Onda de IPOs cria nova geração de bilionários no País

Dos R$ 52 bilhões arrecadados em aberturas de capital neste ano, R$ 23 bilhões foram para o bolso de acionistas

Mariana Barbosa e Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2007 | 00h00

O ano era 1988. O paranaense Helio Rotenberg, então com 27 anos, tinha acabado de voltar de um mestrado em informática no Rio de Janeiro e ainda não sabia o que fazer da vida. Depois de ver na TV o anúncio de uma escola de informática de Curitiba, ele se ofereceu aos donos (na época, cinco professores) para ser o diretor e, um ano mais tarde, convenceu-os a criar uma fábrica de computadores: a Positivo Informática. Na sexta-feira, essa empresa, que abriu capital há exatos 12 meses, já valia pouco mais de R$ 4 bilhões na Bolsa de Valores. Em um ano, desde a oferta inicial de ações, a empresa dobrou de valor.O acesso ao mercado de capitais está elevando empresas brasileiras médias a um novo nível. Das 62 empresas que fizeram ofertas públicas iniciais de ações (IPO) este ano na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), ao menos 44 atingiram valor de mercado superior a R$ 1 bilhão, segundo levantamento da empresa de informações financeiras Economática feito a pedido do Estado. Por trás dessa nova leva de ofertas na Bolsa, há empreendedores pouco conhecidos que, a exemplo de Rotenberg, começaram negócios do zero e agora estão lucrando com o boom do mercado de capitais no Brasil. Além de capitalizarem e valorizarem suas empresas , muitos vendem parte de suas ações nas chamadas ofertas secundárias. São os novos bilionários e milionários. De um total de R$ 52,3 bilhões arrecadados com essas ofertas entre janeiro e novembro, R$ 22,7 bilhões foram para o bolso de acionistas. O número inclui as ofertas secundárias da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e da Bovespa, que renderam R$ 11,8 bilhões aos donos de corretoras. "Dinheiro faz a roda do capitalismo girar", diz o professor de economia da FGV-SP Ernesto Lozardo. "Esse dinheiro vai voltar para a economia em forma de investimento em novos negócios." A escalada de IPOs revelou histórias surpreendentes, como a do cirurgião Edson Bueno, criador da Amil. Ex-engraxate, filho de um caminhoneiro e uma dona de casa, ele hoje controla - ao lado da mulher, a pediatra Dulce - uma empresa que tem uma rede credenciada de mais de mil hospitais, faturamento de R$ 1,9 bilhão em 2006 e valor de mercado de R$ 5,9 bilhões na Bolsa. Bueno é um sujeito determinado. Quando decidiu que seria médico, mudou-se para o Rio de Janeiro e dividiu uma quitinete com nove estudantes. Pagava o aluguel com o dinheiro da faxina. Seu primeiro emprego em hospital lhe rendeu uma sociedade. Como os salários estavam atrasados, Bueno negociou o pagamento em ações. Dali em diante, não parou mais.Outra revelação foi a Lopes Consultoria, empresa que nasceu na década de 30 como imobiliária de bairro em São Paulo e vale mais de R$ 1 bilhão. Pouca gente sabe, mas foi ela que lançou e vendeu os 14 primeiros prédios da Avenida Paulista, os 11 primeiros da Faria Lima e os 11 da Berrini, três dos principais centros empresariais da cidade. A empresa que abriu seu capital há um ano é comandada por Francisco Lopes, neto do fundador. Segundo especialistas, ao contrário das concorrentes, ela cresceu não apenas com corretagem, mas também dando consultoria para construtores e incorporadores. Das 23 empresas de capital aberto do gênero, apenas duas não usam seus serviços. BOLA DA VEZ Para Lozardo, esse boom é um indício de que o Brasil será a bola da vez entre os emergentes. "A estabilidade e as reformas institucionais tornaram a economia brasileira mais previsível e deram musculatura para o crescimento", diz Lozardo. "De 1994 até 2007, o Ibovespa valorizou 1.200% em dólar."O mercado também gosta de novidades. Levantamento feito pelo Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP, coordenado pelo professor William Eid, mostra que o desempenho médio das empresas que recentemente abriram seu capital é muito superior ao Ibovespa e ao IBrx. "Nem todas têm suas ações valorizadas nos primeiros 36 meses", explica Eid. "Mas, na média, o ?Índice do IPO?, mesmo descontando o movimento especulatório inicial, é historicamente superior." No início de setembro, último dado disponível, enquanto o IIPO registrava 4.200 pontos, o Ibovespa registrava 3.000 pontos e o IBrX, 2.500.Nem tudo são flores no mercado acionário. "Tem empresário que acha que entrar na Bolsa é uma maneira fácil de conseguir capital rápido", diz. Para se credenciar, explica, a empresa tem de ter uma estrutura organizacional, econômica e financeira compatível com a de uma multinacional. "O mercado de capitais é a antítese de Pero Vaz de Caminha. Não é só plantar que tudo dá. Tem de plantar e cuidar com competência. E torcer para que tudo dê certo."

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