Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Onde come um comem dez? Isso não existe mais

A casa da missionária Lislei sempre foi ponto de encontro; hoje, convidados surpresa para o almoço não são mais bem-vindos

FERNANDO SCHELLER, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2015 | 16h00

A casa de Lislei Silva Santos, 53 anos, sempre um foi um ponto de encontro da vizinhança do bairro Parque Peruche, na zona norte de São Paulo. Lislei e a família não são só conhecidas como moradoras e empreendedoras – ela mantém um pequeno salão de beleza no terreno de sua residência –, mas também como pregadoras da palavra divina. Testemunha de Jeová, Lislei não raramente bate de casa em casa em uma peregrinação evangelizadora.

Durante muitos anos, os que se dispunham a abrir a porta para a palavra de Deus não raramente eram recebidos na casa de Lislei. Aos domingos, eram comuns os almoços para mais de dez convidados. Lislei entrava com a carne e as bebidas e quem era convidado (ou se convidava) trazia um tira-gosto ou uma sobremesa. “Mas o pesado sempre ficava com a gente”, lembra a cabeleireira. Durante muitos anos, o arranjo funcionou bem. Mas a crise deu um basta nas festas. “Onde come um comem dez? Isso não existe mais.” Em momentos como o atual, Lislei está priorizando a própria família.

A renda da casa caiu pela metade. O movimento do salão de beleza em que Lislei faz de tudo – tintura, limpeza de pele, manicure – está devagar, quase parando. Dali, conta ela, não saem mais de R$ 300 por mês, menos de um terço do que ganhava antes. O salário do marido, de R$ 2 mil brutos, mal dá para as despesas da casa – o casal tem duas filhas adolescentes. O pagamento das contas é com base em um rodízio. “A gente sempre teve as contas em dia. Agora, a gente paga a conta de luz em um mês e a de água no outro, para não cortarem.”

Mudança. Diante das dificuldades, Lislei resolveu mudar de profissão. Está fazendo um curso técnico de podologia na UniSant’Anna. Ainda faltam dois anos, mas ela está confiante de que, ao se formar, sua renda ficará menos volátil. “Quando era criança, meu sonho era ser bioquímica. Com esse curso, vou conseguir trabalhar na área da saúde”, diz a cabeleireira. “Os idosos precisam cuidar dos pés, não é um serviço que eles podem economizar, como o do salão de beleza.”

Enquanto não consegue concretizar a mudança, Lislei vai cortando no que pode. Mas faz uma ressalva: apesar da economia com as festas de fim de semana, nunca vai fechar as portas da casa para quem está passando necessidade. Pelo menos um prato de arroz com feijão, diz ela, sempre vai ser possível oferecer.

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