ONU avalia estratégia para alta de alimentos

Estado teve acesso ao rascunho de proposta que será discutida em conferência em Gana

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2008 | 00h00

A alta dos preços das commodities divide os países em desenvolvimento. No sábado, o presidente Lula estará em Gana para a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Desenvolvimento e Comércio. O boom dos preços de produtos agrícolas, mineração e petróleo estará no centro do debate. Mas não há consenso sobre uma estratégia comum para a inflação nem sobre a conclusão de um acordo comercial entre os países do Hemisfério Sul, idéia patrocinada há quatro anos pelo Brasil. A idéia da ONU é estabelecer uma espécie de estratégia para os países emergentes se beneficiarem da alta das commodities, já que grande parte delas são produzidas nas regiões menos desenvolvidas do mundo. O Estado teve acesso ao rascunho da proposta que está sendo negociada esta semana em Genebra, antes de ser levada a Gana. O acordo prevê que a ONU ajude os pequenos países a formularem estratégias para se beneficiar do boom das commodities. A idéia é vincular essas estratégias a metas de redução de pobreza. O problema é que nem todos os emergentes são exportadores de produtos agrícolas ou minério e a entidade será pressionada a dar uma resposta aos que estão sofrendo. A ONU, portanto, terá de encontrar em Gana um equilíbrio entre a promoção dessas exportações e o estabelecimento de estratégias para reduzir os impactos negativos sobre cerca de 30 países que sofrem com a importação cada vez mais cara desses produtos. Segundo o Banco Mundial, a alta nos preços de alimentos pode colocar outros 100 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e os conflitos já se espalham pelo mundo.A alta nos preços das commodities pode ser boa para alguns exportadores, como o Brasil, mas afeta milhões de pessoas em países como Haiti, Burkina Fasso e outros. Na semana passada, Lula afirmou que o aumento nos valores das commodities seria uma "inflação boa". Nas salas de negociação da ONU, os países que são obrigados a pagar 56% mais pela importação de cereais neste ano não concordam com a avaliação de Lula. "Que inflação boa é essa que gera conflitos em vários países?", questionou um delegado africano. Outra proposta do texto da conferência é reforçar mecanismos para que empresas de petróleo e mineração tenham gestões profissionais e regras transparentes e que os governos divulguem como usam os recursos gerados por suas estatais nesses campos.Um dos principais problemas é que Venezuela e Cuba não aceitam que a estratégia inclua um apelo por transparência no uso dos recursos do petróleo e que uma "gestão responsável" seja adotada pelos países emergentes. O que chama a atenção de diplomatas é que Caracas e Havana estão indo contra uma proposta apoiada por várias delegações africanas, ainda que a idéia inicial tenha vindo do Reino Unido.COMÉRCIOA alta nos preços dos alimentos também está tendo impacto sobre as negociações comerciais. O Brasil quer aproveitar a reunião de Gana para fechar um acordo sobre a redução de tarifas de importação entre emergentes, entre eles Índia, Egito, México e Argentina. A idéia é que essas economias reduzam em 20% suas tarifas para bens vindos de outros países em desenvolvimento. Politicamente, todos apóiam a iniciativa e insistem na necessidade de que haja uma aliança entre os emergentes. Mas, nas salas de negociação, as diferenças ainda são pronunciadas e um acordo não está garantido, segundo o próprio Itamaraty. Um dos opositores é a Índia, embora seja considerada por Brasília um parceiro estratégico nessa questão. O governo do México quer garantias de que haverá algum sistema de solução de disputas nesse acordo. Os mexicanos querem ter certeza de que poderão acionar alguma espécie de tribunal ou arbitragem caso as regras sejam violadas.Diplomatas europeus alertam que esse conflito prova que as diferenças entre os países no comércio não são uma exclusividade da relação entre economias ricas e pobres. "Há uma diferença de interesses entre os países do Hemisfério Sul que ninguém pode negar", afirmou um diplomata europeu.

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