ONU e Bird atacam modelo agrícola do Brasil e da região

Estudo defende mudanças para tornar América Latina o celeiro do mundo

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2008 | 00h00

A América Latina e o Brasil têm condições de ser de fato os celeiros do mundo, mas precisam promover uma reforma profunda em sua estrutura agrária para acabar com a pobreza e a fome, além de garantir que o meio ambiente será preservado. Os dados foram divulgados ontem em relatório encomendado pelo Banco Mundial e pela ONU. O relatório alerta que o modelo da agricultura brasileira não solucionou a crise social do País nos últimos 50 anos. Quatrocentos cientistas e especialistas de todo o mundo fizeram parte do esforço de pesquisa e concluíram que os países latino-americanos usam apenas 25% da capacidade agrícola da região. O alerta é feito em meio a uma das maiores crises mundiais de alimentos nos últimos 30 anos. Segundo o levantamento, submetido aos vários governos, entre eles o do Brasil, a América Latina tem o maior estoque de terras aráveis do mundo, com 576 milhões de hectares. Isso representa 30% de toda terra arável do planeta. Uma parte substancial dessa área está no País. O problema, segundo os especialistas, é que essas terras estão concentradas nas mãos de poucos e não são usadas de forma eficiente. Para piorar, a produção agrícola é altamente poluente, afetando a disponibilidade de terras no futuro. A conclusão do levantamento é que, nos últimos 50 anos, o modelo agrícola da região trouxe poucos benefícios sociais e 54 milhões de pessoas ainda passam fome. O problema, segundo o estudo, não é a falta de capacidade de produzir alimentos. Um maior cultivo não garantiria o fim da fome na região e a solução teria de vir de uma nova estrutura agrária. Os especialistas apontam que grande parte do problema viria da concentração de recursos e terras, a mais grave entre todas as regiões avaliadas pelos especialistas. Apesar de ser uma potência agrícola, existem ainda na região 209 milhões de pobres. Mais de 30% da população miserável no campo não tem terra para cultivar. O estudo alerta que os acordos comerciais fechados nos últimos anos vêm pressionando os pequenos produtores. Segundo o levantamento, alguns países sofreram com o êxodo rural após acordos comerciais, como no caso do México com os Estados Unidos. Um dos principais alertas refere-se ao meio ambiente. Segundo os especialistas, a América Latina tem cinco dos dez países com maior biodiversidade e reúne 40% das reservas genéticas do planeta. Mas o documento adverte que a expansão da agricultura, principalmente no Brasil, está tendo impacto negativo no meio ambiente. Um exemplo é o avanço da agricultura na Amazônia, considerado preocupante. O fornecimento de água no Brasil também pode já estar sendo afetado pelas práticas degradantes no campo, além dos impactos negativos no Cerrado e no Pantanal. O levantamento alerta que 8% das terras do Cone Sul - 47 milhões de hectares - já estão sendo destinadas ao cultivo da soja e pede maior diversidade no campo para evitar futuros problemas ambientais. Segundo o estudo, entre 1970 e 2000, seis hectares de floresta foram desmatados na América Latina por dia - 60% dessa terra foi para agricultura. Mas 40% foram abandonadas ou usadas para a especulação. ETANOLOs especialistas também alertam sobre a expansão do etanol e pedem que os governos façam análises cuidadosas em relação ao impacto do combustível. Segundo o estudo, o etanol de fato cria oportunidades para o setor rural e para os pequenos agricultores. Porém, os principais impactos negativos estariam no meio ambiente e nos aspectos sociais. No Brasil, 13% dos herbicidas vão para a cultura de cana-de-açúcar, e a Embrapa já confirmou casos de contaminação de água no Estado de São Paulo. Há ainda o risco de que o etanol aumente os problemas de fome na região, se não houver planejamento. Na avaliação dos especialistas, a solução para a América Latina tirar proveito da agricultura para resolver os problemas sociais passa por um melhor uso da terra, maior acesso dos pobres à produção e a diversificação dos cultivos. Segundo eles, a região precisa introduzir um modelo que permita que a agricultura tradicional, a convencional e a agroecologia possam conviver. O estudo também destaca que o uso de novas tecnologias pode garantir a biodiversidade e ajudar os pequenos produtores.

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