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Olhos de Calígula

O passado recente, com as mortes de Chávez e de Thatcher, tem reprovado, à esquerda e à direita, o dito latino de que não se deve falar mal dos mortos. Em artigo no jornal The Guardian, Glenn Greenwald enfatizou que ele certamente não deve ser aplicado a figuras públicas, pois não é razoável assegurar monopólio às louvações. Por outro lado, regozijos, à direita ou à esquerda, são lamentáveis.

Marcelo de Paiva Abreu *,

15 de abril de 2013 | 02h08

Em editorial, o Financial Times destacou Thatcher entre os primeiros-ministros britânicos em tempos de paz desde Gladstone. A avaliação preserva Winston Churchill e seu papel na guerra. Alguns diriam que Thatcher foi, de fato, primeira-ministra em tempos de guerra: a guerra das Falkland/Malvinas, embora curta, foi crucial na consagração de sua reputação de "dama de Ferro" e assegurou a vitória eleitoral em 1983, longe de assegurada.

O mesmo editorial ressalta como é difícil recordar, depois de três décadas, o lamentável estado da Grã-Bretanha em 1979, ano zero do thatcherismo. Depois de sete décadas, é mais difícil ainda, como bem demonstra por omissão o editorial, lembrar o que era o Reino Unido em 1945, devastado, endividado, passando o pires em Washington para adaptar-se aos tempos de paz, lambendo as feridas dos duros anos 1930.

Clement Attlee, o primeiro-ministro trabalhista de 1945 a 1951, tem merecido, em pesquisas realizadas em momentos menos emotivos, avaliações que o equiparam à baronesa. 1979 e 1945 foram duas datas decisivas no que se refere à reorientação do modelo econômico britânico. É preciso resistir a tentações anacrônicas: as esperanças trabalhistas quanto à superioridade da gestão estatal, que se revelaram infundadas, eram resposta ao desastroso desempenho econômico britânico no entreguerras. Além disso, o governo Attlee teve seus pontos altos na criação do National Health Service e na gestão da independência da Índia, especialmente se for levada em conta qualquer conjectura razoável sobre o que teria feito um governo Churchill, caso eleito em 1945.

Não há muito a criticar quanto à substância das reformas de Thatcher, embora haja amplo espaço para divergências quanto a intensidade e estilo. Fracassos retumbantes como a taxação por capitação (poll tax), ou mesmo moderados, como na privatização ferroviária, foram raros. A reversão do Welfare State foi possivelmente exagerada, abrindo espaço para que o trabalhismo de terceira via se apropriasse do "lado bom" do thatcherismo e obtivesse inédita sucessão de vitórias eleitorais a partir de 1997.

A contenção da inflação era objetivo essencial, embora o sucesso obtido ofusque lembranças penosas quanto à posição de extremistas como Keith Joseph e Alan Walters. A gestão pública de diversas indústrias beirava o calamitoso e abriu espaço para a privatização maciça com grande apoio popular: carvão, siderurgia, ferrovias, telecomunicações, entre outros setores. O poder político dos sindicatos em indústrias declinantes desde a Segunda Guerra e mesmo antes, especialmente carvão, transformou-os em alvo prioritário da política de enfrentamento gradual adotada pelo governo Thatcher e culminou na derrota na greve de 1984-1985. A sobrevivência do setor dependeria de aportes substanciais de recursos e o governo foi eficaz ao tornar isso evidente para o contribuinte.

O desempenho da economia britânica na era Thatcher foi muito bom, o melhor entre as grandes economias maduras, com a exceção da Itália (PIB per capita, Banco Mundial, método Atlas). De qualquer forma, a comparação relevante é com um contrafactual difícil de ser quantificado: o que teria sido o desempenho da economia britânica sob o velho trabalhismo. Muito provavelmente, lamentável.

O retrospecto político da baronesa é pior do que o econômico. Teve papel secundário, mas importante, no processo que levou ao fim da União Soviética. Mas grande dificuldade em digerir a reunificação alemã, a despeito da opinião de muitos de seus assessores. Seria sua a frase: "Derrotamos os alemães duas vezes e eles estão de volta". Na guerra das Falkland/Malvinas, mostrou bravura e, também, truculência irresponsável. François Mitterrand, o presidente francês, teria cedido a suas pressões para entregar códigos relativos aos foguetes Exocet, depois da ameaça de que Buenos Aires poderia ser alvo de ataque nuclear. Não é à toa que lhe atribuía olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe.

A guerra resultou também em cooperação militar intensa com o Chile: inimigos de meus inimigos são meus amigos. Mas não justificava o entusiasmo com o general Pinochet como quem "sem dúvida salvou o Chile e ajudou a salvar a América do Sul". Seu retrospecto quanto à África do Sul foi lamentável. Insistiu em que a Grã-Bretanha não aplicasse sanções ao regime do apartheid e avaliava que o Congresso Nacional Africano era composto de terroristas.

Thatcher teve o grande mérito de consolidar como quase consensuais novas posturas quanto ao escopo para ação do Estado. Boa parte de suas políticas seria copiada pelo New Labour, de Tony Blair, e pelo mundo afora. Infelizmente, a única herança de Thatcher que parece ter sido absorvida por Brasília tem a ver com a irascibilidade de Dilma Rousseff em reuniões ministeriais.

* Marcelo de Paiva Abreu é doutor em Economia pela Universidade de Cambridge e professor titular no departamento de Economia da PUC-Rio.
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