O´Neill distribui, mais uma vez, críticas ao país

Pela terceira vez em menos de 48 horas, a Argentina recebeu duras críticas vindas de Washington. Ontem pela manhã, foi a vez do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O´Neill. Ele disse que o governo americano só apoiará a Argentina nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros organismos financeiros internacionais "se o país implementar políticas econômicas confiáveis". Segundo O´Neill, os Estados Unidos "não podem e não devem impor uma solução para os argentinos. Nós oferecemos assistência técnica, assessoria e conselhos". O recado, foi direcionado, mais uma vez, à classe política argentina, à qual o Fundo Monetário Internacional e o governo americano pedem que encontre consenso. O governo dos americano e o Fundo observam com preocupação as graves diferenças existentes entre o governo do presidente Eduardo Duhalde, o Congresso Nacional e a Corte Suprema de Justiça, que estão inviabilizando qualquer política econômica. Na véspera, o porta-voz do FMI, Thomas Dawson, havia declarado que existem "claras dificuldades de fechar um acordo com a Argentina, pois o país possui graves problemas para cumprir internamente as exigências do Fundo". Na quarta-feira, o representante do FMI em Buenos Aires, Gilbert Terrier, acrescentou novas exigências à longa lista que o Fundo pede desde o início do ano para a Argentina, e que a cada mês aumenta de tamanho. Segundo Terrier, o governo Duhalde precisa implementar medidas de combate à pobreza e manter o congelamento de preços dos serviços públicos. As declarações de O´Neill coincidiram com a última jornada da missão argentina que esteve durante dois dias e meio em Washington. Além de reuniões com diversos escalões do FMI, a missão tentou obter apoio do governo americano e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para conseguir um acordo com o Fundo. OrçamentoAinda sem o acordo com o FMI, que garantirá um socorro financeiro de pelo menos US$ 9 bilhões, o governo argentino estima que a economia do país crescerá 3% em 2003, a primeira expansão em quase cinco anos de recessão consecutiva. A estimativa otimista se encontra no orçamento do próximo ano que o Duhalde deveria enviar ainda ontem ao Congresso. O governo prevê ainda que a inflação em 2003 não deverá superar os 22% e que taxa de câmbio ficará no patamar de 3,70 peso por dólar, pouco acima dos 3,60 de hoje. O projeto de lei, que inclui a reposição salarial retroativa de 13% a todo o funcionalismo público e aposentado por ordem da Corte Suprema de Justiça, estima também um superávit primário de 1,6% do Produto interno Bruto (PIB). O governo vai destinar também 3,5 bilhões de pesos (cerca de US$ 1 bilhão) para chefes de família que se encontram desempregados. O governo do presidente Duhalde acredita ainda que as exportações crescerão 5% em 2003 e que a arrecadação tributária deverá aumentar pelo menos 40%. O projeto de lei do orçamento foi definido mesmo sem o governo ter resolvido uma série de problemas, como o corralito financeiro, a renegociação com os credores da dívida externa e os futuros desembolsos ao Banco Mundial, BID e ao FMI, que em 2003 deverão passar de US$ 15 bilhões. O governo também não resolveu o espinhoso problema do sistema financeiro, que exige uma drástica reestruturação, principalmente dos bancos públicos. Outro problema que parece estar ficando para atrás e que não consta no orçamento 2003 é o reajuste das tarifas dos serviços públicos, o governo vem sendo pressionado pelas multinacionais, principalmente as espanholas. Se o reajuste exigido for mesmo determinado, haverá certamente pressão nos índices de inflação, que o governo também parece estar ignorando. No decorrer deste ano, sem o reajuste de tarifas, a inflação já está em 34% e poderá chegar a 80%, segundo estimativas de institutos econômicos independentes. O governo não está considerando também a aprovação de uma lei por parte do Senado que obriga o Estado a indenizar mais de 20 mil empregados da YPF que haviam sido demitidos antes de a empresa petrolífera ser privatizada e adquirida pela espanhola Repsol. De acordo com cálculos preliminares, cerca de 22 mil trabalhadores têm direito a receber 40 mil pesos, ou pouco mais de US$ 11 mil. Isso significa que o governo terá de reservar pelo menos US$ 450 milhões para honrar essas indenizações. (Colaborou Vladimir Goitia/AE)

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