Onde mora a inteligência

Apesar da evolução da internet das coisas, a era das casas conectadas ainda deve demorar a virar realidade

THE ECONOMIST

12 Junho 2016 | 05h00

A conversa já dura anos. Analistas tem repetidamente previsto que “a internet das coisas”, que junta sensores e recursos da internet a objetos físicos do dia a dia, poderá transformar a vida das pessoas tão dramaticamente quando a propagação da internet móvel.

Provedores têm focalizado na casa, anunciando produtos como cafeteiras que ligam quando o despertador toca, luzes e cortinas que se ajustam à hora do dia, refrigeradores que emitem um alerta quando o leite está acabando. Mas até agora os consumidores têm resistido amplamente a tornar suas casas “inteligentes”. 

Não por falta de tentativa das empresas tech, que têm investido dinheiro no esforço de conectar objetos de uso diário à internet. Em 2014, a Google fez a maior investida até agora nesse campo, comprando a Nest, fabricante de termostatos inteligentes, por US$ 3,2 bilhões, e a Dropcam, que faz câmeras de segurança para residências, por US$ 550 milhões. A Nest absorveu a Dropcam. É hoje uma das marcas mais conhecidas no campo de casas inteligentes. Mas também é um alerta de quanto tempo ainda vai levar para esses gadgets entrarem em uso maciço. 

A Nest desapontou indiscutivelmente o Google. Vendeu apenas 1,3 milhão de termostatos inteligentes em 2015, e só 2,5 milhões no total durante os últimos anos, segundo a Strategy Analytics, uma empresa de pesquisas. Por um par de anos, a Nest principalmente aperfeiçoou produtos já existentes em lugar de lançar novos. Isso pode explicar por que Tony Fadell, fundador e chefe da Nest, saiu, no dia 3 de junho, para assumir um cargo de consultor na Alphabet, empresa parente da Google. Ex-executivo da Apple e designer do iPod, Fadell fracassou em passar seu toque mágico para a casa inteligente. 

Dificuldades. Os problemas da Nest são sintomáticos. Apenas 6% das famílias americanas têm algum equipamento de casa inteligente, incluindo aparelhos ligados à internet, sistemas de monitoramento de casas, alto-falantes e iluminação, segundo Frank Gillet, da Forrester, outra empresa de pesquisas. Não se espera um crescimento avassalador. Em 2021, esse número será de apenas pouco mais de 15%. 

Poucos consumidores estão convencidos de que a internet tenha um papel a desempenhar em cada canto de sua vida. Pesquisa realizada na Grã-Bretanha pela PricewaterhouseCoopers, empresa de consultoria, constatou que 72% das pessoas não têm planos de adotar tecnologia de casa inteligente no prazo de dois a cinco anos e relutam em pagar por isso. No ano passado, consumidores gastaram globalmente em torno de US$ 60 bilhões em equipamentos e serviços para casa inteligente, uma fração do desembolso total em aparelhos domésticos. 

Há várias razões para esse pouco entusiasmo. Empresas têm incentivos para aplicar a internet às coisas. Há diminuição de custos colocando sensores em equipamentos e fábricas, analisando os dados daí provenientes e melhorando a eficiência. Em contraste, muitos aparelhos domésticos inteligentes continuam sendo “divertidos, mas não essenciais”, diz Adam Sager, da Canary, startup que faz câmeras para as pessoas monitorarem o que acontece em suas casas. 

Preço. Muitos aparelhos inteligentes ainda são muito caros. Uma das geladeiras inteligentes da Samsung, com câmeras internas que checam se há alimentos estragados e permitem ao consumidor ver o que está faltando enquanto faz compras (por meio de um aplicativo no celular) custa US$ 5 mil. Pessoas que podem pagar isso provavelmente não fazem as próprias compras. Utensílios como geladeiras também não são substituídos com frequência. Isso retarda a procura por novos produtos.

