Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

‘Onde passava o tiro, eu me abaixava’

Na Mercedes há 12 anos, Bezerra ficou de fora dos lay-offs, mas teme não escapar da demissão

O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

“Onde passava o tiro eu me abaixava”, brinca Ivan Bezerra, ao explicar como conseguiu, em 12 anos de trabalho na Mercedes-Benz, ficar de fora de todos os programas de lay-off (dispensa por até cinco meses), adotados a partir de 2014 como forma de manter a mão de obra empregada, enquanto o mercado não volta a comprar caminhões e ônibus.

Ele não escapou, porém, das férias coletivas, licenças remuneradas, folgas e da redução da jornada e dos salários em 20% durante a adesão da montadora ao Programa de Proteção ao Emprego (PPE), que tem parte do corte salarial bancada pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Bezerra, de 41 anos, trabalha atualmente na área de CKD (veículos desmontados para exportação), mas já passou pelos setores de motores, funilaria e pintura. “Já rodei quase a fábrica toda.”

Ele vive numa casa própria em Mauá, no Grande ABC, com a mulher e dois filhos, de 14 e 18 anos. “Eu fico na expectativa, pois a minha renda é a única da família e não quero ser mais um desempregado.”

Ele conta que vários familiares estão sem trabalho, incluindo a irmã, “que tem curso superior, pós-graduação e atuava na área de Recursos Humanos”.

O filho do metalúrgico concluiu há seis meses o curso técnico de mecatrônica e vem procurando emprego desde então. “Não conseguiu nem estágio.”

Bezerra diz entender a situação da Mercedes, mas ressalta que, nos anos em que ela batia recordes de produção, ninguém se recusava a fazer horas extras, a trabalhar nos finais de semana. “Em 2011, fizemos 40 dias de jornada extra; ninguém tinha preguiça”, lembra.

Naquele ano, a indústria automobilística brasileira registrou produção recorde de caminhões, com 223,6 mil unidades, e de ônibus, com 49,4 mil unidades. Para este ano, a previsão total para veículos pesados é de 94,6 mil unidades.

“Agora que tem a crise, a empresa quer demitir”, lamenta Bezerra. Em sua opinião, esse período em que os funcionários ficam em casa em licença, recebendo sem trabalhar, poderia ser utilizado pela montadora para dar cursos de qualificação para que todos voltassem mais preparados quando o mercado melhorar. “A empresa tem centros de treinamento e poderia aproveitar essa ociosidade que tem hoje na produção para reciclar a mão de obra.”

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