Olimpíada fase 3

O espírito do ‘vai dar tudo errado’ cedeu lugar ao ‘no final acaba dando certo’

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2016 | 05h00

Primeiro veio a euforia. A escolha do Brasil como sede da Olimpíada de 2016, em seguida à Copa de 2014, alimentou a ilusão de que o País havia obtido passaporte para o Primeiro Mundo. Logo depois da Copa, porém, veio a apreensão. Se não bastasse o 7 a 1, obras de infraestrutura inacabadas, arenas subutilizadas, dívidas acumuladas por clubes, empresas e governos e construtoras arrastadas pela Lava Jato escancararam a imagem de um Brasil incapaz de sustentar um evento desse porte.

Quando esse clima se disseminou, a pergunta era uma só: e se o Brasil tivesse dito não? A Noruega e a Suécia viraram ícones dos “contra” a Olimpíada, ao se recusarem a abrigar os Jogos de Inverno de 2022, com a justificativa de que o dinheiro público teria usos mais adequados. Nesses tempos difíceis, mesmo nos países mais ricos, aumenta a consciência de que os preparativos para megaeventos não rendem o que seria necessário. E o tal do legado olímpico, que inclui fortalecimento do aparato esportivo, melhora da infraestrutura e revitalização de áreas degradadas das cidades, pode ter um custo infinitamente maior do que uma intervenção mais focada nas necessidades locais.

Lucro mesmo quem tem são os grandes organizadores. Não é por outro motivo que, apesar de toda a crise financeira dos Jogos do Rio, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que terminará o ano com uma receita recorde superior a R$ 18 bilhões.

Com o Brasil atravessando uma “crise sem precedentes”, segundo o COI, o contingente de adeptos do “não” engrossou. Afinal de contas, foram problemas atrás de problemas: atraso das obras, epidemia de zika, contaminação das águas da baía de Guanabara, queda de ciclovia, culminando com a estreia da Vila Olímpica sem condições de ocupação e a polêmica da ameaça terrorista. Tudo isso sem contar os problemas tipicamente esportivos – como as denúncias que puseram a nu a “política pública” do doping adotada na Rússia e retiraram da competição toda a equipe de atletismo do país.

Agora, às vésperas do início do evento, sabe-se lá por que razões, a Olimpíada parece ter entrado numa terceira fase. O espírito do “vai dar tudo errado” cedeu lugar ao “no final tudo dá certo”. Mais ou menos como um post que circula nas redes sociais, comparando a Olimpíada àquela festa em que os convidados chegam antes do dono da casa estar pronto, mas que acaba com todo mundo caindo no samba. A esperança é que, como ocorreu na Copa, o astral do brasileiro compense a tensão dos preparativos. E que o sucesso da Olimpíada sirva para elevar a autoestima da população, tão castigada nos últimos tempos.

Mas voltando à pergunta inicial: e se o Brasil tivesse dito não? A turma dos “a favor” tem argumentos de sobra para mostrar que a lista de benefícios estaria mais inflada do que a de custos. As obras de mobilidade no Rio, como o VLT, o BRT Transolímpico e a ampliação do Metrô, mais a revitalização da área central e portuária certamente foram empurradas – senão determinadas – pela Olimpíada. E mudarão a face da cidade. Além disso, conforme mostra um estudo da Fundação Getúlio Vargas divulgado esta semana, a renda per capita do Rio cresceu 30,3% desde a escolha para a sede dos Jogos, de 2009 até agora – e, no caso da renda do trabalho, foi o maior aumento desde 2013, entre as 27 capitais brasileiras.

A prova decisiva, contudo, é a do dia seguinte. Como ficarão os empregos e a renda na ressaca pós-olímpica? Como funcionarão os novos equipamentos urbanos? Como serão honrados os compromissos financeiros? E como ficará o esporte no Brasil? Seria pedir muito, todos sabemos, mas que nas próximas festas o dono da casa se arrume bem antes e caia no samba sem culpas.

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