Joshua Lott/Reuters
Joshua Lott/Reuters

Onde vai começar a próxima crise?

Passados dez anos, a dívida não desapareceu; o sistema financeiro se segura na boia dos juros baixos

The Economist

09 Agosto 2017 | 20h28

Há dez anos, o banco francês BNP Paribas suspendeu temporariamente as transações de três de seus fundos de investimentos em razão da “absoluta evaporação de liquidez em alguns segmentos do mercado de securitização dos Estados Unidos”. Para muitos, a decisão marcou o início da crise de crédito.

Outros recuam mais algumas semanas no tempo e dizem que a coisa começou dois meses antes, quando o Bear Stearns precisou socorrer dois de seus fundos de hedge que investiam em títulos garantidos por hipotecas. E há ainda quem sustente que os primeiros sinais da crise apareceram já no fim de 2006, com a inadimplência generalizada de mutuários e a quebra de instituições de crédito imobiliário. O consequente aperto no crédito e a perda de confiança no sistema bancário levariam, em setembro de 2008, ao colapso do Lehman Brothers, momento em que a crise atingiu seu ápice.

Aniversários como o que se comemora este mês invariavelmente suscitam a indagação: pode acontecer de novo? Ao longo dos últimos dez anos, o endividamento global, em vez de encolher, só fez aumentar, chegando a US$ 217 trilhões, ou o equivalente a 327% do PIB mundial, segundo o Instituto de Finanças Internacionais.

O que mudou foi a distribuição da dívida: os maiores devedores agora estão no setor público; e a maior parte do crédito, nas mãos dos bancos centrais. Como esses bancos não têm interesse em cobrar as dívidas de seus respectivos governos, o clima de crise desapareceu. As instituições bancárias reforçaram seu capital e hoje estão mais seguras. E, graças aos juros baixos, empresas e consumidores conseguem amortizar suas dívidas com mais facilidade.

Apesar disso, a situação está longe de ter voltado à normalidade. Nos EUA, embora a atividade econômica venha há um bom tempo se recuperando, e o desemprego seja baixo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se enche de cuidados para aumentar os juros. O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão nem começaram a apertar suas políticas monetárias.

Considerando esses fatores, o que poderia provocar a próxima crise? As duas possibilidades mais óbvias são uma alta abrupta na inadimplência ou uma elevação acentuada nas taxas de juros. É possível haver inadimplência mesmo que os juros não subam; basta que a economia mundial entre em recessão. É o que pode acontecer na eventualidade de uma guerra com a Coreia do Norte (segundo os evangélicos americanos, Deus já autorizou o presidente Donald Trump a falar grosso com Kim Jong-un) ou de uma não tão assustadora, mas certamente traumática, guerra comercial com a China. A recessão também poderia ser causada por problemas de crédito no interior da economia chinesa, uma vez que é aí que o endividamento mais vem crescendo nos últimos tempos.

Não se pode descartar a hipótese de que a crise irrompa nos mercados de títulos corporativos, que já não têm a mesma liquidez do passado e estão sujeitos a ondas de pânico dos investidores. Outros epicentros possíveis são os mercados de crédito estudantil e automotivo, em que os consumidores talvez tenham voltado a ficar excessivamente endividados.

O mais provável, porém, é que a próxima crise seja provocada por deslizes na condução da política monetária. Quando o Fed começou a utilizar o afrouxamento quantitativo, muitas pessoas alertaram para a “lei do ketchup” do risco inflacionário: “a pessoa chacoalha o ketchup e só sai um pouquinho; chacoalha mais forte e vem um montão”. A inflação não veio, mas nunca se sabe: pode ser que agora, no momento em que o Fed desmonta a sua política, o mercado, em que por ora reina um céu de brigadeiro, resolva aprontar das suas.

Algo parecido aconteceu em 1994, quando o mercado de títulos entrou em polvorosa depois que o Fed começou a subir os juros. E o Fed é o mais forte candidato a ser o responsável pela crise: não só foi o primeiro a apertar a política monetária, como o impacto de suas decisões inevitavelmente se espalham pelo mundo afora, seja por meio do dólar, seja em razão do peso que a economia americana tem no PIB mundial. A próxima crise pode muito bem começar em Washington.

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