Thiago Amaral/Estadão
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Fernando Nakagawa, enviado especial, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 05h00

SÃO MIGUEL DO TAPUIO (PI) e CRATEÚS (CE) - A porta de ferro acabava de ser aberta e quase 50 aposentados já se aglomeravam em frente aos três guichês da lotérica Ponto da Esperança. Enquanto idosos se abanavam, atendentes procuravam distração no celular. A fila não andava. O único movimento era o do velho ventilador, que tentava combater o calor de 30 graus antes das 9h na última quarta-feira. Ninguém era atendido porque, mais uma vez, São Miguel do Tapuio estava sem dinheiro em espécie.

Na tentativa de conseguir receber o pagamento de benefícios ou pensões, todos se espremiam no salão abafado no aguardo de pessoas que fossem pagar contas ou fazer uma aposta na loteria. A espera do primeiro da fila só terminava ao entrar dinheiro suficiente para pagar seu benefício. “Tem gente que espera até cinco, seis dias para receber”, diz a atendente da lotérica, Iradeth Soares Silva.

Na cidade do sertão piauiense, a falta de cédulas começou no fim de 2017. Três assaltos seguidos e uma explosão fizeram com que Banco do Brasil, Bradesco e Correios deixassem de aceitar dinheiro no município, a 220 km de Teresina. Sem poder pagar contas com dinheiro ou sacar recursos nas agências, os 17 mil tapuienses passaram a recorrer à lotérica da cidade para tentar ter acesso a dinheiro.

O fenômeno atinge pequenas localidades, sobretudo no Nordeste, que têm sofrido com a onda de roubos a agências bancárias e caixas eletrônicos. Após os ataques, bancos voltam a funcionar, mas, com o argumento da insegurança, optam por operar sem dinheiro. No primeiro semestre deste ano houve 1.275 ataques a instituições financeiras, segundo a Contrasp, confederação que reúne trabalhadores do setor de segurança bancária. No mesmo período de 2017, foram 1.090.

Um detalhe legal permite que instituições financeiras rejeitem dinheiro. Ao rebaixar o local de “agência” para “posto de atendimento” (PA), o banco pode adotar regras flexíveis de funcionamento, como evitar cédulas e moedas. Desde 2016, deixaram de ter sua única agência bancária 215 municípios. Ao mesmo tempo, 189 ganharam um PA como único canal de atendimento, segundo o Banco Central. Não há informação sobre quantos desses postos aceitam dinheiro.

Quando essas regras mais flexíveis foram anunciadas pelo BC em 2012, o setor dizia que a medida olhava para as melhores experiências no exterior e para o futuro, em que o uso de dinheiro seria cada vez menor. “Não sei mexer naquela máquina. Já tentaram me ensinar, mas não consigo”, diz o aposentado Francisco Alves de Souza, de 82 anos. Mesmo se soubesse, não adiantaria. Os cinco caixas eletrônicos instalados na cidade não permitem saque.

Na porta do BB em São Miguel, duas placas tentam afastar assaltantes ao avisar que não há valores por ali. Dentro, o cliente só consegue conferir o saldo, pagar contas eletronicamente, pedir empréstimo ou abrir uma poupança que não poderá receber depósitos em dinheiro. É quase como um açougue que só vende carvão e pão de alho.

Nova moeda

Sem banco para oferecer mais cédulas, a economia dessas localidades passa a usar uma nova moeda de troca: boletos. Todo mês, Francisco e dezenas de outros pensionistas participam de uma verdadeira maratona para receber os R$ 954 da Previdência.

Dias antes da data de pagamento começam a visitar comerciantes para perguntar se há contas a vencer com valor próximo do salário mínimo. Se a resposta for positiva, guardam o boleto até o dia do pagamento. Nessa data, o aposentado vai ao posto de atendimento do BB ou Bradesco e, sem ver o dinheiro, pede ao funcionário para pagar a conta com o montante depositado pelo INSS na conta. Em seguida, corre para o comerciante com o boleto autenticado para, finalmente, colocar a mão na aposentadoria.

A prática é tão comum que comerciantes da cidade já medem o tamanho dos negócios pelo volume de boletos entregues aos aposentados. “Carrego uns três ou quatro velhinhos por mês. Tem comerciante que ajuda uns 20”, diz o dono da Lanches Loiola, Valdomiro Rodrigues.

Aos que não conseguem um boleto, a opção é a fila na lotérica e esperar chegar o dinheiro.

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Fernando Nakagawa, enviado especial, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 05h00

SÃO MIGUEL DO TAPUIO (PI) e CRATEÚS (CE) - Com a falta de dinheiro em municípios do interior do Brasil, cada vez mais idosos viajam para sacar a aposentadoria. Eles têm feito a festa dos lojistas das cidades que têm bancos operando normalmente. Crateús, no Ceará, é um exemplo e atrai pensionistas de mais de dez cidades cearenses e piauienses.

Alguns viajam mais de 120 quilômetros e, antes de voltar para casa, deixam muitos reais no comércio local. Esse êxodo tem desidratado a economia das cidades sem dinheiro, onde comerciantes dizem que as vendas chegaram a cair à metade.

O calendário de pagamento do INSS é a principal referência do comércio de Crateús. Sede de cinco agências bancárias que operam com dinheiro vivo, o município tem a dinâmica alterada a cada fim de mês, quando aposentados da cidade e de fora começam a receber.

