.

Depois da tumultuada campanha eleitoral que jogou a taxa de inflação para o pico de 17% em maio de 2003, Lula tinha diante de si o desafio de conquistar a confiança dos agentes econômicos, o que compreendeu rapidamente. Deu continuidade e consolidou a política econômica de FHC. Os frutos vieram rapidamente. A inflação fechou em 9% em 2003. O segundo mandato, porém, teve retrocessos. Foi marcado por estímulo excessivo e artificial à economia. O que começou como uma resposta à crise global se tornou estratégia para eleger Dilma. Para a sociedade, no entanto, o segundo mandato de Lula foi melhor do que o primeiro, pois o crescimento foi maior.

Dilma seguiu um caminho equivocado. Mas a sociedade só começou a desconfiar que havia algo errado em 2013.

Este primeiro ano de Bolsonaro poderá definir, em boa medida, o restante do mandato presidencial. Uma reforma da Previdência ambiciosa, nos moldes certamente pretendidos por Paulo Guedes, vai gerar mais reduções da taxa de juros estrutural e abrirá espaço para mais reformas na sequência, como a tributária.

O esforço agora poderá reduzir a popularidade do presidente no curto prazo, mas valerá a pena adiante. Com foco, Bolsonaro terá tempo de colher os frutos, o que não ocorreu com Temer.

A sociedade olha o curto prazo, algo compreensível em um país com baixo capital humano e com 60% da população vivendo com até um salário mínimo. O olhar do presidente, porém, precisa ser para o longo prazo, com a busca de reformas estruturantes, nem sempre compreendidas pela sociedade e correndo o risco de não ser reconhecido. O cenário alternativo, porém, é pior.

*ECONOMISTA-CHEFE DA XP INVESTIMENTOS

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