Omplalopsychoi, a fixação no umbigo

Omplalopsychoi, a fixação no umbigo

A agenda das eleições presidenciais deste ano no Brasil se encaminha para uma prática muito usual entre nossos políticos, cuja tradição pode ser traçada às práticas das igrejas orientais do culto bizantino no século quarto: o chamado hesicasmo, originalmente, a busca do isolamento para encontrar a verdade pela revelação. Não que nossa classe política seja particularmente asceta ou mesmo disposta à sobriedade. Mas exibe duas características típicas dos monges daquela tradição litúrgica: o distanciamento da realidade, como forma de encontrar a verdade, e o uso disciplinado de uma ira contida para evitar as tentações de olhar para o mundo exterior, como forma de proteger seu caminho e sua pregação.

Dionisio Dias Carneiro, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Ao escolher as agendas macroeconômicas das próximas eleições, governistas e oposicionistas se esforçam para enxergar e mostrar o Brasil apenas como beneficiário dos problemas que afligem e afligirão o mundo nos próximos anos. Protegido o País da instabilidade global, há incentivos para que cada candidato tente se mostrar mais apto a aproveitar as oportunidades para crescer, e não mais disposto a reduzir a vulnerabilidade da economia a uma piora do ambiente externo.

O relativo desembaraço com que a economia brasileira pôde se proteger das forças da recessão internacional aumenta a fragilidade da construção prometida pelos candidatos, a da via de maior crescimento pelo caminho fácil do estímulo ao gasto público e à expansão do crédito de origem estatal. O fato de a dívida pública não ter mostrado risco de explosão, como em tantos países, reforça a ideia de que, "desta vez, somos diferentes". A relutância dos analistas em recomendar cuidado com a velocidade com que a economia brasileira sobe a rampa da recuperação reforça, por sua vez, a sensação de unanimidade otimista que leva os governantes, presentes e pretendentes, a buscar formas de fazer mais do mesmo. A disposição dos mercados financeiros de apostar favoravelmente no Brasil em 2010 e transferir para um futuro longínquo qualquer risco de correção de exageros reforça a confiança nos diagnósticos de que podemos evoluir a taxas crescentes.

Esses quatro fatores, entretanto, são obviamente frágeis. O primeiro é autodestrutivo. O segundo é ilusório. O terceiro e o quarto são, geralmente, vulneráveis a más notícias, cuja ocorrência não costuma ser detectada com antecedência.

É preocupante que os candidatos se mostrem tão concentrados no passado e em manter os ouvidos no chão, escutando apenas as pesquisas de opinião. Churchill respondeu a Attlee que o povo inglês jamais respeitaria um líder se o pegasse em tal posição. A falta de liderança produz o pior do conservadorismo que conspira contra o desenvolvimento: a complacência e a falta de disputa em torno de ideias e programas.

A concentração no próprio umbigo precisa ser praticada com a disciplina dos ascetas. Segundo as meditações de Fra Mauro, que se dedicou à confecção de mapas-múndi sem deixar a proteção de seu claustro, essa técnica foi chamada jocosamente de Omplalopsychoi, ou técnica para observar o próprio umbigo. Uma diferença relevante entre os monges que buscavam a verdade, onde acreditavam localizar-se a alma, e os candidatos, que alimentam a crença na irrelevância do mundo exterior para definir as prioridades e promessas. É que os primeiros buscavam valores permanentes, enquanto os últimos estão à procura de discurso cativante, capaz de despertar a crença dos eleitores em cenários em que todos levam vantagem.

Os eleitores brasileiros, a julgar pelos primeiros passos da campanha presidencial, serão expostos a uma campanha deseducadora. E elegerão o candidato mais disposto a fazer mais do mesmo, num mundo que já não é mais o mesmo. Alguém precisará dizer que o futuro requer muito trabalho e juízo, pois os riscos de desestabilização estão crescentes.

ECONOMISTA. É DIRETOR DA GALANTO CONSULTORIA E DO IEPE/CDG

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