“O movimento chega a crescer 50% nos dias de pagamento dos aposentados. Tenho essa loja há 13 anos e eles nunca foram tão importantes”, diz Nordélia Aurélio, dona do Armazém Manuel Biel, a poucos metros da agência do Banco do Brasil.

Com o fechamento dos bancos nas cidades vizinhas, o fluxo de aposentados cresceu rapidamente. Funcionários do BB de Crateús dizem que o número de benefícios pagos mensalmente praticamente dobrou em dois anos. Com isso, o banco também aumentou expressivamente o volume de dinheiro em espécie movimentado.

A mudança causada pelos aposentados é visível no vaivém de carros particulares, vans e paus de arara que embarcam e desembarcam idosos em frente às agências bancárias e nas ruas comerciais.

Comerciantes dizem que esses forasteiros chegam a representar até 20% das vendas nos dias de pagamento do INSS.

É para Crateús que vai parte dos idosos de São Miguel do Tapuio, no Piauí (a 120 quilômetros dali, sendo mais de 30 quilômetros de estrada de terra) para ter na mão dinheiro vivo. Aposentados pagam até R$ 80 para ir e voltar – quase 10% da aposentadoria de um salário mínimo, padrão na região.

“Para receber a aposentadoria na lotérica de Independência, fico quarando na fila por dois, três dias. Aqui, é na hora”, argumenta Fátima Nascimento Oliveira, moradora de um município a 50 quilômetros dali. No mercado municipal, a aposentada comprava mais de R$ 100 em alimentos .

Realidade contrária

A situação é oposta nas cidades onde faltam cédulas e moedas. Nas três ruas comerciais de São Miguel do Tapuio, os negócios se arrastam depois que as duas agências bancárias e os Correios deixaram de operar com dinheiro. “Eu vendia mais de 50 sacos de milho por mês. Hoje, não saem nem 30”, lamenta Miguel Marques, dono de uma pequena loja de rações e bebidas.

Para não perder ainda mais clientes, comerciantes têm usado a criatividade. Na mercearia Helder Mercantil, a dona, Genise Cirino de Oliveira, criou uma espécie de consignado ao contrário para não perder as vendas. A comerciante permite que aposentados comprem sem pagar à vista desde que se comprometam a pagar algum boleto em nome da própria loja nos dias seguintes. “Se não fizesse isso, o movimento cairia ainda mais”. Por mês, o armazém paga mais de 20 boletos nesse consignado ao contrário.

Comerciantes e moradores têm pressionado autoridades para a reabertura das agências. Em Tapuio, o prefeito Lincoln Matos (PTB) já se reuniu com representantes dos bancos, mas o máximo que conseguiu foi a promessa de mais crédito para a agricultura do município. Dinheiro vivo que é bom, nada.

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Fernando Nakagawa, enviado especial, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2018 | 05h00

SÃO MIGUEL DO TAPUIO (PI) E CRATEÚS (CE) - O Banco do Brasil e o Bradesco são as duas instituições financeiras com maior rede de atendimento no interior do Brasil e, por isso, estão mais expostas à onda de ataques. Os dois bancos informaram que estudam maneiras de amenizar os problemas causados pela falta de dinheiro nas pequenas cidades.

Em nota, o BB diz que “lamenta transtornos provocados em praças onde suas agências são alvo constante de explosões e arrombamentos”. O banco não informou o número de postos de atendimento (PA) que operam sem dinheiro, mas diz que investe em tecnologias para “manutenção da circulação de numerário nas cidades”.

O BB informa ainda que trabalha com a polícia para “combater o crime organizado e propiciar condições de funcionamento de agências”. A preocupação, cita a nota, é não pôr em risco a segurança da população e empregados.

Já o Bradesco informou que “iniciou período de avaliação da sua política de fluxo de recursos em alguns postos”. Atualmente, o banco tem cerca de 4,8 mil PAs e cerca de 1% está sendo avaliado sobre o funcionamento sem dinheiro. “O objetivo é oferecer nossa contribuição para preservar condições de segurança dessas comunidades”, diz o banco.

Em nota, o Bradesco avalia como “inadmissíveis as consequências sociais da violência causada pelos ataques”. Para tentar contornar o problema, o banco quer intensificar o uso dos cartões nessas cidades. “Uma alternativa viável e de rápida implementação”, cita a nota.

O diretor de clientes e canais da Caixa Econômica Federal, Julio Volpp, disse que o sistema usado para gerenciamento das lotéricas analisa qualquer necessidade de numerário e, por isso, não deveria ocorrer falta de dinheiro, como visto na lotérica de São Miguel do Tapuio (PI). “Pedirei averiguação desse caso. Nosso trabalho é não permitir que isso aconteça”.

O executivo explicou que o custo do envio de dinheiro da transportadora de valores até a lotérica é custeado pelo próprio agente lotérico. A Caixa tem um grupo de parceiros com transporte de valores subsidiado, mas o programa beneficia apenas as lotéricas mais movimentadas das grandes cidades.

A Federação Brasileira dos Bancos informou que o setor investe cerca de R$ 9 bilhões em segurança anualmente, o triplo do investido há dez anos. Já o Banco Central se limitou a dizer que não tem informações sobre o número de postos de atendimento sem dinheiro.

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