ONU diz que fome provoca um ''tsunami silencioso'' no mundo

Segundo a entidade, crise de alimentos é a pior em meio século e 100 milhões de pessoas já estão sendo afetadas

Jamil Chade, OUAGADOUGOU, BURKINA FASO, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2008 | 00h00

A ONU declarou a crise dos alimentos a pior em quase meio século e alertou que 100 milhões de pessoas já estão sendo afetadas pela alta nos preços dos alimentos dos últimos meses, aprofundando a pobreza em todos os continentes. Para a entidade, o mundo está sofrendo um "tsunami silencioso". Nos últimos dias, a ONU pediu que as tropas internacionais mantivessem a segurança não apenas em locais considerados perigosos, mas também nos mercados públicos e nos locais de estoque de comida.Para tentar lidar com a crise, o Programa Mundial de Alimentação da ONU (PMA) mobilizou 30 navios, 5 mil caminhões e 70 aviões em vários países. Mesmo assim, a agência da ONU diz que a crise é a pior em 45 anos desde que foi criada. "Essa é a nova face da fome. Pessoas que há seis meses não passavam fome, hoje são vítimas", afirmou Josette Sheeran, diretora do PMA. Ontem, na capital do Burkina Faso, Ouagadougou, o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, fez questão de tratar do assunto com as autoridades locais para tentar encontrar uma solução. No país africano, a crise já gerou protestos violentos, mortes e prisões. "A seca atingiu a agricultura e a produção. O resultado é uma falta de alimentos que está ameaçando agravar ainda mais a economia de Burkina Faso", afirmou Ban Ki Moon. Ele afirmou a seus assessores mais próximos que a crise é a mais preocupante a atingir o mundo em décadas e que tem o potencial de colocar em segundo plano qualquer debate sobre mudanças climáticas e aids. Em Ouagadougou, os sindicatos anunciaram ontem que, se os preços dos alimentos não forem controlados, uma greve geral será convocada para as próximas semanas. "Vivemos momentos difíceis, principalmente para quem tem filhos. Os alimentos se tornaram um peso na renda das famílias", afirmou a estudante Gladis Guenguere. "A irritação do povo é normal. Ainda que sair às ruas não resolva o problema, eles só têm essa opção, que é a protestar", afirmou Idris, enfermeiro no hospital da capital de Burkina Faso. GENEROSIDADEA ONU pede que a comunidade internacional se mostre tão generosa como nos dias após o tsunami que atingiu a Ásia, em dezembro de 2004. Na ocasião, cerca de 250 mil pessoas morreram e 10 milhões foram afetadas. Hoje, compara a entidade, são 100 milhões de pessoas empobrecidas tentando comprar comida. Com o tsunami, a comunidade internacional destinou US$ 12 bilhões para a recuperação dos países afetados. Agora, a ONU não consegue sequer um orçamento extra de US$ 750 milhões que havia pedido para comprar alimentos para 77 milhões de pessoas em todo o mundo. Sem os recursos, por exemplo, a ONU terá de suspender a distribuição de comida para 400 mil crianças no Camboja a partir de maio. Em Monróvia, capital da Libéria, comerciantes do mercado público temem ser vítimas de violência e saques por parte da população faminta. Em um país que acaba de sair de uma guerra de 14 anos que deixou 200 mil mortos, a perspectiva de violência causa preocupação. A ONU já tem 12,5 mil soldados no país. Para tentar evitar o caos, o comando das tropas das Nações Unidas destacou para locais estratégicos batalhões encarregados de proteger comboios de alimentos. A ONU prepara para a semana que vem um informe com o número exato de pessoas em situação de emergência por causa da fome.

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