José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

ONS defende liberar mais água em duas usinas, poupar reservatórios e acionar todas as termelétricas

Mesmo com essas medidas, o ONS prevê que a hidrovia Tietê Paraná seria paralisada em meados de julho, quando os volumes armazenados em Porto Primavera ficarão menores

Anne Warth e Wilian Miron, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 21h06

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Para atravessar o período seco e manter a segurança do abastecimento de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quer liberar mais água do reservatório de Furnas e Mascarenhas de Moraes e segurar água nas cabeceiras dos rios que abastecem a maioria das usinas do País nos próximos meses. O órgão defende ainda o acionamento de todo o parque de termelétricas, que geram energia mais cara.

Mesmo com essas medidas, o ONS prevê que a hidrovia Tietê Paraná seria paralisada em meados de julho, quando os volumes armazenados em Porto Primavera ficarão menores. Nota técnica divulgada pela entidade nesta sexta-feira, 4, aponta uma situação crítica para as hidrelétricas que têm reservatórios atendidos pelas bacias dos rios Paranaíba, Grande, Tietê e Paranapanema, no Sudeste e Centro-Oeste do País.

O plano traçado pelo ONS considera o pior cenário possível, em que as chuvas, que normalmente voltam no fim de setembro e início de outubro, somente chegariam em novembro. É com essa previsão, que pode não se concretizar, que a entidade trabalha para assegurar o abastecimento de energia no País. Assim, em qualquer cenário o abastecimento será garantido.

Se a operação for mantida sem as alterações propostas pelo ONS, haverá "perda do controle hidráulico de reservatórios da bacia do Rio Paraná" no segundo semestre. Isso significa que as usinas teriam que operar como se não tivessem reservatórios, a fio d´água, dependendo de chuvas para manter o funcionamento, arriscando inclusive paralisações.

Sozinha, a Bacia do Paraná responde por 53% da capacidade nacional de geração de energia do País.  Hoje, o volume de água armazenada é de 28% de sua capacidade, o segundo pior nível de armazenamento dos últimos 21 anos nesta bacia. 

Para evitar o colapso do sistema, o ONS propõe a adoção de ações claras, entre elas liberar mais água em Furnas e Mascarenhas de Morais, que hoje têm 37% e 55,8% de armazenamento, respectivamente, entre junho e novembro, para poupar outros reservatórios em situações mais críticas. Nesta região encontram-se as usinas como Marimbondo (6,6%), Água Vermelha (7,4%), Nova Ponte (16,2%), Emborcação (22,1%), Itumbiara (19%), São Simão (11,3%), Ilha Solteira (47,4%) e Três Irmãos (48,6%).  

“Essas usinas e respectivos reservatórios são de extrema importância para a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN), pois os recursos neles estocados são capazes de garantir energia nos períodos secos, quando não há contribuições significativas das usinas instaladas na região Norte do País”, diz trecho do relatório.

Segundo o ONS, o conjunto de reservatórios localizados na bacia do rio Paraná corresponde a 76% da capacidade máxima de armazenamento do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste e a 53% da capacidade de armazenamento de todo o SIN.

Desde a primeira quinzena de maio, a Cesp e a CTG, responsáveis pelas usinas de Jupiá e Porto Primavera, realizaram os testes de redução das defluências dessas usinas, sendo que a defluência foi de 3.700 metros cúbicos por segundo (m³/s) para 3.200 m³/s, na hidrelétrica Jupiá, e de 4.300 m³/s para 3.800 m³/s, na usina Porto Primavera, com reduções de 100 m³/s por dia. 

O objetivo, porém, é recolher ainda mais água nos reservatórios de Jupiá e Porto Primavera a 2.300 metros cúbicos por segundo (m³/s) e 2.700 m³/s a partir de julho. Essa decisão será tomada gradualmente ao longo dos próximos quinze dias, após tratativas com o Ibama e a Agência Nacional de Águas (ANA), além das empresas donas das usinas, Cesp e CTG. As informações foram antecipadas pelo Estadão/Broadcast na semana passada.

O objetivo é monitorar e diminuir os impactos para o turismo, pescadores, fauna e meio ambiente. Além de medidas na região onde a crise hídrica tem mostrado efeitos mais severos, a autarquia pretende guardar mais água também na região Nordeste, e desta maneira despachar mais térmicas.

Na semana passada, o governo emitiu alerta de emergência hídrica para os cinco Estados banhados pelos rios: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. A informação também foi antecipada pelo Estadão/Broadcast.

Em nota, o ONS afirmou que o único cenário em que há risco de déficit de energia é o cenário de referência, utilizado para demonstrar que ações precisavam ser tomadas com o intuito de evitar esse risco. "Sendo assim, diversas medidas foram aprovadas pelo CMSE e já estão em curso, o que faz com que esse cenário não se concretize e se garanta o fornecimento de energia e potência em 2021", disse.

"O ONS reforça que o país passa pela pior crise hidrológica desde 1930 e que nos últimos sete anos os reservatórios das hidrelétricas receberam um volume de água inferior à média histórica. É neste contexto que todos os esforços estão sendo envidados, com transparência e informação à população, para que o país atravesse a crise hídrica sem problemas no fornecimento de energia, que como dito anteriormente, está garantido este ano".

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