A tecnologia também ainda não é perfeita. O smartphone, elo entre o cliente e os equipamentos da casa inteligente, elevou as expectativas dos consumidores, explica Jamie Siminoff, chefe da Ring, startup fabricante de uma campainha de porta que pode ser respondida remotamente. Os smartphones acostumaram os usuários a esperar um nível de qualidade e eficiência a que os dispositivos de casa inteligente lutam para corresponder. E a falta de padronização implica que aparelhos de diferentes empresas não conseguem comunicar-se uns com os outros. 

Há exceções. Equipamentos que são fáceis de instalar e oferecem benefícios óbvios, como sensores que emitem alerta quando portas e janelas são abertas e câmeras que monitoram atividade. Outros, como detectores inteligentes de fumaça, estão nas casas porque as seguradoras dão incentivos financeiros para quem usa. O segmento das casas inteligentes está vibrante com startups e grandes empresas apostando que a hesitação é temporária. Mas a apatia do consumidor vem forçando empresas a repensar em como fazer para atrair clientes. 

Talvez a maior surpresa seja que a Amazon, que fracassou miseravelmente na ambição de desenvolver um smartphone, esteja mostrando o caminho. O Amazon Echo é um pequeno dispositivo falante que reconhece voz e responde a comandos. Compartilha informações sobre o tempo e resultados esportivos, toca música e apaga e acende luzes. O dispositivo, que custa cerca de US$ 180, ainda não é um sucesso de vendas. A Amazon não divulga números, mas a Strategy Analytics estima que menos de 1 milhão de Echos tenham sido vendidos desde o lançamento, em novembro de 2014. De qualquer modo, o Echo é o assunto do momento no Vale do Silício.

Fale com seu aparelho. Uma interface que conta com comando de voz poderia superar um dos obstáculos do fragmentado avanço rumo à casa inteligente, tornando-se o integrador padrão de todos os outros aparelhos do kit de inteligência. O Echo está aberto a desenvolvedores externos, que podem apresentar soluções e serviços que possam ser conectados a ele. O sucesso do Echo pode ter sido uma surpresa, mas a concorrência se deu conta de que ele poderá ser um item essencial. O Google anunciou planos de construir um equipamento independente, como o Echo, chamado Google Home, que também obedeça ao comando de voz. 

A Apple deve anunciar novos aparelhos para a casa inteligente: há rumores de que poderia lançar um dispositivo na vertente do Echo em sua conferência anual de desenvolvedores. Sua plataforma para casa inteligente, HomeKit, até agora foi um fracasso. O fato de a Apple, apesar de sua grande base de colaboradores, ainda não ter resolvido os problemas da casa inteligente é um sinal das dificuldades para a solução, assinala Geoff Blaber, do CCS Insight, que acompanha as tendências da indústria do celular. 

Cada gigante da tecnologia tem uma diferente razão para tentar superar a indiferença dos consumidores e entrar decisivamente nas casas. O Echo pode ajudar a Amazon a conhecer como as pessoas gastam seu tempo e fazê-las gastar mais facilmente sugerindo coisas que podem comprar. O Google, cujo principal negócio é a publicidade, também quer aproveitar uma nova onda de dados.

Aprendendo tanto quanto possível sobre os usuários, pode atingi-los com anúncios mais apropriados. A Apple, com um histórico de sucessos em simplificar e criar sistemas de interconexão onde outros não haviam conseguido, quer fazer de seus equipamentos a passagem através da qual as pessoas organizem suas vidas. 

Lucros. Se os gigantes da tecnologia mantêm a ambição de sentar-se no centro da casa inteligente, a incerteza sobre os lucros persiste. “Não está claro qual será o modelo econômico d a casa inteligente”, diz Andy Hobsbawm, da Everything, uma plataforma de internet aplicada às coisas. Algumas empresas tentarão ganhar com a venda de equipamentos. Outras vão tentar vender serviços, como o arquivamento de vídeos de segurança, bem como cobrar pelo uso de equipamento. Os produtos que equipam uma casa são diversificados, pessoais e duráveis. Isso deveria dar às empresas a visão de como fazer parte da residência – o que só ocorrerá, porém, quando os consumidores decidirem estender o tapete de boas-vindas. 

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ROBERTO MUNIZ, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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