ONU revê para baixo a previsão de crescimento do Brasil em 2014 e 2015

Foi o maior corte de estimativa entre as principais economias, mas a entidade ainda é mais otimista que os analistas consultados pelo BC do Brasil

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S.Paulo,

20 de janeiro de 2014 | 16h11

GENEBRA - A Organização das Nações Unidas (ONU) reviu o crescimento do Brasil em 2014 e 2015 para baixo. Foi o maior corte nas projeções entre as principais economias. Para a ONU, a economia brasileira deve crescer 3% neste ano e 4,2% no próximo. Isso significou uma importante redução na projeção originalmente estabelecida para a economia brasileira. A entidade ainda faz outro alerta: o déficit brasileiro pode ser um sério obstáculo para o crescimento nos próximos anos.

No ano passado, a ONU previa um crescimento de 4,5% para a economia brasileira em 2014. Agora, a redução é de 1,5 ponto porcentual. Para 2015, a queda é de 1,4 ponto. A esperança inicial era de um crescimento de 5,6%. Nenhum outro país registrou uma diferença dessa magnitude.

A taxa brasileira para 2014 e 2015 está dentro da média mundial. Mas é inferior à média dos emergentes. Entre as economias em desenvolvimento, a média de expansão deve ser de 5,1% em 2014 e 5,3% em 2015, segundo a entidade. Em 2014, a média de crescimento da América do Sul também ficará acima da taxa prevista para o Brasil. A ONU ainda revela que no período entre 2005 e 2012, o Brasil registrou um dos desempenhos mais fracos entre todos os emergentes. O crescimento médio foi de 3,6% e só os mexicanos e sul-africanos tiveram resultados mais negativos que o Brasil.

"Havia um otimismo muito grande e generalizado entre as instituições internacionais sobre o Brasil", admitiu Alfredo Calcagno, economista da ONU e que apresentou o informe. "Mas, em 2013, o Brasil foi um dos países que mais sofreu turbulências financeiras", alertou. 

Segundo a ONU, um fator que pesou foi a queda da demanda externa, principalmente do mercado chinês. Ainda assim, a ONU continua mais otimista que os economistas nacionais. O mercado financeiro, de acordo com o Relatório Focus, do Banco Central, espera crescimento de 2% este ano. Na semana passada, o Banco Mundial já havia alertado que o Brasil cresceria em 2014 abaixo da média mundial. Pela entidade, o PIB brasileiro deve se expandir 2,4%. Em 2015, segundo a instituição, o PIB deve crescer 2,7%.

"O Brasil ainda cresce a uma taxa baixa, freada pela fraca demanda externa, volatilidade nos fluxos de capital e endurecimento na política monetária", apontou a ONU. Para a entidade, uma previsão melhor para a economia brasileira "vai depender do fortalecimento da demanda global".

Em 2013, a ONU indicou que a desaceleração da China já foi amplamente notada nas exportações brasileiras. Mesmo que haja uma recuperação das economias ricas, o levantamento mostra que o mercado chinês será fundamental para o desempenho exportador do Brasil. Se em Pequim se confirmar uma mudança na política de importação, a ONU alerta que exportadores do Brasil e Austrália poderiam ser fortemente impactados no setor de minérios.

Fluxos. Mas os problemas no Brasil também tiveram uma relação estreita com os fluxos financeiros e a mudança de estratégia no Fed (o banco central dos Estados Unidos). Segundo a ONU, os emergentes sofreram pela primeira vez uma queda no fluxo de capital desde 2009.

Para a entidade, a queda no fluxo de capital teve um "impacto mais agudo em países como o Brasil e Índia, onde havia uma alta taxa de liquidez nos mercados e uma desvalorização acentuada das moedas". "Entre os grandes países emergentes, o Brasil foi o que experimentou os impactos mais significativos, incluindo a apreciação de sua moeda e que acabou minando as exportações".

Um terceiro fator que preocupa a ONU é o déficit de conta corrente no Brasil, aprofundada com a queda nos preços de commodities. Segundo a entidade, os desequilíbrios foram se acentuando desde 2011, o que seria resultado de um crescimento abaixo do esperado e de medidas para incentivar a expansão da economia. A situação na Argentina e México também preocupam.

Mundo. Para a economia global, a ONU aponta que 2014 será mais positivo que 2013. Mas alerta que a situação continua "vulnerável".

Neste ano, a taxa de expansão deve ser de 3%, contra 2,1% em 2013. Para 2015, o crescimento seria de 3,3%. A previsão é de que a recessão na Europa acabe. Mas isso não significa que a taxa de crescimento será elevada.

Entre os emergentes, a ONU alerta que dificilmente voltarão a registrar uma expansão no mesmo nível que existia antes de 2008.

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